Não é que ele não tivesse liberdade na sua casa, pelo contrário: já fazia alguns anos que sua mãe fingia perfeitamente, daquele jeito particular que só as mães sabem fingir, que não se importava quando ele se trancava no quarto com alguma namorada. Nesses momentos, ela costumava assistir à televisão ou cochilar no sofá – e, assim que ele saía do quarto tentando inutilmente disfarçar a expressão de quem acabara de fazer sexo, ela o olhava com um olhar que, de tão natural, o incomodava. Quando esse incômodo superou sua necessidade juvenil de se trancar com a namorada diante da menor oportunidade, ele resolveu: dali em diante, só quando a mãe não estivesse em casa.
Como a mãe não trabalhava fora e só saía durante curtos períodos para ir ao supermercado, ao açougue ou a campeonatos de cachorro – ela era assídua freqüentadora de campeonatos de cachorro –, ele não demorou a perceber que tinha arranjado um problema.
Foi aí que teve a idéia das imobiliárias.
Ele estava lendo o jornal de domingo com a mãe. Ela, que procurava anúncios de venda de cachorros – tinha esse hábito –, mostrou a ele um anúncio aparentemente interessante. Vendo uma oferta de um apartamento na mesma página, ele teve a idéia. Esperou ansiosamente que a mãe terminasse de falar, concordou com a cabeça, foi para o quarto, ligou para a namorada e disse satisfeito: “Arrume-se”.
Quando chegaram à imobiliária, a namorada ainda não tinha entendido totalmente a idéia – ele começara a explicar durante o trajeto, mas depois decidiu que faria uma surpresa a ela.
A funcionária perguntou se eles estavam procurando o apartamento de algum anúncio específico, ele respondeu que não, falou o bairro que estavam querendo, a funcionária mostrou as opções de apartamentos naquele bairro, ele escolheu um, a funcionária pegou o documento de identidade dele, entregou-lhe as chaves e disse que elas deveriam ser devolvidas em duas horas. Ele agradeceu e saiu com a namorada. Em duas horas, dava para fazer muita coisa.
Chegaram ao apartamento. Era um dois quartos elegante, mas isso não importava, já que interromperam a visita na sala – aliás, ela era praticamente igual aos quartos, já que não havia mobília. A namorada aprovou a idéia e o apartamento. Mas, por falta de dinheiro, ficaram só com a idéia, mesmo, que rapidamente virou um hábito.
O casal passou a ser conhecido na maioria das imobiliárias da cidade. Os funcionários faziam piadas entre eles sobre a indecisão dos dois. Havia até os que tinham certeza de que ele estava enrolando a suposta noiva, procurando apartamentos apenas para atrasar o casamento.
Com o tempo, ele percebeu quais eram as melhores imobiliárias para freqüentar. As que exigiam a presença de um corretor de imóveis nos apartamentos a serem avaliados eram logo descartadas após a primeira visita. Ele chegou a propor à namorada que admitissem a companhia de uma corretora mulher, ainda mais se fosse bonita, mas ela não gostou da idéia.
Em pouco tempo, descobriram os apartamentos mobiliados.
Era como se estivessem em um motel de primeira linha, sem pagar nada por isso. Usavam a cama ou, no caso de um imóvel específico, a banheira que ficava no terraço – eles gostaram tanto desse imóvel que chegaram a pedir suas chaves quatro vezes, até decidirem finalmente não alugá-lo, alegando à imobiliária que ele tinha encontrado outro imóvel mais em conta.
Depois da descoberta dos apartamentos mobiliados, eles descobriram que era divertido fingir que eram ricos. Começaram a ir, extremamente bem-vestidos, a imobiliárias em que ainda não eram conhecidos, e escolhiam um apartamento caro que não estava disponível para aluguel, mas sim para venda. Também teve a fase em que davam preferência para determinados bairros, mais sossegados e românticos – adoravam visitar apartamentos em uma determinada rua onde havia um bar que tocava uma agradável música ao vivo quase o dia todo.
