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A mulher e o vestido da mulher

A mulher entrou na loja. A vendedora armou o sorriso. Quando viu que a mulher já estava com uma sacola na mão, com a marca da loja estampada, pensou em dar meia-volta, mas não adiantava. Ela já vinha em sua direção.

- Pois não?

- Vim trocar esse vestido.

- Claro. A senhora não gostou do modelo?

- Não é isso.

- O que seria, então?

- Não sei.

A vendedora se esforçou para não chorar. O relógio mostrava vinte e uma horas. Uma hora para a loja fechar. Era uma segunda-feira, não tinha atendido quase ninguém naquele dia. Ela não via o momento de ir para casa, quando a mulher chegou – com a sacola na mão.

- Não sabe?

- Pois é. Quando eu peguei o vestido lá em casa, sabia direitinho o que era. Mas, no caminho para cá, esqueci.

A vendedora suspirou. Poderia soltar um “então, quando se lembrar, a senhora volta”, mas achou melhor se controlar. Estava quase sendo promovida a funcionária do mês. Um quadro em cima do caixa, com certeza. Um bônus, quem sabe. Não, não jogaria aquilo no lixo. A loja já estava fechando, mas a gerente não estava morta. Pelo contrário. Estava sentada, olhando a cena. Era bom não fazer feio.

- Será que ficou pequeno?

- Boa idéia. Posso experimentar de novo?

- Por favor.

Apontou para o provador. A mulher entrou. Era boa, aquela vendedora. Poderia ter apontado para o provador com a cortina emperrada, mas não. Apontou para o que estava em perfeitas condições. Esperou. Esperou um pouco mais. Perguntou.

- Ficou bom?

- Ficou perfeito. Lindo, mesmo.

A vendedora se segurou.

- Então, não está pequeno.

- Não, não. Na verdade, poucos vestidos ficam bem em mim como esse.

Pausa. A mulher vestiu sua roupa de novo e saiu do provador. O vestido na mão. A vendedora esforçando-se para sorrir. Era norma da loja: sorrir. Eram vinte e uma horas e vinte minutos, mas a gerente estava olhando.

- Às vezes você não gostou da cor. Chamativa demais.

- Mas o vestido é preto.

- Ah, é. Tem isso.

A mulher estendeu o vestido no balcão. Pegou, virou, olhou. Amassou, virou do avesso, olhou de novo. A expressão de dúvida no rosto.

- Será que eu encontrei algum defeito de fabricação?

- Pode ser. Vamos examinar. A vendedora pegou a peça. Pegou, virou, olhou. Amassou, virou do avesso, olhou de novo. Nada. Nenhum furo, nenhum rasgo, nenhuma linha fora do lugar. O vestido estava impecável. As duas começaram a pensar.

- Pode ser que você não precise de vestido e quis trocar por outra peça. Uma blusa, talvez.

- Impossível. Eu não tenho nenhum vestido no meu guarda-roupa. Só saias. Sabe aquele pretinho básico, que toda mulher tem?

- Sei.

- Então. Eu não tinha. Comprei esse pra ser o meu.

A mulher riu. A vendedora fechou a cara. A gerente tinha ido ao banheiro, mesmo. A mulher se comoveu.

- Eu devo estar incomodando você.

- Imagina. Isso acontece sempre.

- Jura? Alguém chegar na loja para trocar mercadoria, e não se lembrar do que era?

- Ah, não, isso não.

A mulher riu de novo. A vendedora também riu. A gerente tinha voltado.

- Já sei. Você não gostou do tecido. Quer trocar por uma coisa mais leve.

- Não, não. De tecido leve, eu já estou cheia. Eu queria uma coisa mais pesada, com mais personalidade, entende?

- Tipo o quê?

- Tipo esse vestido.

A vendedora já estava desistindo. Até que um homem entrou na loja. A vendedora pensou ser outro cliente, e pôs a mão na testa. Mas ele logo foi em direção a mulher.

- Pronto, querida. Já me convenci.

- Viu? Viu? Eu consegui! Não comprei nada!

- Parabéns, você me surpreendeu. Vem, eu dou o dinheiro no carro.

O casal saiu. A vendedora olhou o relógio: vinte e uma horas e cinqüenta minutos. O primeiro que entrasse naquela loja em dez minutos levava uma pedra. Com a gerente no banheiro ou não.