Ele decidiu viver só para ele.
Não era assim que as coisas funcionavam? Individualidade era um valor forte da cultura em que estava inserido, havia dito um sociólogo num programa de TV. Mas não era preciso ser sociólogo para constatar isso. Afinal, havia os anúncios de publicidade. Os seriados. As caixas de cereal. Sim, as caixas de cereal: não era nelas que ele lia, toda manhã, dicas como “seja você mesmo”, “faça o que tem vontade” e até mesmo “faça o seu destino”? Então.
Os filósofos gregos se perguntavam qual a melhor maneira de viver a vida, mas parece que os contemporâneos dele tinham encontrado a resposta: ser livres para fazer suas próprias escolhas, consumir para atenuar as angústias, viajar, curtir. Cada um do seu jeito. Cada um na sua. Não era assim?, pensou ele. Então, para que remar contra a maré?
Ele trabalhou, ganhou dinheiro, exigiu ser respeitado quando pintou o cabelo, quando raspou o cabelo, quando mudou de orientação sexual, de religião, de ideia, de estilo de roupa, de estilo musical. Ele se entusiasmou e mudou a cor da pele, mudou de gênero, engordou, emagreceu e envelheceu, sempre deixando muito claro que queria ser respeitado como indivíduo.
Ele também queria ter seus bens respeitados, é claro. O indivíduo e as coisas do indivíduo, não é assim que funciona? Ele, o carro dele, a casa dele, os móveis dele, a casa de praia dele, o relógio dele, o computador dele, o dinheiro dele. Assim como as idéias dele, as opiniões dele, os sonhos dele, a personalidade dele, o gosto dele.
E que bom, ele tinha conseguido ser respeitado, que evoluída uma sociedade assim, que respeita o eu de cada um, o meu do nosso.
Mas tinha um problema. O trânsito.
Respeitarem o estilo de roupa dele, as opiniões dele e os bens dele era muito bacana. Respeitarem a cor dele, o gênero dele e a orientação sexual dele era mais bacana ainda. Mas e o trânsito?
O trânsito não era dele, era de todos, e como cada um foi entrando na dele e na das caixas de cereal, o trânsito foi virando um inferno. Quem queria passar passava, quem queria fechar fechava, quem queria correr corria.
Mas o trânsito foi só o começo do colapso. Ele foi se cansando de viver só para ele. Foi se sentindo vazio. As coisas que eram só dele foram perdendo o sentido. O sentido vinha da reação com os outros e com o todo, mas os outros e o todo só pensavam em cada um. Então cada um foi se angustiando, e o tempo foi passando, com a agonia de vários eus e a morte do todo.
Viver só para ele não estava funcionando.
Então ele pensou bem e decidiu viver só para o todo.
Não fazia muito mais sentido? O que importava era o coletivo. O interesse de todos supera as necessidades de cada um, ele viu outro sociólogo falando num programa de TV.
Os filósofos gregos se perguntavam qual era a melhor maneira de viver a vida, mas parece que os tribunais gregos não tinham nenhuma dúvida a esse respeito: a propriedade lá não era muito privada, as ações de cada um eram voltadas para a política e quem desobedecia as regras da cidade não tinha direitos individuais, mas uma boa dose de cicuta.
Ele não sabia o que pensar da cicuta, mas não dava mais para viver só pensando em si mesmo, num mundo em que ninguém vive sozinho. Como só pensar em mim, se faço parte de uma sociedade?, ele começou a pensar. O que importa meu computador? Meu carro? O que importa a minha caixa de cereal da minha cozinha da minha casa, o que importa a minha caixa de cereal com mensagens de auto-ajuda quando o mundo está gritando por ajuda?
Ele juntou as pessoas que pensavam como ele e fez um grande todo de gente que pensava no todo. A ideia se espalhou e todo mundo começou a se focar em todo mundo.
Trabalhos foram distribuídos pensando no coletivo, idéias e preocupações foram distribuídas pensando no coletivo, casas foram distribuídas pensando no coletivo, famílias foram orientadas a educar seus filhos pensando no coletivo e, aliás, os coletivos andavam muito bem, obrigado, assim como os carros e motos naquele trânsito que começou a fluir que era uma maravilha.
Mas aí veio o problema da tintura de cabelo.
O trânsito era uma maravilha, mas os fios de cabelo branco dele eram um inferno e, que diabo, ele estava acostumado a tingir o cabelo desde a época em que vivia só para ele. Ele tentou comprar a tintura de sempre, mas parecia que isso de tingir o cabelo não era uma atitude muito coletiva, porque ele não conseguia encontrar a tinta.
Ele foi ficando chateado com isso e se abriu com seus colegas que pensavam no coletivo.
Os colegas, no início, criticaram esse desejo dele de tingir o cabelo, ora, que bobagem anacrônica de tempos individualistas, que capricho bobo, o que importa não é seu cabelo, mas o todo. Mas aí um colega confessou que sentia falta das roupas que usava, e outro disse que sentia falta de uma marca de chocolate de que gostava.
As saudades foram crescendo: da propriedade privada, passaram às alegrias e tristezas privadas.
Da liberdade. De exercerem a profissão que quisessem, de crescerem na profissão que quisessem. De pensar e de falar o que quisessem, de expressarem opiniões diferentes das opiniões do todo. De criar um filho de acordo com seus próprios valores, desfrutar prazeres pessoais e se empenhar por objetivos particulares. De desejar não só os desejos do todo, mas os desejos de cada um, com a personalidade, as vontades, a história de cada um. De chorar em um canto, mesmo quando o tudo de todos estava bem.
