Essa tristeza sem motivo

Dia desses, eu estava sentada no sofá de casa, lendo, quieta, desprevenida, quando percebi que ela foi chegando, se aproximando devagarzinho, até que se acomodou, me abraçou e ficou. Não sei se você tem isso, talvez todos nós tenhamos, uns mais, uns menos – essa companhia inesperada de uma tristeza que vem sem avisar, sem querer saber dos planos para aquele dia.

Eu me lembro de quando era criança e vinha essa tristeza, essa visita sempre muito repentina, muito exterior a mim. Eu estava brincando, feliz – até hoje, sou dessas que costumam estar felizes –, e chegava essa penetra, essa intrometida, que vinha sem avisar e também não avisava quando ia embora. E ela ficava, e meu ânimo, minha vontade, esses iam embora, e o jeito era aceitar.

Tristeza sem motivo. Aceito sem reclamar. Quando adolescente, eu tentava fugir, correr – depois voltei a aceitar, como na infância. Se a tristeza sem motivo me abraça, eu a abraço de volta, que nosso encontro é menos dolorido.

A tristeza sem motivo é interessante. É bem diferente da tristeza com motivo. Minhas tristezas com motivo, eu sempre tento curá-las com raciocínio. Pode ser vício, cálculo, pretensão. Mas eu tento e, muitas vezes, funciona. Se estou triste porque algo não deu certo, me convenço com argumentos de que foi melhor assim. Se, definitivamente, não foi melhor assim, faço um esforço para relativizar a questão. Humilho minha questão pessoal, colocando na frente dela os problemas do mundo. Envergonho minha questão temporal, esfregando na cara dela o tempo. Ou simplesmente rio da minha questão séria, fazendo pouco dela. Forço, o tempo todo, um duelo entre minha razão e meus sentimentos. Às vezes, leva tempo, mas a razão ganha. Sempre ganha. E lá estou eu, feliz de novo, felicidade nem sempre espontânea, alegria muitas vezes conquistada à força.

Mas com a tristeza sem motivo, esse método não funciona.

Não há espaço para duelos. Não há argumento que intimide uma tristeza tão pura, tão desconectada de raciocínios. Ela é tão distante de qualquer pensamento que não o entenderia, ela não se encaixa em pensamentos, ela não ri deles, ela nem os vê. Se tento argumentar, ela não me responde de volta. Se insisto, ela me abraça mais forte, me aperta, tenta me machucar. Melhor não competir. Melhor, nessas horas, deixar a hora para ela. Porque qualquer palavra é inútil, qualquer racionalização é cansativa e boba, e o tempo, afinal de contas, vai passar, e ela vai acabar indo embora, sem dizer a que veio, sem explicar se foi motivada por nada ou por todas as coisas juntas.

O bom é que, notei recentemente, a tristeza sem motivo gosta de chá quente.

Não sei a sua. A minha gosta.

Ela ignora qualquer argumento, ela não se deixa distrair facilmente por livros e filmes, ela não entende o mundo, mas se acalma com uma boa xícara de chá quente. Não cappuccino ou café: chá quente. Sopa, também. Já reparei. Ela se estressa com palavras, mas se acalma com sopa. E com abraços. Ela se sente incomodada com o mundo, mas talvez seja mais com o mundo adulto, porque aceita um gibi. Ela gosta de sol, de ar fresco. De ficar próxima à natureza – perto do mar, de um rio, uma montanha. Ela gosta, se acalma, agradece e vai embora.

Não me pergunte por quê.

Mas, como dizia Clarice Lispector, não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento… Se você costuma receber uma tristeza que não quer ser entendida, não sei. Mas eu costumo e, quando ela aparece, ofereço-lhe uma boa xícara de chá.

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Simplesmente Feliz e Sâmia

Dia desses, lembrei-me da Sâmia, uma garotinha que estudou comigo quando eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade.

Era sexta-feira e eu estava em casa assistindo ao filme Simplesmente Feliz. Geralmente, escolho um filme ou pelas sugestões de amigos que têm o gosto parecido com o meu, ou pelas resenhas dos críticos de que gosto – Sérgio Rizzo e Isabela Boscov são meus preferidos. Nem um crítico nem um amigo tinham me indicado Simplesmente Feliz, mas, desde que o filme entrou em cartaz, fiquei com vontade de vê-lo. Acabou que só vi quando saiu em DVD e, no fim das contas, não gostei nem desgostei. Passaria em branco na minha vida… Se não tivesse suscitado a lembrança de Sâmia.

Não me lembro de Sâmia desenhando ou participando de alguma brincadeira. Só me lembro dela me batendo ou batendo em outros colegas.  Quando eu me dava conta, lá estava ela, puxando meu cabelo com toda a força de uma menina de quatro ou cinco anos. Eu tinha medo e raiva de Sâmia.

No filme, a protagonista é uma professora do primário que leva a vida com uma alegria muito acima da média, para fazermos uma descrição bacana dela (outra opção seria: ela é absurdamente sem noção). Um dia, ela vê um de seus alunos batendo em outra criança. Ela aparta a briga da seguinte forma: solta os dois, deixa a vítima ir embora e permanece ao lado da criança que bateu na outra, perguntando-lhe carinhosamente por que tinha feito aquilo. Não obtém resposta. Alguns dias depois, vê a mesma cena se repetir, e resolve novamente tentar conversar com o pequeno agressor. Pergunta-lhe de onde vem aquela raiva, e ele, mais uma vez, nada responde. Ela pede ajuda à diretora. Dias depois, por meio de desenhos e frases soltas ditas com a mediação da professora e de um pedagogo, a criança acaba revelando que apanha do namorado da mãe.

Não sei se minha professora do primário chegou a conversar com Sâmia. O que sei é que, um dia, presenciei a seguinte cena.

