Eu quero, eu posso, eu consigo! (Será?) (revista CAPRICHO/2008)

Eu não tinha nenhum preconceito com livros de auto-ajuda, mas também nunca tinha lido um. Não que eu não quisesse me auto-ajudar, mas já fiz terapia, sempre leio meu horóscopo, já deu, né? Acontece que, há alguns dias, fui à casa de uma amiga que estava mega empolgada com um livro desses. Não lembro o nome, mas era algo na linha “Encontre sua estrela interior”. Bom. Ela só sabia falar que a estrela dela era isso, que a estrela dela era aquilo, e aí resolvi dar uma folheada no livro para ver qual era, afinal de contas, essa sabedoria estrelar.

Logo nas primeiras páginas, fiquei irritada com a quantidade de regras do livro. Parecia minha mãe, quando eu tinha cinco anos (não que ela tenha mudado muito de lá pra cá). Fiquei meio com antipatia, sabe? Mas beleza, continuei lendo. O autor tinha todo um sistema de normas que eu não sabia de onde vinham, mas ok, também não entendo astrologia e leio meu horóscopo (aliás, acho essa minha flexibilidade tão libriana!). O que me incomodou mesmo foi essa coisa de “eu quero, eu posso, eu consigo!” Parece que todo mundo que usa a tal da estrela interior tem que ter auto-estima, entendendo que pode e consegue tudo, e que, se não puder/conseguir, é porque está faltando pensamento positivo e tal.  Pera lá. Que cobrança é essa? E desde quando pensamento positivo virou solução para tudo?

Eu não sei/posso tudo. Na verdade, sem querer pagar de humilde nem nada, estou bem longe disso. Além de não poder voar nem respirar embaixo d´água, não consigo fazer várias contas de cabeça ou passar numa prova sem estudar – e, mesmo que eu estude, pode ser que no fim eu acabe não passando, ué. Não posso ser mais bonita que a Gisele Bündchen, não consegui evitar alguns pés na bunda ao longo da vida… Mas e daí?

Eu não sei muito bem o que é felicidade, mas nunca achei que é feliz quem pode e consegue fazer tudo (aliás, essa pessoa mágica teria que viver num tempo infinito, para conseguir fazer tudo! Se bem que ok, ela é mágica. Continuando). Quanto ao pensamento positivo, realmente ele é incrível, mas calma lá, né? Se você se esforçar e pensar positivamente, ainda assim pode se frustrar em algumas situações (porque seu esforço não bastou, porque não era para ser, sei lá por quê). Pra terminar, acho que essa coisa de poder tudo tem mais a ver com auto-ilusão do que auto-estima. Posso muito bem me amar tendo consciência dos meus limites, não? Amo meu irmão, e ele é tão limitado! Ok, brincadeira.  Não sei você, mas sinto um alívio danado quando penso que não tenho a menor obrigação de acertar sempre.

Fechei o livro desanimada com minha estrela interior. Não vou dizer que nunca mais folhearei nenhum livro de auto-ajuda, mas, esses que partem do pressuposto de que temos que nos achar o máximo para gostarmos de nós mesmos e conseguirmos o que queremos, dispenso. Deve ser bem frustrante esbarrar em algum obstáculo quando você se acha a rainha da cocada preta, para usar uma expressão da minha tia Rosa. E, como você já deve ter recebido, vira e mexe a gente se esbarra em algum obstáculo: eu, você e nossas estrelas interiores. E tudo bem se, nessa hora, a gente chorar e perceber que não somos perfeitos, nem nós nem a vida. Quem disse que não há beleza na imperfeição?

Lili Prata nunca viu cocada preta