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Filósofos brasileiros: Cruz Costa e a realidade nacional (revista FILOSOFIA/dez 2008)
Quando os brasileiros estudam Filosofia, as doutrinas e os sistemas desenvolvidos na Europa costumam ocupar a maior parte das leituras. Não é por acaso que isso ocorre. Antes de mais nada, considera-se que a Filosofia nasceu naquele continente, mais especificamente na Grécia Antiga. Além disso, muitos séculos mais tarde, nos tempos do Brasil colônia, foi de países europeus – sobretudo Portugal e, mais tarde, França – que recebemos as primeiras influências filosóficas. Como não poderia deixar de ser, João Cruz Costa (1904-1978), professor da Universidade de São Paulo, não contestava esses fatos históricos. De fato, logo no prefácio de sua mais conhecida obra, Contribuição à História das Idéias no Brasil, publicada em 1955, ele afirma que não podemos renegar as culturas estrangeiras que expressam uma experiência mais rica do que a nossa e que devemos apreciar tal herança. As críticas de Cruz Costa são direcionadas à submissão nacional ao pensamento europeu, à distância dos nossos pensadores em relação aos problemas econômicos, políticos e sociais do país e à resistência em se criar coisas novas na filosofia brasileira.
No pequeno volume intitulado A Filosofia no Brasil, de 1945, o professor afirma, ao descrever a produção filosófica nacional do fim do século XIX: “Sem cunho pessoal, os filosofantes brasileiros desse século acumulam e repetem doutrinas alheias, que não têm relação com o sentido de nossa vida e de nossa terra.” Mais adiante no livro, ele explica por que usa o termo “filosofantes”: “Não tivemos nem podíamos ter filósofos. Tivemos letrados que se afastaram, quase sempre, da nossa realidade, que fugiram da nossa história e do seu verdadeiro significado”. Marcada pela europeização, a inteligência brasileira voltara-se para os pensamentos europeus, esquecendo-se de observar as condições e particularidades nacionais.
A crítica não é direcionada exclusivamente ao Brasil. “Como nos demais países de origem colonial, também aqui ressoaram – e ressoam ainda – os movimentos filosóficos pelos quais tem passado a cultura ocidental de que fazemos parte”, escreve, antes de mencionar o professor de Filosofia da Universidade de Columbia Herbert Schneider, quando este afirmou vivermos todos na “franja da cultura européia”. Cruz Costa usa os termos “complexo de inferioridade” e “complexo colonial” para designar o encantamento nacional pelos feitos estrangeiros, como se as produções e a realidade local tivessem menos valor.
Ao discorrer sobre as obras e os pensamentos de vários letrados brasileiros, como Farias Brito, Silvestre Pinheiro e Sílvio Romero, Cruz Costa ofereceu uma preciosa descrição dos caminhos percorridos pela produção filosófica no Brasil, desde o período colonial. Descrevendo as produções de vários nomes brasileiros – apesar de criticar fortemente alguns, como é o caso de Farias Brito –, suas obras não deixam cair no esquecimento a trajetória desses que foram nossos primeiros pensadores.
Da teoria à prática
Fazendo jus às suas críticas aos pensadores que se mantinham distantes da realidade nacional, Cruz Costa costumava associar os temas dados em suas aulas ao cotidiano político do Brasil. Segundo Giannotti, professor do departamento de Filosofia da USP, suas reflexões tentavam “agarrar um cotidiano muito nosso”, o que desapontava os alunos que desejavam apenas ter aulas sobre os filósofos consagrados e agradava outros tantos.
A menção a essa fuga da realidade, aliás, é uma constante nas obras do professor, que criticava a erudição pela erudição. Manifestando horror ao pedantismo e a discursos vazios, ele afirmava que a filosofia nacional não faz sentido se for meramente contemplativa – aliás, uma das influências portuguesas concerne justamente a esse caráter prático, não-especulativo, da filosofia. Assim, temos um legado português de atribuir um caráter prático aos pensamentos, usando-os para transformar a realidade e solucionar os problemas à nossa volta. Denunciando os pensadores que acumulavam leituras seguidas de mais leituras, ele os convocava a refletir sobre os problemas nacionais. Em Contribuição à História das Idéias no Brasil, afirma: “Para que o pensamento não seja mera fantasia sem proveito (…), é mister que não perca contato com a história, com os problemas reais da vida. Que valor poderá ter uma cultura que não vise à compreensão do que somos, que se afaste das condições da terra e que não atenda às curiosas linhas do nosso destino?”
Esse pragmatismo também está presente em outra importante obra do professor, Panorama da História da Filosofia no Brasil, de 1959: “Para nós, da América Latina, a reflexão filosófica não termina na contemplação do mundo. Vai além. Ela exige a sua transformação (…). O valor dos princípios filosóficos não consiste na sua simples formulação abstrata, mas na capacidade que estes princípios possuem de permitir analisar os domínios concretos da realidade.”