Eu estava brincando no parque do colégio, quando Sâmia chegou, puxou meu cabelo com força e me deu vários tapas com suas pequenas mãos. Eu gritei, chorei, e a professora veio ao meu socorro. Ela afastou Sâmia bruscamente e concentrou toda a atenção em mim, até que eu parasse de chorar. Ela então segurou Sâmia e me disse: “Pode bater nela. Vamos, puxe o cabelo dela”. Olhei os olhos assustados da minha coleguinha, imobilizada. Por medo, por receio, por covardia, não sei por que, senti-me intimidada e não obedeci à professora. Eu me lembro direitinho da insistência dela: “Pode bater, eu estou segurando para que você bata! Vamos!”

Fico pensando se Sâmia tivesse tido a sorte de ser aluna de uma professora como a do filme. Depois de verificar que eu estava bem, essa professora concentraria seus esforços não em mim, mas nela.

Fico pensando em quando eu era mais velha, no colégio, e via os professores e diretores absolutamente indiferentes à violência cometida por alguns colegas contra os outros, o chamado bullying. Nenhum dos educadores se aproximava dos agressores para pesquisar as origens daquela violência, discutir as causas, pesquisar. Conversar.

Fico pensando, acima de tudo, de onde vinha aquela agressividade de Sâmia, no que o colégio poderia ter feito para ajudá-la e em como ela está agora…

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Filosofia: começando a ler

Começar a conhecer um filósofo por meio de um comentador é um método desaconselhável por muitos professores. Afinal, o texto do comentador está todo mergulhado em suas interpretações, e, quando for ler o filósofo propriamente dito, você já vai olhá-lo com o filtro dos outros.

No entanto, alguns textos de filósofos podem assustar quem começa a estudar filosofia. Além disso, para quem está começando, o filósofo pode ficar bem descontextualizado. Algo do tipo: mas por que esse autor está falando sobre essa dicotomia corpo/alma? Quando isso começou? Assim, a pessoa que estava cheia de boa vontade para aprender tem enormes chances de sair frustrada. Isso acontece muito com quem não estuda filosofia formalmente, numa faculdade ou curso livre, mas se interessa em ler os clássicos por conta própria.

Penso que os textos dos bons comentadores acabam funcionando como aulas. Nenhuma aula de filosofia, por melhor que seja, substitui a leitura dos filósofos. Mas, nas aulas, aprendemos sobre o contexto em que aquele filósofo está inserido, temos um panorama da obra daquele filósofo, enfim, temos uma ajuda para lê-lo. Talvez este seja um dos maiores mérito do bom professor de filosofia: ajudar o aluno a conseguir, ele mesmo, ler os autores – em vez de argh, fazer um resumão das obras.

Pensando nisso, resolvi indicar aqui alguns textos de comentadores que me ajudaram MUITO a ler os filósofos. Eles valem por várias e várias excelentes aulas, e certamente facilitarão bastante a leitura do filósofo comentado. Todos os livros abaixo fazem parte da bibliografia indicada por professores do meu curso ;-)

  • Introdução à Fenomenologia, do Robert Sokolowski, editora Loyola
    Eu não conseguiria entender muita coisa das Investigações Lógicas, texto bem importante do Husserl, antes de ler esse livro. E olha que eu estava tendo aulas maravilhosas. Mas as investigações são bem difíceis, e essa introdução as deixa MUITO mais palatáveis – principalmente se você tiver disposição para lê-las mais de uma vez, né.
  • Nietzsche – Civilização e Cultura, de Carlos Alberto A.R. de Moura, da Martins Fontes
    O problema do Nietzsche é que ele parece fácil, mas não é. É o que acontece com Rousseau e tantos outros autores, no seguinte sentido: eles têm textos gostosos de ler (não todos), então você acaba lendo como um romance e, no fim, tem um conhecimento meio superficial daquilo. Não é como Husserl, que já mostra de cara que a coisa não é simples :) Esse livro do Carlos Alberto (que me deu as tais aulas maravilhosas de fenomenologia) é simplesmente fantástico. Dá uma visão panorâmica da obra do Nietzsche e te deixa com vontade de ler tudo do filósofo.
  • Compreender Kant
    A Crítica da Razão Pura é um livro denso, mas até gostoso de ler, pelo menos eu acho. Mas  descontextualizado fica meio difícil. Esse livro, do Pascal, faz um resumão da crítica e de outras obras de Kant, e dá o pano de fundo da filosofia dele. É bem mais tranqüilo pegar a crítica depois dele. Mas quem quer começar direto por Kant pode recorrer a uns textos mais tranquilos dele. Um de que gosto muito é Antropologia de um ponto de vista pragmático, da editora Iluminuras.
  • Descartes – A metafísica da modernidade, de Franklin Leopoldo e Silva
    As aulas do Franklin são incríveis, mas não tive Descartes com ele, e sim Kant. Esse livro dele sobre Descartes é muito, muito bom. Por mais que as Meditações sejam uma delícia de ler, se você não lê muita coisa de filosofia e aceita uma sugestão, comece por esse. E, depois, se aventure nas Meditações, no Discurso do Método e tantos outros!
  • Espinosa – uma filosofia da liberdade, de Marilena Chauí, editora Moderna
    Li três vezes no primeiro semestre da faculdade, enquanto lia a Ética e o Tratado da Emenda do Intelecto, ambos de Espinosa. Esse livro da Marilena é bem didático, com direito a um glossário e uma antologia no final, bem legais.
  • Introdução de A República, de Platão, da Martins Fontes
    Foi escrita pelo professor com quem fiz a disciplina de Filosofia Antiga, o Bolzani. A República é maravilhosa de ler, assim como tudo de Platão (na minha opinião, hehe), e essa introdução, que tem umas 50 páginas, é uma ótima… introdução. Dã.
  • Os princípios filosóficos do Direito Político Moderno, de Simone Goyard-Fabre, Martins Fontes
    Livro ótimo para quem se  interessa em estudar filosofia política. Depois da leitura, vai fazer bem mais sentido ler Maquiavel, Hobbes, Locke, Rousseau…

P.S.: não me pergunte por que o último livro ficou torto. Depois de uns quinze minutos, desisti!

