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	<title>Liliane Prata</title>
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		<title>Sobre as pessoas simpáticas</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Feb 2012 01:09:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Casos]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Simpatia]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>

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		<description><![CDATA[Há alguns anos, trabalhei com um fotógrafo que era uma simpatia. Eu era a editora de uma série de vídeos. O trabalho exigia que eu e a equipe passássemos cinco dias juntos, andando e filmando para lá e para cá. Não me lembro de ninguém dessa equipe. A não ser, claro, do fotógrafo. Cerca de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2012/02/sandra.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-389" title="sandra" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2012/02/sandra.jpg" alt="" width="300" height="168" /></a>Há alguns anos, trabalhei com um fotógrafo que era uma simpatia.</p>
<p>Eu era a editora de uma série de vídeos. O trabalho exigia que eu e a equipe passássemos cinco dias juntos, andando e filmando para lá e para cá. Não me lembro de ninguém dessa equipe. A não ser, claro, do fotógrafo. Cerca de cinqüenta anos, cheio de casos engraçados sobre o trabalho, a família, as viagens, a vida. Cumprimentava todo mundo calorosamente, sorria sem parar. A típica pessoa simpática. Eu, claro, gosto de pessoas simpáticas. Gostei de todo mundo da equipe, mas gostei mais dele. Quando o trabalho acabava, era com ele que eu conversava sobre o trabalho, a família, as viagens, a vida. Superlegal.</p>
<p>Bom. No último dia de trabalho, esse fotógrafo simpático me ferrou. Foi uma coisa meio vilão de novela, com direito a mentira, difamação e fuga. Me passou para trás, mesmo. Tive o maior trabalhão para desmascará-lo para a empresa que tinha me contratado. Foi a primeira e última experiência profissional que tive desse tipo. Foi também a primeira e última vez que usei a palavra “desmascará-lo”.</p>
<p>Naquele dia, cheguei em casa péssima. Meu marido ainda não tinha chegado – caixa postal, reunião. Um amigo deu o azar de me ligar justamente nessa hora. Foi para ele o desabafo. Ele mal entendia a história, porque eu só conseguia dizer:</p>
<p>– Mas ele era tão simpático!</p>
<p>Esse meu amigo é executivo. Ele comanda uma grande equipe numa grande empresa e trabalha com pessoas simpáticas e antipáticas há muitos anos. Mas trabalho, mesmo, ele teve comigo, quando tentou me explicar o óbvio: uma pessoa antipática pode ser a mais leal de uma equipe. E uma supersimpática pode ser justamente a que vai te ferrar.</p>
<p>– Não pode ser – teimei. – Pessoas simpáticas são ótimas! Quem não prefere ter um chefe simpático?<br />
– Você prefere um chefe simpático ou um chefe justo?</p>
<p>Esse meu amigo é bem persuasivo.</p>
<p>Desliguei o telefone pensativa. Comecei a me lembrar das pessoas simpáticas que tinha conhecido ao longo da minha vida. Depois, das antipáticas. As meio-termo ficaram de fora. Eu só queria me lembrar de pessoas como o fotógrafo, uns amores, mas não exatamente confiáveis. Lembrei. Também lembrei o oposto: pessoas antipáticas que sempre mereceram minha confiança.</p>
<p>(Claro, também encontrei simpáticos confiáveis e antipáticos de caráter duvidoso, mas isso não ajudava em nada meu aprendizado recém-conquistado na conversa com meu amigo, então viva o maniqueísmo!)</p>
<p>Fui tomar meu banho arrasada. Simpatia não garante NADA. E eu, que sempre procurei ser simpática com os vizinhos, o porteiro etc. Às vezes, sou simpática porque estou num dia simpático, mas, às vezes, me esforço para dar sorrisos e tal. Para quê? Simpatia não mostra nada sobre o caráter, a índole, a alma de uma pessoa. Na verdade, em tempos de relativismo, nem sei se cabe falar em caráter, índole, alma – sobre essa última, ainda podemos alegar que a metafísica morreu no século 18. O ponto é: naquele dia, melhorei meu vocabulário e aprendi que “simpático” não é sinônimo de “legal”.</p>
<p>Mas é claro que, no meu trabalho seguinte em equipe, meses depois daquele, me deparei com outra pessoa supersimpática. Afinal, elas estão em toda parte. Dessa vez, era uma mulher, dessa vez, uma jornalista. Ai, que simpatia. Dessas pessoas simpáticas que só perguntam seu nome uma vez e já vão decorando como você se chama, como seu marido se chama, como você costuma pedir seu café. Prestam atenção a tudo, contam casos espirituosos, se abrem na medida certa, não falam de mais, nem de menos, sorriem. Enfim, o tipo da pessoa que me faz pensar, sem nem conhecê-la direito: “Que pessoa bacana!”</p>