O todo foi agonizando e os indivíduos foram morrendo, um a um.
Ele suspirou.
Ele queria as coisas dele e as coisas do todo.
Ele queria ser um dentro de si e dentro do coletivo.
Ele queria tingir o cabelo, ajudar os outros, ser ele mesmo e fazer parte de algo maior.
Ele queria do fundo da sua alma, daquela alma solitária e agrupada, que morava dentro e fora dele. Ele queria um mundo individual mais humanizado. Um mundo coletivo mais interiorizado.
Ele olhou para si, olhou o céu e sorriu. Ele queria. Era possível?










Sobre as pessoas simpáticas
Publicado: 27 de fevereiro de 2012Eu era a editora de uma série de vídeos. O trabalho exigia que eu e a equipe passássemos cinco dias juntos, andando e filmando para lá e para cá. Não me lembro de ninguém dessa equipe. A não ser, claro, do fotógrafo. Cerca de cinqüenta anos, cheio de casos engraçados sobre o trabalho, a família, as viagens, a vida. Cumprimentava todo mundo calorosamente, sorria sem parar. A típica pessoa simpática. Eu, claro, gosto de pessoas simpáticas. Gostei de todo mundo da equipe, mas gostei mais dele. Quando o trabalho acabava, era com ele que eu conversava sobre o trabalho, a família, as viagens, a vida. Superlegal.
Bom. No último dia de trabalho, esse fotógrafo simpático me ferrou. Foi uma coisa meio vilão de novela, com direito a mentira, difamação e fuga. Me passou para trás, mesmo. Tive o maior trabalhão para desmascará-lo para a empresa que tinha me contratado. Foi a primeira e última experiência profissional que tive desse tipo. Foi também a primeira e última vez que usei a palavra “desmascará-lo”.
Naquele dia, cheguei em casa péssima. Meu marido ainda não tinha chegado – caixa postal, reunião. Um amigo deu o azar de me ligar justamente nessa hora. Foi para ele o desabafo. Ele mal entendia a história, porque eu só conseguia dizer:
– Mas ele era tão simpático!
Esse meu amigo é executivo. Ele comanda uma grande equipe numa grande empresa e trabalha com pessoas simpáticas e antipáticas há muitos anos. Mas trabalho, mesmo, ele teve comigo, quando tentou me explicar o óbvio: uma pessoa antipática pode ser a mais leal de uma equipe. E uma supersimpática pode ser justamente a que vai te ferrar.
– Não pode ser – teimei. – Pessoas simpáticas são ótimas! Quem não prefere ter um chefe simpático?
– Você prefere um chefe simpático ou um chefe justo?
Esse meu amigo é bem persuasivo.
Desliguei o telefone pensativa. Comecei a me lembrar das pessoas simpáticas que tinha conhecido ao longo da minha vida. Depois, das antipáticas. As meio-termo ficaram de fora. Eu só queria me lembrar de pessoas como o fotógrafo, uns amores, mas não exatamente confiáveis. Lembrei. Também lembrei o oposto: pessoas antipáticas que sempre mereceram minha confiança.
(Claro, também encontrei simpáticos confiáveis e antipáticos de caráter duvidoso, mas isso não ajudava em nada meu aprendizado recém-conquistado na conversa com meu amigo, então viva o maniqueísmo!)
Fui tomar meu banho arrasada. Simpatia não garante NADA. E eu, que sempre procurei ser simpática com os vizinhos, o porteiro etc. Às vezes, sou simpática porque estou num dia simpático, mas, às vezes, me esforço para dar sorrisos e tal. Para quê? Simpatia não mostra nada sobre o caráter, a índole, a alma de uma pessoa. Na verdade, em tempos de relativismo, nem sei se cabe falar em caráter, índole, alma – sobre essa última, ainda podemos alegar que a metafísica morreu no século 18. O ponto é: naquele dia, melhorei meu vocabulário e aprendi que “simpático” não é sinônimo de “legal”.
Mas é claro que, no meu trabalho seguinte em equipe, meses depois daquele, me deparei com outra pessoa supersimpática. Afinal, elas estão em toda parte. Dessa vez, era uma mulher, dessa vez, uma jornalista. Ai, que simpatia. Dessas pessoas simpáticas que só perguntam seu nome uma vez e já vão decorando como você se chama, como seu marido se chama, como você costuma pedir seu café. Prestam atenção a tudo, contam casos espirituosos, se abrem na medida certa, não falam de mais, nem de menos, sorriem. Enfim, o tipo da pessoa que me faz pensar, sem nem conhecê-la direito: “Que pessoa bacana!”
Nem preciso dizer que esqueci tudo o que tinha aprendido com o episódio do fotógrafo e com os conselhos do meu sábio amigo.
Porque ser simpático pode não significar nada, mas e daí? Não me importo: eu simplesmente adoro quando as pessoas são simpáticas comigo. Me sinto querida, meu humor fica bom, meu dia fica bom. Pode não significar nada, mas tudo tem que significar alguma coisa?
Está resolvido. Se eu cruzar com alguém não muito confiável, que essa pessoa não me faça aturar, além da sua falta de confiabilidade, a sua cara amarrada. Se alguém for desleal comigo, que, pelo menos, seja desleal depois de um cafezinho regado a conversas bem simpáticas. Porque, afinal, como diria Casimiro de Abreu, simpatia é quase amor.