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A professora de história

Só depois de escolher uma mesa, sentar-se e pedir um chá, Antônio percebeu que a mulher que comia sem muita vontade um croissant a poucos metros dele era ela. Obrigou-se a olhar para ela discretamente por três vezes, com um ansioso olhar entre cada vez, antes de confirmar para si o que já sabia desde o primeiro olhar: sim, era ela. Maria Emília do Carmo – ou simplesmente dona Emília, como os alunos do colégio a chamavam.

Ficou na dúvida se a cumprimentava ou não, embora soubesse que a dúvida era apenas uma conseqüência do inesperado e que com certeza não a deixaria sair do café sem pelo menos trocar algumas palavras com ela.

Lembrou-se do dia em que dona Emília elogiou seu trabalho de final de ano na frente de toda a sala, na oitava série.

Ele era um aluno mediano – daquele tipo que vive ouvindo dos outros que, se se dedicasse mais aos estudos, seria o primeiro da sala, e guarda essa certeza como um reconfortante motivo para não se dedicar. Tinha mais facilidade para as ciências exatas, detestava as aulas de redação e não sentia absolutamente nada em relação às de história – até a oitava série.

Quando Dona Emília deu bom dia aos alunos, escreveu seu nome no quadro e disse que faria uma linha de tempo da idade antiga até a idade moderna antes de começar a falar sobre a Grécia, ele já percebeu que aquela oitava série seria diferente, ao menos nas aulas de história.

Não que ele tivesse se apaixonado por ela. Pelo contrário – aos catorze anos, apesar de exaltar o descompromisso e fazer gozações com os amigos que começavam a namorar, ele sentia uma intrigante fascinação por uma menina do primeiro ano.

Era só porque, por algum motivo especial que nem os professores especiais conseguiriam explicar, a aula de dona Emília era a única na qual ele realmente conseguia prestar atenção – sem que precisasse fazer esforço para isso, como acontecia quando ele precisava alcançar determinado número de pontos para passar de ano ou quando ele, aparentemente sem motivo algum, era acometido por um efêmero sentimento de responsabilidade que o fazia decidir que, daquele momento em diante, passaria a ser um aluno exemplar.

Enquanto dona Emília falava, ele conseguia parar de pensar na menina do primeiro ano, assim como interrompia atividades que costumava fazer em sala de aula, como desenhar ou simplesmente reparar nas pessoas que sentavam nas carteiras à sua frente. Enquanto dona Emília falava, ele conseguia se interessar por história, como conseguiria se interessar por geografia caso ela ensinasse geografia e como certamente conseguiria se interessar até mesmo por redação, nem que fosse somente durante os cinqüenta minutos que duravam a aula.

Sabia que outros alunos também gostavam da aula de dona Emília. Mas não sentia ciúme, porque tinha certeza de que as aulas significavam para ele o que não significavam para mais nenhum aluno. Se ouvia algum comentário sobre como a última aula de história havia sido boa ou sobre como a professora estava bonita naquele dia, ele sorria consigo mesmo, como se tudo o que os outros alunos dissessem a respeito de Dona Emília ele já soubesse anteriormente – e soubesse de modo mais profundo, mais completo, mais íntimo.

Se cada professor tem, em uma classe, quatro ou cinco alunos preferidos, não necessariamente por causa do desempenho deles em sua disciplina, mas por motivos tão subjetivos como são os motivos que levam certos professores a ser especiais, Antônio era provavelmente um desses quatro ou cinco alunos para dona Emília. Ela parecia gostar muito dele. Era atenciosa quando ele levantava a mão para tirar dúvidas no meio da aula – e ele não o fazia para se exibir para os outros alunos; talvez até quisesse se exibir um pouco para ela, mas o principal motivo que o levava a fazer perguntas era que ele queria mesmo saber as respostas. Sorria docemente para ele quando o encontrava fora do horário de aula. Sempre se lembrava do nome dele ao cumprimentá-lo – sempre. E o elogiava na frente dos outros alunos. Elogios invariavelmente acompanhados por uma confiança que parecia tão sincera em sua capacidade que valia mais do que o próprio elogio.

O elogio e a confiança no seu trabalho de final de ano tinham sido particularmente bons.

Era um trabalho sobre mitologia grega. De modo geral, os alunos, cansados por causa das provas e trabalhos finais, não se empenharam muito – o fato de o trabalho valer poucos pontos fez com que se empenhassem ainda menos. Antônio, não. Dedicou-se a um trabalho de páginas, completo, detalhado. Porque, afinal, para os outros alunos, mesmo os para os que gostavam das aulas de dona Emília, era apenas um trabalho. Para Antônio, que sabia que não gostaria do professor de história da série seguinte antes mesmo de conhecê-lo, era uma despedida.

Assim que recebeu o trabalho, dona Emília sorriu o sorriso que Antônio tinha certeza que receberia e ainda assim aguardava ansiosamente. Mas a professora não só sorriu: folheou as páginas, levantou-se e começou a ler alguns trechos para a classe, encantada que estava.

Ali, olhando para a professora que agora pedia a conta, Antônio se lembrava com saudade daquela época. Trabalhando com engenharia elétrica, não se lembrava do último livro de história que havia lido – mas se lembrava dos trechos de seu trabalho que dona Emília, tão maravilhada, havia lido em voz alta.

A conta chegou. Maria Emília abriu a bolsa, colocou o dinheiro em cima da mesa e, assim que fez que ia levantar-se, Antônio foi ao seu encontro.

– Professora!

– Olá, querido… – respondeu Maria Emília, sorrindo.

– Lembra-se de mim? – perguntou Antônio apenas por perguntar, já que tinha certeza que ela se lembrava.

– Colégio Santo Expedito?

– Não, escola municipal Nossa Senhora do Pilar.

– Nossa, faz muitos anos, não? – respondeu ela, pegando o casaco. – Prazer em revê-lo. Até.

– Trabalho final de mitologia grega? – ele perguntou, com um fiapo de esperança.

– É mesmo, eu dava aula de mitologia! Desculpe, querido, tenho que ir agora. Gostei muito de revê-lo, cuide-se.

E foi embora. Antônio voltou para sua mesa, olhando dona Emília ao longe. Ela, que agora saía pela porta do café, levava consigo um sem-número de alunos para esquecer. E ele, suspirando enquanto pedia outro chá, trazia, como todos os alunos trazem, alguns poucos professores para lembrar.