Você está aqui: Home » Textos » Publicados em revistas » Mulher procura homem fofo (revista CLAUDIA/maio 2009)
Textos

Mulher procura homem fofo (revista CLAUDIA/maio 2009)

Há dez anos, quando saí para jantar pela primeira vez com aquele que seria meu primeiro ex-marido, fiquei meio perplexa. Que ele era sensível, meigo e cheio de assuntos, eu já desconfiava. Sempre gostei de caras assim. Mas, enquanto esperávamos nossos pratos, a sensibilidade foi tanta que me assustou. É que, no meio da conversa, ele soltou: “Tenho certeza de que fui mulher na encarnação passada. Tenho um lado feminino muito forte”. Quase engasguei com o couvert. Ele era gay? Que parte da história eu tinha perdido? Bem, passado o susto inicial, constatei que ele era só um cara fofo. E que não, isso não tem nada a ver com orientação sexual  – por mais que minha língua coce para falar do ex!

A psicologia explica melhor essa questão do “lado feminino” que os homens  –  os fofos, claro – têm. Para algumas correntes, a feminilidade ou a masculinidade nascem com a gente. Para outras, essas identidades são construídas social e historicamente. A psicanalista e psicóloga Patrícia Porchat, que é doutora pela USP e tem vários trabalhos na área de gênero, diz que, “independentemente da linha, o fato é que existem estereótipos de características masculinas ou femininas.” Nossa sociedade define quais são os padrões de comportamento do homem e da mulher, ditando o que cabe a cada um deles e o que pega mal. Mas, para nossa alegria, vários homens não têm dado muita bola para o que pega mal – e mostram que são fofos, sem medo de ser feliz.

Vários, que fique claro. Não todos.

“Fui perdidamente apaixonada por um machão criado em fazenda, desses que querem pegar todas as mulheres no carnaval”, conta Margareth Monteiro, economista, 39 anos. “Ficamos seis meses juntos, graças a uma incrível química. Quando essa química passou, pensei: ‘Meu Deus, o que estou fazendo aqui?’. O que mais incomodava Margareth eram os curtos “monólogos” que ela tinha com o namorado, já que ele não era muito de conversar – o que é o oposto do sujeito fofo. “O cara fofo acrescenta coisas à sua vida, ensina, aprende, ouve, fala. Não quer saber apenas do lado carnal e não se interessa em mandar. Ele quer troca, quer parceria, quer compartilhar uma visão de mundo mais ampla.” Ela já teve vários namorados com esse perfil e não acha que seja difícil encontrar um parceiro assim. “Não adianta procurar em estádio de futebol, né? Um cinema seria melhor.”

Cleide Eller, consultora de vendas, 37 anos, concorda que hoje em dia existem muitos homens assim, fofos. Mas não que seja fácil ficar com um deles.  “O problema é que eles são concorridos e dificilmente estão solteiros. Sempre tem muita mulher atrás deles!”, diz.  O que mais a encanta em homens sensíveis é ter um ouvinte interessado, um companheiro, alguém que fala sobre assuntos variados e até sobre suas emoções e seus problemas.  Não é preciso pensar muito para ver que são características mais presentes nas mulheres e, provavelmente, nas suas amigas.  Ou você tem alguma amiga que, como o ex de Margareth, só abre a boca para falar sobre futebol e, no resto do tempo,  gruda na TV e não dá um pio?

Cleide nunca viu Carlos A., 46 anos, administrador de empresas, mas, se o conhecesse, ia se encantar com o perfeito exemplar de homem fofo. “Fujo de praticar esportes onde o que prevalece é a competição e o exibicionismo das conquistas. Quando viajo, busco contato com a cultura do lugar – praças, museus, feiras livres, restaurantes escondidos”, diz ele.  “Não consigo me interessar por uma mulher sem saber o que ela pensa, como ela vê o mundo e o que tem de original nela, além da imprescindível sintonia física. Gosto de conversar e nem me importo se o salário da minha parceira é maior”, diz. Cleide, não vou apresentar meu entrevistado a você porque ele confirma sua hipótese em relação aos homens sensíveis serem concorridos: Carlos é casadíssimo.

Liberdade de expressão

Não é mera coincidência que a oferta de homens fofos tem aumentado, assim como a procura – ah, se a linha da oferta e da demanda na economia fosse harmônica assim… “O homem que aceita uma relação igualitária, que divide as tarefas domésticas, que percebe a mulher como uma companheira e não como uma rival, passa a ser desejado pelas mulheres independentes, que não aceitam mais uma posição de submissão”, diz a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de uma pesquisa com 1279 homens e mulheres de classe média do Rio de Janeiro, sobre diferenças de gênero. “Há uma expectativa de que os homens sejam mais delicados, atenciosos, disponíveis, femininos. As mulheres esperam, e até mesmo exigem, que os homens mudem seus comportamentos no que diz respeito ao relacionamento amoroso.” Não precisa falar duas vezes: um dos nossos passatempos preferidos é mudar um homem!