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As pessoas que gostam de ficar sozinhas e o mundo

Uns dez anos atrás, um amigo muito querido me disse que eu poderia viver tranquilamente numa caixa.

Estávamos conversando sobre solidão e ele disse que eu parecia gostar mais de viver sozinha do que com os outros. De fato, se penso nos momentos da minha vida em que me sinto mais feliz, mais plena, vou achar muitos instantes solitários. Talvez a maior parte da minha lista de prazeres pertença a esse grupo. Amo dirigir à noite por São Paulo; se tem algo que me deixa feliz é voltar da faculdade dirigindo sozinha e ouvindo música no carro. Me sinto tão bem quando como um doce, trabalho em casa há dois anos e passo o dia todo só e quase sempre me sentindo muito bem. Adoro ficar deitada lendo, amo ficar sozinha em casa escrevendo, vivo indo sozinha ao cinema, a um café.

Por causa da frase do meu amigo, fiquei com essa pulga atrás da orelha: eu, que sempre me considerei sociável, era na verdade uma eremita, para usar a palavra de uma amiga sobre mim? Ou: eu estou mais para gato do que para cachorro, para usar o termo de uma outra amiga?

O que nem eu nem meus amigos tínhamos pensado é que nós, as pessoas que gostam de ficar sozinhas,  nunca estamos sós. Porque, mesmo quando não estamos com os outros, estamos interagindo com o mundo. E é isso que me dá prazer. Dirigir por São Paulo à noite num carro que comprei na concessionária, obedecendo às regras do trânsito, passando pelas pessoas na rua. Comendo um doce que alguém fez, trabalhando em casa usando msn e twitter, ouvindo música que outras pessoas produziram, entrevistando pessoas, lendo livros que outras pessoas escreveram, escrevendo e gostando de ser lida, vendo filmes e tomando cafés que as pessoas fizeram, esbarrando com pessoas na rua.

Mesmo nós, as pessoas que se dão bem com a solidão, estamos com as pessoas o tempo todo, e como isso é bom. Não sei se vocês viram aquele filme Eu sou a Lenda, com o Will Smith. Eu nunca gostei muito de ficção científica, com algumas exceções – a mais notória delas talvez seja O exterminador do Futuro. Mas meu marido veio com esse filme em casa e me pediu para assistir 10 minutos com ele, e acabei não conseguindo parar de ver. Como fiquei impressionada com a terrível solidão do protagonista! Tive pesadelos com aquele filme, que me atrapalhou até a dirigir por um tempo, porque a todo momento eu ficava imaginando zumbis pulando no meu carro, haha.

Mas o que me motivou a escrever este post não foi a lembrança do diálogo com meu amigo, mas a leitura de uma entrevista com um médico que afirmava que há muito mais pessoas em coma e com a consciência funcionando do que a gente pensa. Porque estão estáveis no coma, esses pacientes não são mais submetidos a exames neurológicos – mas vários deles despertaram depois de alguns meses ou anos e estão lá, pensando normalmente, mas fechados em si mesmos, trancados. Num estado ainda mais dramático do que o do protagonista do filme O Escafandro e a Borboleta (história real baseada num editor da Elle francesa, assistiram?), essas pessoas não interagem com o mundo exterior nem com os olhos nem com nada: não enxergam, não se movem, algumas nem ouvem. Só pensam. Por cinco, dez, quinze anos. Imaginem que terrível seria viver assim, com o intelecto absolutamente normal, mas separado da maravilha que é interagir com o mundo?

Meu querido amigo estava completamente enganado sobre mim: eu odiaria viver numa caixa. Eu amo o mundo, e acho que todas as pessoas que gostam de ficar sozinhas também. Quem não amaria?

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Sobre cinema e reflexão (ou: Uma apologia da história)

Na minha opinião, aquela velha divisão entre filmes para esquecer da vida e filmes para refletir é muito antipática.

Os primeiros são os chamados filmes bobos, hollywoodianos, previsíveis, amarradinhos, cheio de atores bonitos, gran finale, de preferência feliz etc. Os últimos são os filmes cult, com mais profundidade do que orçamento, pontas soltas, finais nem sempre felizes, finais que nem sempre finalizam etc.

Eu, que fui extremamente afetada pelo filme A Turba, do alemão King Vidor, e que também sou fã da série Homem-Aranha, fico sempre achando que, no meio desses rótulos todos, o que mais importa para mim, como espectadora, é a história.

Tenho uma visão bem infantil nesse aspecto. Digo bem infantil porque essa visão começou quando eu tinha uns cinco anos e não mudou muito de lá para cá. Você pode considerar meio psicótico, mas, para mim, os personagens existem mesmo. Não é faz-de-conta: eles existem.

A vida deles não é como a nossa vida, que começa na maternidade e termina no cemitério, digamos. A vida deles começa e se encerra na história. Se a história tem uma continuação em que mudou o ator principal, se a história tem elementos completamente inverossímeis, se o roteiro tem buracos, se o produtor alterou a versão do roteirista e o filme terminou do jeito X em vez do jeito Y: não importa, a vida dos personagens é assim.

