Tudo começou quando uma vizinha fez um escândalo com a filha, para a vizinhança toda ouvir. Parece que a menina tinha engravidado do namorado, com quem estava há duas semanas, e não sei mais o quê. Eunice ficou encantada. Não costumava estar em casa àquela hora, de tardinha, mas naquele dia tinha voltado mais cedo do trabalho. Mal se sentou no sofá, e a gritaria começou. Primeiro não se importou; na verdade, nunca tinha falado com os vizinhos e nem sabia o nome deles. Mas, quando a história foi desenrolando, em meio àquela gritaria, Eunice achou apaixonante. Até pegou refrigerante e pipoca para ouvir. Era melhor do que novela.
Algumas semanas tinham se passado e Eunice já sabia que a mãe da menina se chamava Mara, que a menina fazia faculdade de enfermaria e seu nome era Juliana, mas todo mundo a conhecia como Juju, e que o pai da criança não só não quis saber dela como já tinha voltado para a cidade natal. Eunice ficava na maior tensão, torcendo por cada capítulo. Abandonou completamente as horas-extras no trabalho: o quente era mesmo à tardinha, quando a menina voltava da faculdade. Eunice não podia perder. Mas as coisas se ajeitaram na casa da vizinha. Parece que ela acabou aceitando o filho da filha e até começou a dar uma força. As gritarias foram se espaçando, até acabar. Eunice foi ficando triste, quase indignada, afinal, quem eram aquelas duas para acabar com a diversão dela? Era uma trabalhadora. Merecia se distrair. Até que os vizinhos de baixo começaram a gritar. Eunice não acreditou: parecia um sonho. O caso era que o casal estava se separando, e um não agüentava mais a cara do outro. Passavam as tardes aos gritos, xingando o outro de tudo quanto era nome, mas não se largavam. O dia mais emocionante foi quando ele pegou a mala e foi ao hall do prédio, gritando, e a mulher o seguiu, chorando. Eunice chegou da janela e não desgrudou os olhos em nenhum momento. O homem foi embora mesmo, e a mulher o espera até hoje. Eunice também, porque, quando ele voltar, certamente vai ter.
Depois, veio o caso da menina do 102. Ela tinha um namorado que chegava todo dia em um carro branco, tipo perua. Eunice já tinha reparado e ficava ouvindo as conversas dos dois na frente do portão, encostados no carro. Até que Eunice escutou uma voz diferente chamando a menina para o portão. Chegou da janela e viu uma camionete verde. Naquela noite, Eunice nem dormiu, pensando em que fim o outro rapaz levara. Até que viu o carro branco novamente, e os dois se agarrando no portão. No outro dia, era a camionete verde, com os dois se agarrando no mesmo portão. Impossível não se interessar. Mas Eunice quase enlouqueceu, mesmo, no dia em que saiu do banho, olhou da janela e viu a camionete verde e o carro branco estacionados. Pensou que ia desmaiar de tanta tensão, mas precisava ver aquilo. Como não viu a menina no portão, teve que descer para o hall e fingir que estava pegando cartas na caixa de correio. O trio estava lá, na maior discussão. Eunice ficou meia hora plantada na caixa de correio, o coração quase saindo pela boca. Aquele prédio era um estouro.
Um dia, Eunice chegou do trabalho e foi subindo as escadas apressada, para pegar a hora em que o homem do apartamento de frente chegava para levar o filho para passear, mas a ex-mulher não deixava. Ele tinha mandado judicial e sempre ia lá às quintas-feiras, mas a mulher fazia um escândalo e até deixá-lo sair com o menino era um drama. Eunice entrou e já se preparou para grudar os ouvidos na porta, quando o telefone tocou. Era o proprietário do apartamento, que o queria de volta. O contrato tinha acabado e ele não queria renovar. Eunice ficou arrasada. Até tentou conversar, oferecer para pagar um aluguel maior, mas não teve conversa. O jeito foi procurar outro lugar para morar. Tentou encontrar um prédio o mais próximo possível daquele, mas não tinha nenhum apartamento vago. E olha que Eunice andou mais que tudo. Não podia ficar sem seus vizinhos. Logo agora, com o pai buscando o menino às quintas-feiras. Era difícil, discussão com hora marcada! Quantas frustrações já não teve, olhando da janela ou ouvindo da porta, esperando acontecer alguma coisa, mas nada. Em compensação, quando acontecia, era uma felicidade só. Eunice deixou escapar uma lágrima. Que saudade!