<p>Nem preciso dizer que esqueci tudo o que tinha aprendido com o episódio do fotógrafo e com os conselhos do meu sábio amigo.</p>
<p>Porque ser simpático pode não significar nada, mas e daí? Não me importo: eu simplesmente adoro quando as pessoas são simpáticas comigo. Me sinto querida, meu humor fica bom, meu dia fica bom. Pode não significar nada, mas tudo tem que significar alguma coisa?</p>
<p>Está resolvido. Se eu cruzar com alguém não muito confiável, que essa pessoa não me faça aturar, além da sua falta de confiabilidade, a sua cara amarrada. Se alguém for desleal comigo, que, pelo menos, seja desleal depois de um cafezinho regado a conversas bem simpáticas. Porque, afinal, como diria Casimiro de Abreu, simpatia é quase amor.</p>
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		<title>Ele, o todo e cada um</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Nov 2011 21:28:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ele decidiu viver só para ele. Não era assim que as coisas funcionavam? Individualidade era um valor forte da cultura em que estava inserido, havia dito um sociólogo num programa de TV. Mas não era preciso ser sociólogo para constatar isso. Afinal, havia os anúncios de publicidade.  Os seriados. As caixas de cereal. Sim, as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/11/SimpsonsCast_1024._www.imotion.com_.brgif_.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-386" title="SimpsonsCast_1024._www.imotion.com.brgif" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/11/SimpsonsCast_1024._www.imotion.com_.brgif_-300x225.gif" alt="" width="300" height="225" /></a>Ele decidiu viver só para ele.</p>
<p>Não era assim que as coisas funcionavam? Individualidade era um valor forte da cultura em que estava inserido, havia dito um sociólogo num programa de TV. Mas não era preciso ser sociólogo para constatar isso. Afinal, havia os anúncios de publicidade.  Os seriados. As caixas de cereal. Sim, as caixas de cereal: não era nelas que ele lia, toda manhã, dicas como “seja você mesmo”, “faça o que tem vontade” e até mesmo “faça o seu destino”? Então.</p>
<p>Os filósofos gregos se perguntavam qual a melhor maneira de viver a vida, mas parece que os contemporâneos dele tinham encontrado a resposta: ser livres para fazer suas próprias escolhas, consumir para atenuar as angústias, viajar, curtir. Cada um do seu jeito. Cada um na sua. Não era assim?, pensou ele. Então, para que remar contra a maré?</p>
<p>Ele trabalhou, ganhou dinheiro, exigiu ser respeitado quando pintou o cabelo, quando raspou o cabelo, quando mudou de orientação sexual, de religião, de ideia, de estilo de roupa, de estilo musical. Ele se entusiasmou e mudou a cor da pele, mudou de gênero, engordou, emagreceu e envelheceu, sempre deixando muito claro que queria ser respeitado como indivíduo.</p>
<p>Ele também queria ter seus bens respeitados, é claro. O indivíduo e as coisas do indivíduo, não é assim que funciona? Ele, o carro dele, a casa dele, os móveis dele, a casa de praia dele, o relógio dele, o computador dele, o dinheiro dele.  Assim como as idéias dele, as opiniões dele, os sonhos dele, a personalidade dele, o gosto dele.</p>
<p>E que bom, ele tinha conseguido ser respeitado, que evoluída uma sociedade assim, que respeita o eu de cada um, o meu do nosso.</p>
<p>Mas tinha um problema. O trânsito.</p>
<p>Respeitarem o estilo de roupa dele, as opiniões dele e os bens dele era muito bacana. Respeitarem a cor dele, o gênero dele e a orientação sexual dele era mais bacana ainda. Mas e o trânsito?</p>
<p>O trânsito não era dele, era de todos, e como cada um foi entrando na dele e na das caixas de cereal, o trânsito foi virando um inferno. Quem queria passar passava, quem queria fechar fechava, quem queria correr corria.</p>
<p>Mas o trânsito foi só o começo do colapso. Ele foi se cansando de viver só para ele. Foi se sentindo vazio. As coisas que eram só dele foram perdendo o sentido. O sentido vinha da reação com os outros e com o todo, mas os outros e o todo só pensavam em cada um. Então cada um foi se angustiando, e o tempo foi passando, com a agonia de vários eus e a morte do todo.</p>
<p>Viver só para ele não estava funcionando.</p>
<p>Então ele pensou bem e decidiu viver só para o todo.</p>
<p>Não fazia muito mais sentido? O que importava era o coletivo.  O interesse de todos supera as necessidades de cada um, ele viu outro sociólogo falando num programa de TV.</p>
