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Quando Fernanda decidiu se apaixonar

Fernanda acordou disposta a se apaixonar.

Não havia nenhum motivo especial: apenas cansou-se de não estar apaixonada. Já fazia algum tempo que ela e seu ex-namorado haviam se separado e ela achou que já estava na hora de sentir algum sentimento assustadoramente forte por alguém.

Vestiu uma roupa que achou apropriada às pessoas que querem se apaixonar e saiu de casa. Eram cerca de onze da manhã. Onde estão aqueles que querem se apaixonar às onze da manhã? Sem muita certeza, sentou-se no banco de uma praça, para depois almoçar em um restaurante e caminhar por uma rua movimentada.

Nada aconteceu.

Frustrada, foi para casa. Anoiteceu. Fernanda dormiu. No dia seguinte, acordou igualmente disposta a se apaixonar. E foi acordando, saindo, pensando e sorrindo como todas as pessoas que querem se apaixonar.

Um dia conheceu um homem.

Chamava-se Rogério, tinha um sorriso honesto e trabalhava com contabilidade. Fernanda animou-se: era perfeitamente viável apaixonar-se por um homem que se chamava Rogério, tinha um sorriso honesto e trabalhava com contabilidade. Conversaram por algum tempo, trocaram telefones e combinaram um jantar. Durante o jantar, Fernanda já conseguiu identificar alguns defeitos de Rogério. Ele a interrompia constantemente, gesticulava excessivamente e se atrapalhava na hora de chamar o garçom. Ela deu-se por satisfeita: eram defeitos adoráveis para o objeto da paixão de alguém. Fernanda já se imaginava com os olhos brilhando, contando casos para os amigos de como havia sido engraçada a última vez em que tinham ido a um restaurante, quando Rogério fez um gesto peculiar ao chamar um garçom. Via-se perdendo a paciência com ele por ter sua fala tantas vezes interrompida e sentindo-se irritada com tamanha quantidade de gestos.

Estava decidido: era por Rogério que ela se apaixonaria.

Não foi um processo rápido.

Na segunda vez em que Rogério telefonou para Fernanda, ela estava concentrada lendo um livro e não queria atender a nenhuma ligação. Depois de dois toques, porém, lembrou-se de que estava disposta a se apaixonar e não só largou o livro como levou uma mão ao peito e soltou um ansioso “será que é ele?”. Era. Assim que ouviu a voz dele, Fernanda sorriu, suspirou e esforçou-se para não emitir um tom de voz que desse a Rogério a certeza de que ela estava se apaixonando por ele.

Quando marcaram um quarto encontro e Rogério avisou de última hora que não poderia mais ir, Fernanda ficou irritada menos pelo cancelamento do que pelo fato de não ter ficado alterada com o cancelamento como ficariam aqueles que estão apaixonados. Assim, fez força para sentir raiva de Rogério, fez força até para se sentir decepcionada; e tanto fez que sentiu um começo de raiva e uma ponta de decepção. Mas o grande trunfo foi ter conseguido segurar a raiva e a decepção até o momento de dormir, e ter acordado no dia seguinte com aquele amargor de quem se lembrava repentinamente de que havia brigado com alguém de quem gostava. Era a prova: Fernanda estava se apaixonando.

Quando ouvia uma música que lembrava Rogério, Fernanda podia estar sem vontade de interromper a atividade que estava fazendo, qualquer que fosse ela, que interrompia mesmo assim – e então fechava os olhos e deixava a música ocupar suas sensações. Antes que a canção chegasse ao meio, já estava com saudades de Rogério.

Quando Rogério contava um episódio do trabalho que denunciava intimidade com alguma colega, Fernanda não se contentava com o fato de não sentir ciúme. Fazia força. Imaginava Rogério e essa colega se beijando, concentrava-se na idéia de que estava sendo enganada, via os amigos rindo dela – e acabava sentindo ciúme, não um ciúme de mentira, mas um ciúme legítimo, que a fazia sentir-se magoada e com raiva de si, de Rogério e da mulher.

Depois de alguns meses de relacionamento, Fernanda constatou, feliz, que estava apaixonada como tinha procurado estar desde o começo, como tinha procurado antes mesmo de conhecer a pessoa correspondente à sua paixão.

Já não precisava se forçar a pensar em Rogério. Já não tinha que forçar uma corrida ao telefone quando ele tocava – corria genuinamente.

Como era agradável a sensação de estar apaixonada. Como os efeitos negativos associados a uma paixão, como a angústia, a vulnerabilidade e a insegurança, eram tão desagradáveis que se tornavam agradáveis para alguém como ela, que queria estar apaixonada e ficou.

Quando chegou o momento de a paixão seguir a bifurcação entre a separação e a transformação em amor, Fernanda pensou um pouco e decidiu alimentar a transformação em amor.

Foi então que começou a amar Rogério.