Vivemos atrás de uma explicação para nossas vidas. Mas as vidas dos personagens têm uma origem bem definida: começam com a idéia do autor. Eles não sabem disso, mas a gente sabe, assim como, por que não,  um outro mundo maior pode saber deste nosso (certo, menos viagem daqui para frente). E mais: se alguma coisa sem muita explicação acontece na vida dos personagens, é por causa dessa origem, que a gente conhece, mas eles não.

Para usar um exemplo bem extremo: em Sex and the City 2, tem aquela cena (spoiler, hein) em que as muçulmanas tiram as burcas e mostram suas roupas de marca pode parecer ridícula para muita gente. Eu mesma achei desnecessário, mas isso quando penso na produção, na direção, no roteiro: em tudo o que remete à origem daquele mundo dos personagens. Mas, naquele mundo mesmo, esse detalhe não interfere em nada. Porque o mundo em que a Carrie, a Miranda, a Charlotte e a Samantha vivem é assim: mil coincidências acontecem, elas vivem aventuras incríveis, elas saltam com facilidade de um táxi para um camelo e tudo bem. Como a pintura de um cachimbo não é um cachimbo, uma história de cinema não é nossa vida. É a vida dos personagens.

Sinto isso em qualquer história, tanto no cinema como na literatura. No teatro, nem tanto, porque tenho dificuldade de entrar na história (mas isso é tema para outro post). Em livro e filme, costumo entrar imediatamente nessa outra porta, nesse outro universo, e como amo ser iludida, como amo acessar outra vidas, não importa se estou lendo Luluzinha ou Balzac, Meg Cabot ou Flaubert, Calvin ou Mario Vargas Llosa.

Claro, vendo a vida dos personagens, podemos refletir, podemos rir, podemos inclusive fazer análises sócio-político-econômicas, mas é aí que volto para o primeiro parágrafo. Acho antipática essa divisão entre filmes para refletir e filmes para esquecer a vida simplesmente porque eu posso muito bem refletir por dias depois de ver um filme como Sex and The City, assim como posso pegar o metrô e voltar a pensar nos meus problemas bancários depois de ter visto um filme cult que não me afetou.

Já aconteceu de eu não refletir nada numa aula de filosofia contemporânea, e refletir muito depois de ver um cara vestido de pizza na Paulista. Simplesmente não é o filme que vai me mandar refletir ou não sobre algo: depende do meu estado de espírito, depende se aquela questão abordada me toca, depende como estou no dia. E tem gente que costuma refletir sobre tudo, e tem aqueles que não refletem sobre nada, que dormem em filmes cult pretensamente cheios de sentido.

A propósito: adorei Sex and The City 2 e sou uma grande fã da série. E como é chato ouvir de várias pessoas que as moças são fúteis, que são reflexo dessa nossa sociedade-ocidental- individualista-consumista e que, portanto, o filme é um lixo. Espera, espera. Concordo que elas são fúteis, consumistas etc (elas não são só isso, tá! Mas ok, concordo e vou calar meu lado fã). Mas desde quando filme tem que retratar as  pessoas como elas devem ser?

Os personagens são o que são: não têm a tarefa de ser modelos de comportamento. Não preciso ser a favor de assassinatos de velhinhas para ler Crime e Castigo. Se eu rio com a futilidade das moças de Sex and The City, não significa que eu faça apologia dessa futilidade… E muito menos que eu ache que o mundo real deva ser assim. De novo, é o mundo delas. Se vamos fazer análises sobre o nosso mundo a partir do filme, ótimo; se vamos usar as atitudes das moças para exemplificar nossas idéias, legal, mas não precisamos exigir que o mundo delas seja de outro jeito. Deixemos o mundo dos personagens em paz! Aliás, é muito divertido ler e ver coisas com personagens “erradinhos”. Adoro ver como eles metem os pés pelas mãos. Como diria André Gide, com bons sentimentos, faz-se má literatura…

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Não se julga um livro pela capa?

Outro dia, eu estava na Fnac da alameda Santos,  aqui perto de casa, namorando a coleção completa do Calvin, quando ouço o diálogo de duas amigas.

Amiga um: olha esse livro, que lindo! Será que é bom?
Amiga dois: pode até ser, mas ser lindo não tem nada a ver com isso, né? Não se julga um livro pela capa.

“Não se julga um livro pela capa”: discordo.  Não no sentido metafórico, que não vem ao caso. Mas falando de livro-livro e capa-capa… é claro que eu julgo um livro pela capa! Não SÓ pela capa, mas é claro que a capa conta, pelo menos algumas vezes.

Capa, não só de livro como de revista e de qualquer coisa que tenha capa, tem um propósito: ela comunica, diz algo sobre o conteúdo. Se a capa não tem nada a ver com o livro, ela é uma capa ruim. Se você abre uma revista que tem uma capa como a da Playboy e o conteúdo é de jardinagem, ela é uma capa péssima! Péssima como esse exemplo, aliás, mas enfim…

Eu, então, que evito ler resenha de livro antes de lê-lo – isso merece parênteses –, recorro à ajuda da capa muitas vezes. Não todas as vezes: costumo comprar livros ou pela indicação de amigos, e aí não levo em conta a capa, ou pela minha experiência feliz de leitura daquele autor X, ou então pela vontade de ler algo daquele autor Y. Mas, mesmo nesses casos em que escolho pelo autor, a capa pode me ajudar a decidir qual dos livros daquele autor vou levar.