Finalmente, encontrou um bom lugar. Não era perto do prédio antigo, mas era o que tinha conseguido. Eunice estava desiludida. Até que resolveu: assim que chegasse do trabalho, no dia seguinte, estacionaria o carro em frente ao prédio antigo e ficaria de plantão, ouvindo tudo. E assim fez. Até que começou a fazer todos os dias. Chegava de tardinha, nem passava em casa e ficava lá. Já começou a ficar conhecida na rua. As crianças comentavam: “Vamos jogar mais pra lá. Daqui a pouco, aquela dona que estaciona aqui chega”. Tinha dia que tentava engatar uma conversa com o porteiro, para ver se descobria alguma novidade. Outras vezes, saía do carro e ficava encostada, tentando ouvir as conversas do hall.
Foi quando ela chegou do trabalho e se preparava para seguir rumo ao prédio antigo, quando caiu uma chuva daquelas. Do carro, não ia dar para ouvir nada, e se saísse, ficaria toda molhada. Sem contar que estava cansada, tinha sido um dia daqueles. Resolveu ir direto para casa. No outro dia, iria para lá e se informaria das novidades do dia anterior. Abriu a porta, desanimada, tirou um refrigerante da geladeira e desabou no sofá. Até que seus olhos se iluminaram. Parecia que uma das novas vizinhas estava gritando alguma coisa. Levantou-se, apressada, e foi ouvir de trás da porta. Era a vizinha da frente, que reclamava com o marido do preço alto da sardinha. Eunice quase chorou de emoção. Não era a filha que estava grávida, mas pelo menos ela falava alto.
Conversa de vizinho
Tudo começou quando uma vizinha fez um escândalo com a filha, para a vizinhança toda ouvir. Parece que a menina tinha engravidado do namorado, com quem estava há duas semanas, e não sei mais o quê. Eunice ficou encantada. Não costumava estar em casa àquela hora, de tardinha, mas naquele dia tinha voltado mais cedo do trabalho. Mal se sentou no sofá, e a gritaria começou. Primeiro não se importou; na verdade, nunca tinha falado com os vizinhos e nem sabia o nome deles. Mas, quando a história foi desenrolando, em meio àquela gritaria, Eunice achou apaixonante. Até pegou refrigerante e pipoca para ouvir. Era melhor do que novela.
Algumas semanas tinham se passado e Eunice já sabia que a mãe da menina se chamava Mara, que a menina fazia faculdade de enfermaria e seu nome era Juliana, mas todo mundo a conhecia como Juju, e que o pai da criança não só não quis saber dela como já tinha voltado para a cidade natal. Eunice ficava na maior tensão, torcendo por cada capítulo. Abandonou completamente as horas-extras no trabalho: o quente era mesmo à tardinha, quando a menina voltava da faculdade. Eunice não podia perder. Mas as coisas se ajeitaram na casa da vizinha. Parece que ela acabou aceitando o filho da filha e até começou a dar uma força. As gritarias foram se espaçando, até acabar. Eunice foi ficando triste, quase indignada, afinal, quem eram aquelas duas para acabar com a diversão dela? Era uma trabalhadora. Merecia se distrair. Até que os vizinhos de baixo começaram a gritar. Eunice não acreditou: parecia um sonho. O caso era que o casal estava se separando, e um não agüentava mais a cara do outro. Passavam as tardes aos gritos, xingando o outro de tudo quanto era nome, mas não se largavam. O dia mais emocionante foi quando ele pegou a mala e foi ao hall do prédio, gritando, e a mulher o seguiu, chorando. Eunice chegou da janela e não desgrudou os olhos em nenhum momento. O homem foi embora mesmo, e a mulher o espera até hoje. Eunice também, porque, quando ele voltar, certamente vai ter.
