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O secador de cabelo

Armando estava parado em frente à porta. Ao seu lado, uma mala feita às pressas. Lembrou-se então de que não tinha pegado alguns pares de meia. Voltou. Quando abriu a porta do guarda-roupa, Lívia chegou. A mala na porta. Armando revirando o guarda-roupa. Lívia não podia acreditar.

– Não faz isso, Armando.

– Sem drama, Lívia. Nós dois sabemos que é o fim.

– Eu não sei de nada.

– Não deixe as coisas mais difíceis.

Lívia suspirou fundo. Onze anos de casados. E, agora, aquela mala na porta. É certo que eles não estavam bem há algum tempo. Lívia até suspeitava de que ele tinha outra. Mas não queria falar disso agora. Aquela situação dramática não deixava espaço para banalidades. Tinham coisas mais importantes para discutir.

– Tudo bem, Armando, pode ir. Mas o secador de cabelo fica.

– Como, o secador fica? Foi lembrança da mamãe. A primeira coisa que coloquei na mala!

– Sem drama, Armando! Você quer ir, você tem outra, você vai. Agora, com o secador, não tem conversa.

Armando sentou-se no sofá. Precisava ser paciente. Contou até dez.

– Aposto que você está contando até dez.

– Eu? Eu, não. Só estou pensando que você nem usa esse secador.

– Uma hora, Armando! Uma hora, dia sim, dia não, fazendo escova no meu cabelo. Não é você que vive reclamando da minha demora? Aliás, você é que não precisa dele. Tem cabelo liso.

– E esse topete? Pensa que eu nasci com ele? Secador, darling.

Lívia suspirou fundo. Odiava quando ele a chamava de darling. Agora, foi ela quem contou até dez.

– Me deixa ficar com o secador, e te dou três novos – ela propôs, em tom didático.

– Nem mil secadores se equivalem a esse.

– Que exagero!

– Se eu te der mil secadores, você me deixa ficar com esse?

– Nem morta.

Ela se sentou no sofá e cruzou os braços. Sempre fazia isso quando estava brava: depois de algum tempo, sentava-se no sofá e cruzava os braços. Ele se levantou.

– Mamãe ia te dar uma bronca, se estivesse aqui.

– Olha, Armando, eu não queria dizer, mas quem deu esse secador não foi sua mãe. Foi dona Iolanda, vizinha da tia Joana, que deu de presente de bodas de algodão.

– Que absurdo! Eu nem conheço essa dona Iolanda!

– Está vendo como você é desnaturado? Nem conhece a mulher e quer ficar com o secador que ela deu.

Armando passou a mão no cabelo. Lembrou-se que estava ficando careca e ficou mais nervoso ainda.

– Maldita hora em que você não quis casar com separação de bens.

– Mas não quis e, agora, tudo pertence a nós dois. Menos esse secador, que é só meu, porque foi presente. E presente para mim, Armando.

– Ué, mas não foi presente de bodas de papelão?

– Algodão. E presente só meu, porque você nem conhecia dona Iolanda.

Lívia passou a mão no cabelo. Vasta cabeleira, a dela. Não precisava se preocupar. Armando apelou.

– Olha aqui, Lívia. Sem esse secador, eu não vou.

– Ótimo. Então, não vá.

– Ótimo.

– Mas, se ficar, vai passar a dormir na sala.

– E você vai ficar só quarenta minutos no secador, senão não dá tempo de fazer meu topete.

– Fechado.

Armando desfez a mala e colocou o secador no banheiro. Lívia foi fazer um café.

– Só uma coisa, Lívia. Esse negócio de ter outra só pode ser coisa da sua mãe. Eu ia sair de casa pra morar com o Marcão. Pode ligar pra ele.

– Verdade, mesmo?

– Arram.

– Nesse caso, pode voltar a dormir comigo na cama, então.

– Tudo bem.

Mal sabia Lívia que Armando podia até dormir na cama, mas o limite de ela usar o secador ainda era de quarenta minutos. Sem conversa.