(Os parênteses: resenha, orelha, quarta capa (a parte de trás do livro, para quem não sabe): tudo isso costuma ser reduto de spoilers, e nunca vou me esquecer de quando, na metade de O Idiota, do Dostoiévski, fiz a bobagem de ler a orelha e li lá qual personagem seria assassinado, simplesmente isso, qual personagem seria assassinado! Pessoas podem ler Dostoiévski por mil motivos, podem inclusive não se importar nem um pouco por saber de antemão o final da história, mas eu, não: eu não quero saber a história antes de ler, não quero saber o meio nem nada: quero ler orelha, resenha etc só depois de ter lido a história. Abro exceção para um ou outro resenhista que sei que não costuma ser spoiler, e já comprei alguns livros por causa dessas resenhas. Filmes: as resenhas de alguns determinados críticos, leio. Olhar o que está escrito atrás da caixinha do DVD, nem pensar.)

Acho que é limitado julgar um livro só pela capa; há vários livros excelentes com capas inadequadas. Mas a capa é um importante elemento para julgarmos um livro, ainda mais para quem, como eu, tem essa questão com as resenhas. Pela capa, podemos ser informados de algum elemento importante da história do livro, e podemos saber se o livro é leve, lírico, divertido, triste, romântico,“artístico” (coloquei entre aspas porque esse é um termo tão complicado, né). Para além desses rótulos – leve, lírico, etc –, capas bem feitas informam lindamente a atmosfera, o clima, a personalidade daquele livro, e por isso admiro demais o trabalho dos capistas.

Aí abaixo vão algumas das capas de que gosto e que acho que dizem muito sobre o livro.

  • Eu tinha lido Travessuras da Menina Má, do Mario Vargas Llosa, e adorado. Escolhi Elogio da Madrasta, também dele, 100% pela capa, que tem mesmo tudo a ver com o livro, mas não gostei. Ainda querendo ler mais um livro dele, escolhi este, Tia Julia e o Escrevinhador, pelo título e pela capa. Não sabia nada do livro e realmente me apaixonei. E adoro a capa (por isso ela está aqui, dã).

  • Este aqui, Beleza e Tristeza, do Kawabata, não escolhi pela capa, mas porque uma amiga tinha indicado e a gente costuma gostar dos mesmos livros. Mas acho a capa perfeita para esse livro (aliás, excelente livro).

  • Um dos livros da minha vida. Li em português, mas vi a capa dessa edição na internet  e  escolhi por ela. Essa imagem me chamou muito a atenção e eu estava com vontade de ler um autor americano. Na hora em que fui comprar, vi a foto do Leonardo di Caprio e da Katie Winslet na capa brasileira e aí vi que era o livro do filme Foi Apenas um Sonho, haha.

  • Eu queria muito ler um livro da Herta Müler, ganhadora do Nobel; minha cunhada tinha acabado de ler este e me emprestou. Acho que a capa mostra muito da sobriedade da história e do estilo de narrativa. Não gostei tanto deste livro, mas que a capa o apresenta bem, apresenta :)
  • Estava na República Dominicana e queria ler um livro em espanhol. Tinha curiosidade de ler algo da Isabel Allende e vi um monte de livros dela na prateleira da livraria, e escolhi esse 100% pela capa: não tinha ouvido falar desse livro (acho que só eu, né) e não gostei da palavra “espíritos” do título, porque não queria ler um livro com espíritos na história. Mas comprei e adorei, adorei esse livro.

  • O que me chamou a atenção primeiro, confesso, foi o fato de esse livro estar numa estante que tinha a placa: Tudo por 19,90.  Peguei e fiquei hipnotizada pela imagem.  Queria ler um livro do Tolstói havia algum tempo e levei toda feliz. Esse livro foi um dos melhores que li ano passado.

  • Eu estava em Auckland, na Nova Zelândia, e queria ler um livro fácil em inglês. Nem precisei abrir o livro para saber que esse era fácil, alegre e divertido (e mulherzinha!) Ri do começo ao fim.

 

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Papo de bar (ou: a delícia de falar por falar)

Aconteceu faz tempo. Eu estava num bar, numa mesa cheia de gente, aniversário de uma amiga. Conversa vai, conversa vem, eu e um estranho começamos a falar sobre qualquer coisa. Diferenças entre homem e mulher, se não me engano. Ele solta umas opiniões divertidas, solto outras, brigamos de mentirinha, rimos bastante, e daí nos damos conta de que estamos sendo observados por uma garota muito séria, que nos olha de um jeito muito sério e diz:

- Não acredito que vocês estão falando isso. Não podem estar falando sério!

Ora, é claro que não estávamos falando sério! Estávamos conversando sobre qualquer coisa e rindo, estávamos num bar, pelo amor de Deus.

Já tive longas e produtivas discussões em bares (vazios e minimamente silenciosos), mas sempre com pouca gente, no máximo duas ou três pessoas, e pessoas que já conhecia. Gente que já sei que não levanta a voz em público (sou bem fresca nesse ponto, admito!), que não discute por competitividade, mas pelo simples prazer de trocar e, quem sabe, aprimorar conhecimentos, que não é cheia de preconceitos, que sabe ouvir… Até hoje, nessas situações com condições ideais de temperatura e pressão, entro em conversas “sérias” num bar. Mas parou aí. Mesa cheia, vários desconhecidos, barulho, gente levando a sério, gente levando na brincadeira, gente sóbria, gente bêbada, cada um com uma opinião, cada um com um jeito de discutir, cada um com uma visão do que é uma discussão? Nem pensar. Se o tema começa a se aprofundar, faço questão de voltar, feliz, para a superfície.

“Não dá mesmo para ter uma conversa séria com música tocando, garçons gritando, a mesa inteira rindo”, comentei outro dia com um colega da filosofia, ou melhor, das ciências sociais, mas que faz uma matéria da filo comigo, e  foi daí que nasceu este post. Ele completou: “Se tiver uma mulher que não tira os olhos de você, então… Não dá mesmo!” Eu estava concordando com ele, que dizia adorar se esquecer do mestrado e da vida numa mesa de bar.  “Meu mestrado vira uma piada atrás da outra, meu estudo vira uma coisa ridícula, os autores que admiro tanto se transformam em arrogantes faladores de m…”. Começamos a conversar sobre como é gostoso falar de banalidades, falar de coisas engraçadas, tornar engraçadas coisas sérias, simplificar complexidades…  falar por falar.