Demorou um certo tempo até que algumas imobiliárias começassem a recusar pedidos do casal para olhar apartamento. Os funcionários passaram a alegar que o apartamento que o casal pedia para ver já estava sendo negociado com outro interessado, ou, diante da insistência dos dois, afirmavam que a política da corretora havia mudado e que eles só poderiam visitar o apartamento se acompanhados por um profissional da casa. Se eles continuavam insistindo, os funcionários educadamente explicavam que se tratava de ordens do gerente – e realmente se tratava. O casal até tentou argumentar com o gerente de algumas imobiliárias, pedindo desculpas por não escolherem nunca e explicando que estavam próximos de chegar a uma decisão, estratégia que funcionou algumas vezes – não muitas. Era inevitável: as noites, tardes e até mesmo manhãs de amor – estas, geralmente aos domingos, quando a maioria das imobiliárias funcionava apenas até meio-dia – estavam chegando ao fim.
Voltaram ao velho problema.
Levar a namorada para o quarto quando a mãe estava em casa, agora, mais do que causar desconforto, seria inviável: acostumado à intimidade proporcionada pelos apartamentos vazios, ele não conseguiria fazer nada com a presença dela na casa, e provavelmente sua namorada também não.
Acabaram se resignando, em parte porque não havia mais nada a fazer senão se resignar, em parte porque a necessidade urgente de fazer sexo com muita freqüência tinha passado. Aos poucos, acostumaram-se a se contentar com as raras ocasiões em que ficavam a sós, quando coincidia de a mãe dele sair durante uma visita da namorada à casa deles, ou quando tinham dinheiro para freqüentar motéis, o que faziam cerca de uma vez por mês.
Mas os dois tinham se apegado demais à idéia das imobiliárias para abandoná-la.
Dava saudade.
A emoção de procurar apartamentos, o ritual de avaliar as opções mostradas pelos funcionários – acompanhado, muitas vezes, de uma teatral discussão entre o casal, que adorava brincar de discordar em relação ao imóvel. Sentiam tanta falta que, depois de se casarem, decidiram retomar o antigo hábito.
Não querendo voltar a freqüentar imobiliárias em que não eram bem-vindos (tiveram que negociar diretamente com o proprietário quando decidiram de fato alugar um apartamento), reservaram o hábito para as férias, quando viajavam. Assim que chegavam à cidade de destino, compravam um jornal, abriam nos classificados e anotavam os endereços das imobiliárias. Só então iam para o hotel, desfaziam as malas e, ao planejar os passeios que fariam durante a viagem, colocavam em primeiro lugar a procura infindável por um bom apartamento para alugar ou vender. De preferência, mobiliado.
A ideia das imobiliárias
Não é que ele não tivesse liberdade na sua casa, pelo contrário: já fazia alguns anos que sua mãe fingia perfeitamente, daquele jeito particular que só as mães sabem fingir, que não se importava quando ele se trancava no quarto com alguma namorada. Nesses momentos, ela costumava assistir à televisão ou cochilar no sofá – e, assim que ele saía do quarto tentando inutilmente disfarçar a expressão de quem acabara de fazer sexo, ela o olhava com um olhar que, de tão natural, o incomodava. Quando esse incômodo superou sua necessidade juvenil de se trancar com a namorada diante da menor oportunidade, ele resolveu: dali em diante, só quando a mãe não estivesse em casa.
Como a mãe não trabalhava fora e só saía durante curtos períodos para ir ao supermercado, ao açougue ou a campeonatos de cachorro – ela era assídua freqüentadora de campeonatos de cachorro –, ele não demorou a perceber que tinha arranjado um problema.
Foi aí que teve a idéia das imobiliárias.
Ele estava lendo o jornal de domingo com a mãe. Ela, que procurava anúncios de venda de cachorros – tinha esse hábito –, mostrou a ele um anúncio aparentemente interessante. Vendo uma oferta de um apartamento na mesma página, ele teve a idéia. Esperou ansiosamente que a mãe terminasse de falar, concordou com a cabeça, foi para o quarto, ligou para a namorada e disse satisfeito: “Arrume-se”.
Quando chegaram à imobiliária, a namorada ainda não tinha entendido totalmente a idéia – ele começara a explicar durante o trajeto, mas depois decidiu que faria uma surpresa a ela.
A funcionária perguntou se eles estavam procurando o apartamento de algum anúncio específico, ele respondeu que não, falou o bairro que estavam querendo, a funcionária mostrou as opções de apartamentos naquele bairro, ele escolheu um, a funcionária pegou o documento de identidade dele, entregou-lhe as chaves e disse que elas deveriam ser devolvidas em duas horas. Ele agradeceu e saiu com a namorada. Em duas horas, dava para fazer muita coisa.