Uma filosofia nacional
Se, por um lado, Cruz Costa pede que os pensadores brasileiros não se curvem ao estrangeiro, por outro, lembra que a filosofia é um ramo de investigação que, como qualquer outro, aspira à universalidade. O pensamento nacional pode e deve acompanhar o percurso que a humanidade revela na filosofia, independentemente das fronteiras. O que o autor aponta como problemático, além do “complexo de inferioridade” do brasileiro e do excessivo encantamento dele pelo que é de fora, é a falta de influência dos problemas nacionais na filosofia feita aqui. “O tempo e a terra – a história – criam condições e conceitos”, afirma em Panorama… “Este nacional é o que estaria na base de interpretação que fazemos dos modelos europeus e o que impediria uma total identificação nossa com o sentido da problemática do pensamento europeu que nos foi e ainda nos é transmitido.” Dessa forma, o autor sustenta que não existe uma filosofia nacional e que não temos feito outra coisa a não ser discorrer sobre o pensamento europeu, deixando, assim, de contribuir para o patrimônio da Filosofia.
Apesar das veementes críticas, Cruz Costa não deixava de ser otimista em relação ao futuro da filosofia no país: o professor acreditava que, no tempo certo, o Brasil iniciaria sua própria reflexão filosófica. Sem perder a universalidade, esta faria transparecer uma tonalidade própria dos brasileiros, ocupados com a realidade de sua terra. “Superamos, ou estamos em via de superar, um velho complexo colonial”, escreve. Outro posicionamento claro do autor, e tão atual, diz respeito ao ensinamento da filosofia no ensino médio, que ele defendia. O próprio Cruz Costa foi professor do Colégio Paulistano. Segundo ele, os problemas dos quais a Filosofia se ocupa devem ser apresentados, desde logo, aos jovens. “Por que não?”, pergunta ele em Panorama da História da Filosofia no Brasil.
As influências européias
Ao resgatar as principais influências no pensamento brasileiro, quando este estava em suas origens, Cruz Costa destaca a escolástica e o positivismo. A primeira foi bastante expressiva no pensamento filosófico português e, por isso, bem assimilada pelo Brasil no século XVII. Naquela época, era ensinada entre os clérigos na colônia, nos colégios: desses estabelecimentos, saíam os primeiros letrados brasileiros. No século XVIII, o Brasil se afasta da tutela intelectual de Portugal, passando a ser influenciado sobretudo pelo pensamento francês. No século XIX, o positivismo, além do naturalismo e do evolucionismo, aparece em terras brasileiras. Apesar de considerar que o espírito brasileiro não é afeito a doutrinas, Cruz Costa admite a influência do positivismo na história intelectual do Brasil, sobretudo na história da política republicana. “O positivismo encaminhara a inteligência brasileira para preocupações mais concretas, mais condizentes com a índole nacional”, escreve.
Filósofos brasileiros: Cruz Costa e a realidade nacional (revista FILOSOFIA/dez 2008)
No pequeno volume intitulado A Filosofia no Brasil, de 1945, o professor afirma, ao descrever a produção filosófica nacional do fim do século XIX: “Sem cunho pessoal, os filosofantes brasileiros desse século acumulam e repetem doutrinas alheias, que não têm relação com o sentido de nossa vida e de nossa terra.” Mais adiante no livro, ele explica por que usa o termo “filosofantes”: “Não tivemos nem podíamos ter filósofos. Tivemos letrados que se afastaram, quase sempre, da nossa realidade, que fugiram da nossa história e do seu verdadeiro significado”. Marcada pela europeização, a inteligência brasileira voltara-se para os pensamentos europeus, esquecendo-se de observar as condições e particularidades nacionais.
A crítica não é direcionada exclusivamente ao Brasil. “Como nos demais países de origem colonial, também aqui ressoaram – e ressoam ainda – os movimentos filosóficos pelos quais tem passado a cultura ocidental de que fazemos parte”, escreve, antes de mencionar o professor de Filosofia da Universidade de Columbia Herbert Schneider, quando este afirmou vivermos todos na “franja da cultura européia”. Cruz Costa usa os termos “complexo de inferioridade” e “complexo colonial” para designar o encantamento nacional pelos feitos estrangeiros, como se as produções e a realidade local tivessem menos valor.
Ao discorrer sobre as obras e os pensamentos de vários letrados brasileiros, como Farias Brito, Silvestre Pinheiro e Sílvio Romero, Cruz Costa ofereceu uma preciosa descrição dos caminhos percorridos pela produção filosófica no Brasil, desde o período colonial. Descrevendo as produções de vários nomes brasileiros – apesar de criticar fortemente alguns, como é o caso de Farias Brito –, suas obras não deixam cair no esquecimento a trajetória desses que foram nossos primeiros pensadores.