Depois, veio o caso da menina do 102. Ela tinha um namorado que chegava todo dia em um carro branco, tipo perua. Eunice já tinha reparado e ficava ouvindo as conversas dos dois na frente do portão, encostados no carro. Até que Eunice escutou uma voz diferente chamando a menina para o portão. Chegou da janela e viu uma camionete verde. Naquela noite, Eunice nem dormiu, pensando em que fim o outro rapaz levara. Até que viu o carro branco novamente, e os dois se agarrando no portão. No outro dia, era a camionete verde, com os dois se agarrando no mesmo portão. Impossível não se interessar. Mas Eunice quase enlouqueceu, mesmo, no dia em que saiu do banho, olhou da janela e viu a camionete verde e o carro branco estacionados. Pensou que ia desmaiar de tanta tensão, mas precisava ver aquilo. Como não viu a menina no portão, teve que descer para o hall e fingir que estava pegando cartas na caixa de correio. O trio estava lá, na maior discussão. Eunice ficou meia hora plantada na caixa de correio, o coração quase saindo pela boca. Aquele prédio era um estouro.
Um dia, Eunice chegou do trabalho e foi subindo as escadas apressada, para pegar a hora em que o homem do apartamento de frente chegava para levar o filho para passear, mas a ex-mulher não deixava. Ele tinha mandado judicial e sempre ia lá às quintas-feiras, mas a mulher fazia um escândalo e até deixá-lo sair com o menino era um drama. Eunice entrou e já se preparou para grudar os ouvidos na porta, quando o telefone tocou. Era o proprietário do apartamento, que o queria de volta. O contrato tinha acabado e ele não queria renovar. Eunice ficou arrasada. Até tentou conversar, oferecer para pagar um aluguel maior, mas não teve conversa. O jeito foi procurar outro lugar para morar. Tentou encontrar um prédio o mais próximo possível daquele, mas não tinha nenhum apartamento vago. E olha que Eunice andou mais que tudo. Não podia ficar sem seus vizinhos. Logo agora, com o pai buscando o menino às quintas-feiras. Era difícil, discussão com hora marcada! Quantas frustrações já não teve, olhando da janela ou ouvindo da porta, esperando acontecer alguma coisa, mas nada. Em compensação, quando acontecia, era uma felicidade só. Eunice deixou escapar uma lágrima. Que saudade!
Finalmente, encontrou um bom lugar. Não era perto do prédio antigo, mas era o que tinha conseguido. Eunice estava desiludida. Até que resolveu: assim que chegasse do trabalho, no dia seguinte, estacionaria o carro em frente ao prédio antigo e ficaria de plantão, ouvindo tudo. E assim fez. Até que começou a fazer todos os dias. Chegava de tardinha, nem passava em casa e ficava lá. Já começou a ficar conhecida na rua. As crianças comentavam: “Vamos jogar mais pra lá. Daqui a pouco, aquela dona que estaciona aqui chega”. Tinha dia que tentava engatar uma conversa com o porteiro, para ver se descobria alguma novidade. Outras vezes, saía do carro e ficava encostada, tentando ouvir as conversas do hall.
Foi quando ela chegou do trabalho e se preparava para seguir rumo ao prédio antigo, quando caiu uma chuva daquelas. Do carro, não ia dar para ouvir nada, e se saísse, ficaria toda molhada. Sem contar que estava cansada, tinha sido um dia daqueles. Resolveu ir direto para casa. No outro dia, iria para lá e se informaria das novidades do dia anterior. Abriu a porta, desanimada, tirou um refrigerante da geladeira e desabou no sofá. Até que seus olhos se iluminaram. Parecia que uma das novas vizinhas estava gritando alguma coisa. Levantou-se, apressada, e foi ouvir de trás da porta. Era a vizinha da frente, que reclamava com o marido do preço alto da sardinha. Eunice quase chorou de emoção. Não era a filha que estava grávida, mas pelo menos ela falava alto.