Chegaram ao apartamento. Era um dois quartos elegante, mas isso não importava, já que interromperam a visita na sala – aliás, ela era praticamente igual aos quartos, já que não havia mobília. A namorada aprovou a idéia e o apartamento. Mas, por falta de dinheiro, ficaram só com a idéia, mesmo, que rapidamente virou um hábito.
O casal passou a ser conhecido na maioria das imobiliárias da cidade. Os funcionários faziam piadas entre eles sobre a indecisão dos dois. Havia até os que tinham certeza de que ele estava enrolando a suposta noiva, procurando apartamentos apenas para atrasar o casamento.
Com o tempo, ele percebeu quais eram as melhores imobiliárias para freqüentar. As que exigiam a presença de um corretor de imóveis nos apartamentos a serem avaliados eram logo descartadas após a primeira visita. Ele chegou a propor à namorada que admitissem a companhia de uma corretora mulher, ainda mais se fosse bonita, mas ela não gostou da idéia.
Em pouco tempo, descobriram os apartamentos mobiliados.
Era como se estivessem em um motel de primeira linha, sem pagar nada por isso. Usavam a cama ou, no caso de um imóvel específico, a banheira que ficava no terraço – eles gostaram tanto desse imóvel que chegaram a pedir suas chaves quatro vezes, até decidirem finalmente não alugá-lo, alegando à imobiliária que ele tinha encontrado outro imóvel mais em conta.
Depois da descoberta dos apartamentos mobiliados, eles descobriram que era divertido fingir que eram ricos. Começaram a ir, extremamente bem-vestidos, a imobiliárias em que ainda não eram conhecidos, e escolhiam um apartamento caro que não estava disponível para aluguel, mas sim para venda. Também teve a fase em que davam preferência para determinados bairros, mais sossegados e românticos – adoravam visitar apartamentos em uma determinada rua onde havia um bar que tocava uma agradável música ao vivo quase o dia todo.
Demorou um certo tempo até que algumas imobiliárias começassem a recusar pedidos do casal para olhar apartamento. Os funcionários passaram a alegar que o apartamento que o casal pedia para ver já estava sendo negociado com outro interessado, ou, diante da insistência dos dois, afirmavam que a política da corretora havia mudado e que eles só poderiam visitar o apartamento se acompanhados por um profissional da casa. Se eles continuavam insistindo, os funcionários educadamente explicavam que se tratava de ordens do gerente – e realmente se tratava. O casal até tentou argumentar com o gerente de algumas imobiliárias, pedindo desculpas por não escolherem nunca e explicando que estavam próximos de chegar a uma decisão, estratégia que funcionou algumas vezes – não muitas. Era inevitável: as noites, tardes e até mesmo manhãs de amor – estas, geralmente aos domingos, quando a maioria das imobiliárias funcionava apenas até meio-dia – estavam chegando ao fim.
Voltaram ao velho problema.
Levar a namorada para o quarto quando a mãe estava em casa, agora, mais do que causar desconforto, seria inviável: acostumado à intimidade proporcionada pelos apartamentos vazios, ele não conseguiria fazer nada com a presença dela na casa, e provavelmente sua namorada também não.
Acabaram se resignando, em parte porque não havia mais nada a fazer senão se resignar, em parte porque a necessidade urgente de fazer sexo com muita freqüência tinha passado. Aos poucos, acostumaram-se a se contentar com as raras ocasiões em que ficavam a sós, quando coincidia de a mãe dele sair durante uma visita da namorada à casa deles, ou quando tinham dinheiro para freqüentar motéis, o que faziam cerca de uma vez por mês.
Mas os dois tinham se apegado demais à idéia das imobiliárias para abandoná-la.
Dava saudade.
A emoção de procurar apartamentos, o ritual de avaliar as opções mostradas pelos funcionários – acompanhado, muitas vezes, de uma teatral discussão entre o casal, que adorava brincar de discordar em relação ao imóvel. Sentiam tanta falta que, depois de se casarem, decidiram retomar o antigo hábito.
Não querendo voltar a freqüentar imobiliárias em que não eram bem-vindos (tiveram que negociar diretamente com o proprietário quando decidiram de fato alugar um apartamento), reservaram o hábito para as férias, quando viajavam. Assim que chegavam à cidade de destino, compravam um jornal, abriam nos classificados e anotavam os endereços das imobiliárias. Só então iam para o hotel, desfaziam as malas e, ao planejar os passeios que fariam durante a viagem, colocavam em primeiro lugar a procura infindável por um bom apartamento para alugar ou vender. De preferência, mobiliado.