Da teoria à prática
Fazendo jus às suas críticas aos pensadores que se mantinham distantes da realidade nacional, Cruz Costa costumava associar os temas dados em suas aulas ao cotidiano político do Brasil. Segundo Giannotti, professor do departamento de Filosofia da USP, suas reflexões tentavam “agarrar um cotidiano muito nosso”, o que desapontava os alunos que desejavam apenas ter aulas sobre os filósofos consagrados e agradava outros tantos.
A menção a essa fuga da realidade, aliás, é uma constante nas obras do professor, que criticava a erudição pela erudição. Manifestando horror ao pedantismo e a discursos vazios, ele afirmava que a filosofia nacional não faz sentido se for meramente contemplativa – aliás, uma das influências portuguesas concerne justamente a esse caráter prático, não-especulativo, da filosofia. Assim, temos um legado português de atribuir um caráter prático aos pensamentos, usando-os para transformar a realidade e solucionar os problemas à nossa volta. Denunciando os pensadores que acumulavam leituras seguidas de mais leituras, ele os convocava a refletir sobre os problemas nacionais. Em Contribuição à História das Idéias no Brasil, afirma: “Para que o pensamento não seja mera fantasia sem proveito (…), é mister que não perca contato com a história, com os problemas reais da vida. Que valor poderá ter uma cultura que não vise à compreensão do que somos, que se afaste das condições da terra e que não atenda às curiosas linhas do nosso destino?”
Esse pragmatismo também está presente em outra importante obra do professor, Panorama da História da Filosofia no Brasil, de 1959: “Para nós, da América Latina, a reflexão filosófica não termina na contemplação do mundo. Vai além. Ela exige a sua transformação (…). O valor dos princípios filosóficos não consiste na sua simples formulação abstrata, mas na capacidade que estes princípios possuem de permitir analisar os domínios concretos da realidade.”
Uma filosofia nacional
Se, por um lado, Cruz Costa pede que os pensadores brasileiros não se curvem ao estrangeiro, por outro, lembra que a filosofia é um ramo de investigação que, como qualquer outro, aspira à universalidade. O pensamento nacional pode e deve acompanhar o percurso que a humanidade revela na filosofia, independentemente das fronteiras. O que o autor aponta como problemático, além do “complexo de inferioridade” do brasileiro e do excessivo encantamento dele pelo que é de fora, é a falta de influência dos problemas nacionais na filosofia feita aqui. “O tempo e a terra – a história – criam condições e conceitos”, afirma em Panorama… “Este nacional é o que estaria na base de interpretação que fazemos dos modelos europeus e o que impediria uma total identificação nossa com o sentido da problemática do pensamento europeu que nos foi e ainda nos é transmitido.” Dessa forma, o autor sustenta que não existe uma filosofia nacional e que não temos feito outra coisa a não ser discorrer sobre o pensamento europeu, deixando, assim, de contribuir para o patrimônio da Filosofia.
Apesar das veementes críticas, Cruz Costa não deixava de ser otimista em relação ao futuro da filosofia no país: o professor acreditava que, no tempo certo, o Brasil iniciaria sua própria reflexão filosófica. Sem perder a universalidade, esta faria transparecer uma tonalidade própria dos brasileiros, ocupados com a realidade de sua terra. “Superamos, ou estamos em via de superar, um velho complexo colonial”, escreve. Outro posicionamento claro do autor, e tão atual, diz respeito ao ensinamento da filosofia no ensino médio, que ele defendia. O próprio Cruz Costa foi professor do Colégio Paulistano. Segundo ele, os problemas dos quais a Filosofia se ocupa devem ser apresentados, desde logo, aos jovens. “Por que não?”, pergunta ele em Panorama da História da Filosofia no Brasil.
As influências européias
Ao resgatar as principais influências no pensamento brasileiro, quando este estava em suas origens, Cruz Costa destaca a escolástica e o positivismo. A primeira foi bastante expressiva no pensamento filosófico português e, por isso, bem assimilada pelo Brasil no século XVII. Naquela época, era ensinada entre os clérigos na colônia, nos colégios: desses estabelecimentos, saíam os primeiros letrados brasileiros. No século XVIII, o Brasil se afasta da tutela intelectual de Portugal, passando a ser influenciado sobretudo pelo pensamento francês. No século XIX, o positivismo, além do naturalismo e do evolucionismo, aparece em terras brasileiras. Apesar de considerar que o espírito brasileiro não é afeito a doutrinas, Cruz Costa admite a influência do positivismo na história intelectual do Brasil, sobretudo na história da política republicana. “O positivismo encaminhara a inteligência brasileira para preocupações mais concretas, mais condizentes com a índole nacional”, escreve.