Falar por falar: a menina do primeiro parágrafo seria muito mais feliz se conhecesse a beleza de falar por falar, em vez de levar tudo a sério. Falar por falar é uma delícia, ainda mais numa mesa de bar. Falar por falar é de suma importância para as mesas dos bares! É divertido, é gostoso, descansa, relaxa e vai muito bem com uma porção de filé com fritas.

Se as conversas de bar tivessem mais silêncio do que palavras, e se essas palavras estivessem em expressões como “não sei”, “ainda não refleti o bastante sobre isso”, “cito a seguinte passagem” etc, o bar seria tudo, menos bar. As frases de bar são curtas, interrompidas a todo instante, sobrepostas, correm em ritmo rápido. Séculos de pensamento são resumidos em alguns aforismos, argumentos longos são substituídos por piadas, o passado é analisado facilmente em vinte segundos, o futuro em trinta. No bar, a gente sabe tudo, tem uma hipótese a respeito de qualquer coisa e, num discurso de um minuto, pode resolver os problemas da economia brasileira, decidir as próximas eleições e oferecer a saída perfeita para um capitalismo menos selvagem.

Em conversa de bar, cabe qualquer tema, mas não de qualquer modo: tem que ser agradável, leve, engraçado, e, se o preço disso for ficar na superfície, ótimo! No dia seguinte, cada um volta para sua vida, a cabeça volta a funcionar a pleno vapor e o mundo também, esse mundo maluco, cheio de banalidades e de coisas sérias.

P.S.: estava aqui pensando, quando terminei de escrever o texto… Acho um perigo confundir Twitter com mesa de bar! A palavra escrita tem força, e pode ser guardada, e as pessoas podem te cobrar, e seu chefe ou seu namorado podem não achar graça nenhuma. #Ficadica: vai para o bar! :)

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O trabalho e o brilho dos olhos

Uma coisa que ouço com freqüência é que deve ser maravilhoso trabalhar com o que se gosta.

Meu marido adora me dizer isso. Como todo mundo que fala isso, ele não gosta do que faz e só trabalha porque precisa ganhar dinheiro. Ok, sejamos justos: não é que ele odeie seu dia-a-dia de gerente de finanças. Mas, se ele ganhasse na Mega-Sena, não mexeria com planilhas nem mais um dia da sua vida. Aliás, acho esse um ótimo método para alguém avaliar se ama o que faz: se você ficasse milionário, continuaria fazendo o que faz? Aliás parte 2, meu marido vive jogando na Mega-Sena.

Tenho uma amiga que é designer. Quando fiz essa pergunta-teste da Mega-Sena para ela, ela respondeu que, se ficasse milionária, sairia da agência onde trabalha na mesma hora… E passaria sua vida trabalhando em projetos bacanas, porque, afinal, ela, sim, ama o que faz.

Então, o que separa esses dois mundos, o das pessoas que só trabalham porque precisam de dinheiro e o daquelas que amam o que fazem, é, basicamente, o que elas gostam de fazer no tempo livre. Porque, quando não está trabalhando, meu marido ama ver filmes, sair com os amigos, ler, jogar jogos de computador, essas coisas. E minha amiga designer também gosta de tudo isso – menos a parte dos jogos de computador –, mas, no tempo livre, também ama ler sobre design, pensar sobre design, sonhar com design. Nem precisava: mesmo quando ela não está pensando em design, está vendo o mundo com os olhos de uma designer: porque uma pessoa que ama o que faz está sempre conectada com aquilo que ama, ao contrário da pessoa que trabalha só por dinheiro. Um bom exemplo é um amigo meu que trabalha no Banco do Brasil e, nas férias, fica com raiva só de passar na frente de uma agência.

Um exemplo oposto é o de um amigo comediante que, quando viaja a lazer, aproveita para relaxar a mente e… ter idéias, anotar piadas, pensar em futuros projetos. Uma vez, conheci um empresário do ramo alimentício, apaixonado pelo que fazia. Nas viagens, ele se divertia muito mais visitando centros de distribuição de alimentos do que museus e parques! “Fiquei 5 horas no Ceasa de Buenos Aires, foi incrível”, ele me disse, certa vez. Olhos brilhando. Porque quem ama o que faz tem isso, os olhos brilham.

Agora, vamos à parte não-poética dessa coisa toda. Aquela de que as pessoas que não amam o que fazem raramente se lembram. Aquela que as pessoas que só trabalham por dinheiro ignoram, quando mordem os lábios e dizem: “Que inveja ter um trabalho como o seu! Queria tanto gostar do que faço!”

Quando você ama o que faz, você fica eufórico quando as coisas estão indo bem, é verdade, mas você pode ficar muito, muito mal quando as coisas vão mal. Tenho um amigo ator que já chegou a chorar por testes em que não passou.  Uma outra amiga atriz passa meses triste, triste mesmo, quando a carreira está indo mal. Ela vê filmes, vai ao teatro, sai com os amigos, mas é como se a vida tivesse perdido a cor, como se tudo ficasse sem graça, porque o que ela ama, que é atuar, não está dando certo. Se alguém fala que ela está mal num papel, aliás, ela entra em crise existencial. Já se o chefe do meu amigo que trabalha no banco reclama de uma planilha dele, ele fica meio envergonhado e corrige o erro – e manda mentalmente o chefe para a pqp, dependendo do dia.