Brincadeiras à parte, muitos homens estão mesmo mudando de comportamento, já que, hoje em dia, eles se sentem mais à vontade para recusar o padrão de macho provedor.  “O homem está mais livre do papel social tradicional”, diz Patrícia. “Vários fatores contribuíram para isso: a mulher entrou no mercado de trabalho, ajudou a compor a renda do casal, conquistou direitos como tomar pílula…”. Com essa diminuição do abismo de diferenças entre eles e elas, os homens se sentiram mais à vontade para se libertar do estereótipo masculino. Não são todos que fazem a linha fofucha, claro. “Alguns não têm muita necessidade de dar vazão às próprias emoções. Mas aqueles que têm esse perfil encontram uma sociedade menos hostil agora para se expressarem”, diz Patrícia.

Aí já viu, né. Os que tinham presa no peito essa, digamos, panela de pressão fofa, podem ser mais afetivos e expressar seus sentimentos, além de cultivar hobbyes que não são considerados muito masculinos, como cozinhar. Eles sentem que têm mais espaço para, inclusive, manifestar o lado mais inseguro deles, e até chorão.  Espere um pouco… características femininas têm limite, certo?

Pelo menos, é o que pensa a filósofa Mariana L., de 28 anos. “Adoro caras sensíveis. Eles dão mais valor ao belo, seja na literatura, no cinema ou nas pequenas ações. Dão valor às experiências e às pessoas”, diz ela. “Mas valorizo muito a decisão do macho. Gosto de homens decididos, que sabem o que querem. No fundo, gosto de me sentir protegida.”  Esse discurso híbrido é típico das mulheres na faixa dos trinta anos, diz Patrícia. “Aprendemos com nossas mães a ter uma estabilidade financeira a partir do homem, ouvimos delas que eles seguram as pontas e nos protegem. As mulheres de vinte anos, ou abaixo dessa idade, têm uma noção de parceria entre homem e mulher muito mais introjetada”.

Então, fica combinado: não esperamos nada de um homem além de ele ser… ideal. Porque um homem como o da Mariana – sensível, culto, decidido e forte – é a fusão perfeita do fofo com o antigo macho, concorda? Bem, eu não concordo. Meu ex-marido era mais ou menos assim e, como o termo “ex” indica, nós terminamos. Homem nenhum é perfeito, por melhor que seja o mix entre fofo e não-fofo da personalidade dele. Até porque, convenhamos, eleger um companheiro não é como escolher itens para o ravióli no restaurante do shopping, certo? Os fofos também têm lá seus defeitos, incoerências, inquietudes e chatices em geral. Afinal, eles não são um estereótipo, são pessoas. E talvez seja por isso que nós gostamos tanto deles.

Enfofe seu machão

Não sonhe alto demais. Um cara só vai revelar o seu lado fofo… se existir um lado fofo a ser revelado. Caso você desconfie dessa possibilidade, estimule-a!

  1. Escute-o, seja receptiva quando ele ousar mostrar sua sensibilidade. “Eu era travado para falar sobre meus sentimentos até para as pessoas da minha família”, conta Paulo Andrade, 29 anos, educador. “Melhorei depois que fiz análise. Hoje, me abro para minha namorada, meus parentes e amigos. Mas preciso sentir confiança para poder dividir sentimentos e ideias.”
  2. Convide-o para programas culturais. Talvez ele imagine que museu ou galeria seja chato apenas porque nunca foi a uma exposição interessante. Seja esperta e pense em lugares e situações com o perfil dele.
  3. Tente identificar incoerências no próprio comportamento: se você quer um cara sensível que também seja machão fica difícil. Esse “gosta não gosta” pode acabar travando a fofura dele.
  4. Ele não tem assunto? É rude com você? Tente reverter o problema com uma conversa. Foi o que fez Fernanda C., 28 anos, revisora, com o namorado, que tinha o hábito de levantar o tom de voz, o que a intimidava. “Eu reclamava, mas ele não me ouvia. Um dia, decidi parar com as lamentações e comecei a conversar seriamente sobre o que me magoava. Fiz questão de ser ouvida e soube me fazer respeitar.” Melhorou bastante, segundo ela.

Fofos famosos

Wagner Moura

A carinha fofa dele dispensa comentários. Mas vamos comentar: ele é tão sensível que já declarou em mais de uma entrevista que “ama incondicionalmente” o amigo Lázaro Ramos. Se isso não é se sentir à vontade para falar sobre sentimentos, nada mais é…

Alexandre Borges

Casado com a atriz Julia Lemmertz há 20 anos, o ator não tem medo de ter sua masculinidade afetada por uma traição: já declarou que perdoaria um eventual deslize de sua mulher.

Johnny Depp

Combinação explosiva: jeito sensível e ao mesmo tempo muito, muito sexy. Johnny não esconde que mulher, a cantora Vanessa Paradis, transformou sua vida para melhor.

Will Smith

Ótimo pai, bem articulado para falar e sorridente, ele já disse em entrevista que adora conversar e que já passou da fase de titubear na hora de falar sobre os sentimentos com sua mulher.

Rodrigo Santoro

Com essa carinha de cão abandonado, um histórico de relacionamentos longos – Ellen Jabour, Luana Piovani –  e um jeitinho meio tímido, dá vontade de apertar o Rodrigo!