Você está aqui: Home » Textos » Inéditos » Espera
Textos

Espera

Alice acordou cedinho. Telefonou para o trabalho avisando que não poderia ir. Separou revistas, jornal. Certificou-se de que havia comida na geladeira e não precisaria sair. Deixou o interfone desligado. Fechou as janelas para não ter interferências em sua audição. Viu que estava limpa e não tomaria banho. Na verdade, banheiro, só se fosse estritamente necessário. Mesmo assim, rápido e de porta aberta. Não comeria fibras para não gastar tempo demais lá. Finalmente, sorriu e suspirou feliz. Tudo pronto. Agora, era só ficar sentada, quietinha, ao lado do telefone. Afinal, ele garantiu que ia ligar.

Conheceram-se na noite de sábado. Era a festa de uma amiga que não via há tempos, e havia muita gente desconhecida. Bateu os olhos nele e foi amor à primeira vista. Chamava-se Mário. A noite por pouco não acabou no motel, e eles ficaram juntos a madrugada inteira. Deixou-a em casa. Alice estava bêbada como nunca esteve antes, mas sóbria o suficiente para dar seu telefone e ouvir Mário prometendo que ligaria na segunda-feira. Sem falta. Ele garantiu.

Começou a folhear a revista. Mário era um charme. Alto, nem moreno nem branco demais, cabelo castanho, olhos cor de mel. Era professor em uma universidade. Dava aula para o curso de Ciências Biológicas. Foi só Alice se lembrar de sua profissão que começou a folhear a revista em busca de matérias sobre natureza. Assim, teria assunto com ele. Era até melhor ele não ligar agora. Teria tempo para se informar.

Duas da tarde. Alice já tinha lido sobre efeito estufa, camada de ozônio, degelamento das calotas polares e até sobre o perigo de não se incluir vitamina A nas dietas infantis. Desanimada, resolveu almoçar. Procurou não fazer muito barulho enquanto cozinhava a sopa de pacote. Afinal, o telefone poderia tocar e ela não ouvir. Quatro da tarde. Resolveu verificar o volume do aparelho pela sétima vez desde que acordou. Isso não era nada, perto da décima terceira vez que conferiu se o fone estava no gancho.

Consolava-se pensando que ele certamente ligaria assim que chegasse do trabalho, por volta das seis horas. Sete horas e nada. Mas era provável que ele preferisse ligar depois de ter tomado um banho e comido alguma coisa. Homens geralmente precisam de um tempo. Não gostam de chegar e já ir pegando o telefone. É normal ele não ter ligado ainda.

Oito horas e nada. Ele poderia ter chegado com um apetite voraz. Deixou para ligar depois de um jantar caprichado. Talvez estivesse disposto a passar horas ao telefone com ela, e para isso precisaria estar bem alimentado.

Nove. Dez. Onze horas. Uma lágrima caiu no rosto de Alice. Não sabia se era de tristeza ou de ódio, mesmo. Ele parecia especial. Não era igual aos outros. Alice não conseguia aceitar. Por quê? Por quê?

Aquilo não ficaria assim. Juntou todas as forças que lhe restavam e resolveu ligar para o bandido. Se ele não dá sinal de vida, então ela mesma telefona, porque não? Afinal, ele também tinha dado seu número para ela. E o moço merecia ser xingado. Onde já se viu uma coisa dessas? Fazer Alice desperdiçar um dia inteirinho ao lado daquele maldito aparelho?

Pegou o número. Discou. Desistiu no meio do caminho, mas acabou criando coragem novamente. Mário atendeu logo no primeiro toque.

– Nossa, Alice, finalmente você ligou. Garantiu que ligaria hoje e até agora nada!