Meu marido, se tem uma fase ruim no trabalho, fica novo em folha depois de um fim de semana. Uma partida de futebol na TV, um bar com os amigos e pronto: ele nem se lembra que trabalho existe. Trabalho e ele são coisas completamente separadas: se o primeiro está bem, o outro pode estar mal e vice-versa. Afinal, é tudo uma questão de dinheiro, e lá está ele, sempre conferindo os bilhetes da Mega-Sena.

Mas, quando você ama seu trabalho, você se envolve muito com ele, até porque ele não está separado de você. Ele faz parte de você, ele está colado, grudado, enfiado de tal maneira em seu coração que, se você fosse proibido de fazer o que faz, você seria outro você e sua vida, outra vida.

Bom, mas o que é melhor, amar o que fazemos ou não?

Como se desse para escolher.

Se você ama uma atividade e não for masoquista, vai fazer essa atividade, mesmo que não ganhe um centavo por isso. É o caso do engenheiro que adora escrever, e que trabalha para uma empresa de construção civil, e que escreve no tempo livre, e que reclama de como é difícil ganhar a vida como escritor e que amaria trabalhar só com isso – como os que trabalham por dinheiro, ele não sabe que não é fácil trabalhar com o que gosta.

Se você não ama o que faz, vai ficar como meu marido, trabalhando por dinheiro e aproveitando maravilhosamente bem os momentos da vida que não envolvem trabalho.

E, se você ama o que faz, vai ser muito feliz e amar a sua vida, e vai aproveitar inclusive os momentos que não estão diretamente ligados ao seu trabalho… Mas só quando as coisas estão dando certo para o seu lado. Porque, quando não estão, você vai ficar miserável, e amaldiçoar o universo, e pensar em jogar tudo para o alto, e questionar seu talento, e sentir inveja de quem trabalha só por dinheiro.

Mas, no fundo, tudo isso é passageiro, porque, logo, logo, você, que ama o que faz, vai estar cheio de idéias para virar o jogo e conseguir colocar em prática seus projetos, e vai estar agitado e eufórico com essas idéias. Porque as pessoas que amam o que fazem são agitadas e eufóricas. E as pessoas que não amam o que fazem costumam achar isso bonito na gente. E, pensando bem, é bonito mesmo.

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Aquela rua

Eu devia ter uns oito anos quando meu pai se mudou para aquela rua.

Não seria por muito tempo. A ideia era passar alguns meses naquele antigo sobrado até que terminasse a reforma do apartamento novo. Então fomos eu, meu pai, meu irmão e nosso cachorrinho, um husk siberiano lindo, branco e preto, de olhos azuis, chamado Dragon – quem escolheu o nome foi meu irmão.

Naquela época, a minha futura situação no meu colégio já estava desenhada. Na verdade, estava mais para um garrancho do que para um desenho: minha popularidade na escola só caminharia de mal a pior. Eu me achava feia, esquisita e desengonçada, e, para piorar, todo mundo me achava feia, esquisita e desengonçada.

Eu me sentia um pouco mais aceita no prédio onde minha mãe morava, apesar de que lá não havia muitas crianças para me aceitarem. Eram só algumas garotas três ou quatro anos mais novas do que eu, e três ou quatro anos para uma criança são muita coisa. Aliás, meu irmão é quatro anos mais velho, o que significa que, em casa, quando eu era sua única companhia, ele brincava bastante comigo – mas, lá fora, ele tinha a turma dele. Nos prédios onde meu pai morava, nunca tinha criança. Definitivamente, metros quadrados e localização contam mais na hora de seus pais escolherem um apartamento do que a presença de crianças.

Até que meu pai se mudou para aquela rua.

Lembro direitinho do primeiro fim de semana lá. A rua era calma, só de casas. Não tinha muito carro e meu pai me deixou brincar lá fora. Dois minutos depois, chegou a primeira criança para conversar comigo. Ela tinha a minha idade. Dois minutos depois chegou outra criança, e mais outra, e mais outra. De repente, eu me via dentro de um grupo de dez, doze crianças, todas vizinhas. Meu Deus! Minha alegria era tanta que parecia que eu tinha sido transportada para uma terra longínqua. Não era uma nova rua, era um novo universo paralelo, eu tinha certeza.

Tinha a Joana, que fazia picolés para a gente vender nas casas. Tinha a Patrícia, prima dela, que tinha dois gatos. Um dia, um dos gatos sumiu e passamos o dia inteiro na rua, procurando por ele, com direito a lanterna, corda, bússola! Tinha a Ju, que sempre nos chamava para tomar café na casa dela à tardinha – como era bom sentir o cheiro do biscoito de queijo que a mãe dela fazia, e mais ainda, fazer parte daquele bando alegre de crianças que ia lá comer os biscoitos de queijo, e tomar suco de uva, e depois voltar alegre para a rua! Tinha o Daniel, que gostava de mim. Eu mal podia acreditar: tinha o Daniel, que gostava de mim! Ele era um ano mais velho, usava óculos e isso é tudo que me lembro dele, além do fato de que… Deus, ele gostava de mim, e todas as crianças daquela rua sabiam disso, e como isso me deixava feliz.

Lembro de como era bom, à noite, ficar sentada com todos aqueles amigos na calçada. Da rua, eu via as luzes dos filmes a que meu pai assistia na televisão, as luzes refletidas nas paredes do sobrado. A gente ficava vendo as luzes e conversando, até que alguém pegava uma bola, até que a gente brincava de mês e telefone sem fio, até que meu pai me chamava para dormir e, no dia seguinte, começava tudo de novo.

Mas é claro que tinha o apartamento. A reforma. O apartamento muito maior e melhor do que aquele sobrado, numa rua melhor e cheia de prédios.

Não participei da mudança. Não me despedi de ninguém. Eu estava na casa da minha mãe, quando meu pai ligou, feliz, dizendo que, no fim de semana seguinte, já estaríamos no novo apartamento.

Então, passei os finais de semana seguintes naquele apartamento gigante, lindo, é verdade, mas num prédio sem crianças. Depois, eu conheceria dois vizinhos, o Gustavo e a Carol, mas isso era depois. Naquele momento, tendo como universo o prédio do meu pai, o prédio da minha mãe e a escola, eu me sentia completamente sozinha.

Não sei por que, mas nunca pedi que meu pai me levasse de novo àquela rua. Criança tem umas coisas. Na minha cabeça, era como se fosse impossível voltar: como se eu tivesse sido arrancada da minha dimensão paralela pelos adultos, e só pudesse voltar se alguma mão mágica me levasse para lá novamente.

O fato é que só vários anos depois, quando eu já estava no último ano do colégio, é que, andando pelo bairro, indo ao supermercado, errei o caminho e fui parar sem querer naquela rua. Levei um tempo para reconhecer o sobrado – o meu sobrado, e depois o da Joana, e depois o do Daniel. Não era possível! Aquela rua, aquela dimensão mágica da minha vida, aquele mundo distante, ficava a apenas cinco quadras do apartamento reformado, onde eu ainda morava. Cinco quadras.

Por algum tempo, fiquei ali parada. Eu não era mais criança, mas, mesmo ocupada com os estudos para o vestibular, imediatamente voltei no tempo e revi com toda força os meus dias naquela rua. Cinco quadras! Eu devia ter voltado. Devia ter pedido ao meu pai, ao meu irmão, eu devia ter gritado! Devia ter contado para eles o que aquela rua representava na minha vida… Devia ter contado que tinha a Joana, os gatos da Patrícia. Tinha o Daniel, e ele gostava de mim. O que o Daniel teria pensado quando percebeu, de um dia para o outro, que eu não morava mais lá?

Mas não adiantava pensar nessas coisas. O tempo tinha passado e eu tinha uma tarde de estudos pela frente. Então, respirei fundo, fui ao supermercado e voltei para o apartamento – o tal apartamento grande e reformado num prédio sem crianças, mas e daí, agora eu já não era uma delas.

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Ela e as mudanças dela

Decidiu que estava farta de ser quem era.

Era preciso, então, escolher quem seria dali em diante. Por isso, sentou-se no sofá com uma expressão decidida, papel, caneta e um pacote de bolachas – o que não era necessário à decisão, mas, bem, as bolachas eram de chocolate e ela estava com fome.

Do que não gostava em si mesma? Do jeito estabanado de andar. Com certeza, do jeito estabanado de andar. Ah, e do hábito de chorar por qualquer coisa. Só de se lembrar disso, tinha vontade de chorar! Não gostava do nariz e da barriga, mas isso não vinha ao caso. Afinal, não era hora de frivolidades: a mudança era interna. Queria ter mais coragem, isso sim – era medrosa. Queria ter coragem, muita coragem, inclusive para fazer plástica no nariz e na barriga se tivesse vontade, por que não? Não precisava se envergonhar de seus sonhos.

Começou a anotar tudo o que gostaria de mudar quando se lembrou de seu chefe. Tomás era uma dessas pessoas que parecem ter nascido com o pacote chefe. Não falava, indagava. Não olhava, intimidava. Não conversava, cobrava. Tomás tinha cara de chefe, voz de chefe, roupa de chefe, cabelo de chefe, cheiro de chefe e nariz de batata – não há um padrão de narizes de chefes.

Estava decidido. No dia seguinte, ao chegar ao escritório, usaria sua nova personalidade para mudar sua relação com Tomás. Se ele quisesse, que a demitisse! Afinal, ela agora tinha coragem.

Mal podia esperar. Ao chegar, encontraria Tomás em sua mesa, como encontrava todos os dias. Mas não passaria por ele com a cabeça baixa. Não, não. Olharia fixamente nos olhos dele. Não murmuraria “bom-dia” com um fio de voz, como de costume: se preciso, gritaria! Não deixaria que ele a amedrontasse, em nenhum momento do dia. E aproveitaria para, no fim da tarde, pedir um aumento. Fazia tempo que queria pedir um aumento, mas não tinha coragem. Agora, depois de escrever naquele papel tudo o que queria mudar, não só tinha coragem, como um andar confiante e o hábito de não chorar por qualquer coisa.

No dia seguinte, acordou já se espreguiçando de um jeito diferente. Estava animada para desfilar com sua nova personalidade como quem estreia um lindo par de sapatos, e saiu de casa com seu novo jeito de andar. Claro, chegou ao escritório um pouco dolorida, mas que par de sapatos novos não causa dor?

Andou pelo corredor. A três metros de virar a baia e dar de cara com Tomás na mesa dele, respirou fundo. “Você vai conseguir, amiga”, disse para si mesma. Gostava de se chamar de amiga nessas horas. Com seu novo jeito de andar, deu mais um passo. Outro passo. E mais outro. Quando finalmente viu a mesa de Tomás… ele não estava lá.

Isso nunca tinha acontecido. Por alguns instantes, ela ficou de pé, imóvel, confusa. O que faria agora?  De repente, que susto! Tomás apareceu pelo outro lado, intimidando-a com o olhar.

Então, ela imediatamente abaixou a cabeça e murmurou: “Bom dia”.

E, quando o fim da tarde chegou, o pedido de aumento não veio junto.

Mas tudo bem. Depois do expediente, ela se consolaria no shopping, comprando um par de sapatos novos. Ah, e na segunda-feira, começaria uma dieta – um objetivo bem mais fácil de ser conquistado. Claro, desde que ela não tivesse que abrir mão das bolachas de chocolate.

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