<p>Os filósofos gregos se perguntavam qual era a melhor maneira de viver a vida, mas parece que os tribunais gregos não tinham nenhuma dúvida a esse respeito: a propriedade lá não era muito privada, as ações de cada um eram voltadas para a política e quem desobedecia as regras da cidade não tinha direitos individuais, mas uma boa dose de cicuta.</p>
<p>Ele não sabia o que pensar da cicuta, mas não dava mais para viver só pensando em si mesmo, num mundo em que ninguém vive sozinho. Como só pensar em mim, se faço parte de uma sociedade?, ele começou a pensar. O que importa meu computador? Meu carro? O que importa a minha caixa de cereal da minha cozinha da minha casa, o que importa a minha caixa de cereal com mensagens de auto-ajuda quando o mundo está gritando por ajuda?</p>
<p>Ele juntou as pessoas que pensavam como ele e fez um grande todo de gente que pensava no todo. A ideia se espalhou e todo mundo começou a se focar em todo mundo.</p>
<p>Trabalhos foram distribuídos pensando no coletivo, idéias e preocupações foram distribuídas pensando no coletivo, casas foram distribuídas pensando no coletivo, famílias foram orientadas a educar seus filhos pensando no coletivo e, aliás, os coletivos andavam muito bem, obrigado, assim como os carros e motos naquele trânsito que começou a fluir que era uma maravilha.</p>
<p>Mas aí veio o problema da tintura de cabelo.</p>
<p>O trânsito era uma maravilha, mas os fios de cabelo branco dele eram um inferno e, que diabo, ele estava acostumado a tingir o cabelo desde a época em que vivia só para ele. Ele tentou comprar a tintura de sempre, mas parecia que isso de tingir o cabelo não era uma atitude muito coletiva, porque ele não conseguia encontrar a tinta.</p>
<p>Ele foi ficando chateado com isso e se abriu com seus colegas que pensavam no coletivo.</p>
<p>Os colegas, no início, criticaram esse desejo dele de tingir o cabelo, ora, que bobagem anacrônica de tempos individualistas, que capricho bobo, o que importa não é seu cabelo, mas o todo. Mas aí um colega confessou que sentia falta das roupas que usava, e outro disse que sentia falta de uma marca de chocolate de que gostava.</p>
<p>As saudades foram crescendo: da propriedade privada, passaram às alegrias e tristezas privadas.</p>
<p>Da liberdade. De exercerem a profissão que quisessem, de crescerem na profissão que quisessem. De pensar e de falar o que quisessem, de expressarem opiniões diferentes das opiniões do todo. De criar um filho de acordo com seus próprios valores, desfrutar prazeres pessoais e se empenhar por objetivos particulares.  De desejar não só os desejos do todo, mas os desejos de cada um, com a personalidade, as vontades, a história de cada um. De chorar em um canto, mesmo quando o tudo de todos estava bem.</p>
<p>O todo foi agonizando e os indivíduos foram morrendo, um a um.</p>
<p>Ele suspirou.</p>
<p>Ele queria as coisas dele e as coisas do todo.</p>
<p>Ele queria ser um dentro de si e dentro do coletivo.</p>
<p>Ele queria tingir o cabelo, ajudar os outros, ser ele mesmo e fazer parte de algo maior.</p>
<p>Ele queria do fundo da sua alma, daquela alma solitária e agrupada, que morava dentro e fora dele. Ele queria um mundo individual mais humanizado. Um mundo coletivo mais interiorizado.</p>
<p>Ele olhou para si, olhou o céu e sorriu. Ele queria. Era possível?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Lançamento!</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Nov 2011 19:42:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Amigos, leitores, conhecidos, desconhecidos: todos convidados! =)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Amigos, leitores, conhecidos, desconhecidos: todos convidados! =)</p>
<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/11/convite.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-383" title="convite" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/11/convite.jpg" alt="" width="898" height="614" /></a><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/11/convite.jpg"><br />
</a></p>
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		<title>Nossa alegria ou um lapso, um esquecimento</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 14:47:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[mundo]]></category>
		<category><![CDATA[tristeza]]></category>

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		<description><![CDATA[Se eu fosse uma índia brasileira no século 15, se eu fosse um bandeirante alguns séculos depois, se eu fosse um comerciante na idade média, se eu fosse um artesão na China imperial, então a minha alegria seria simples, seria localizada, seria uma conseqüência natural de um dia bom. Fico pensando no que é um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/09/Candido-Portinari-4.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-340" title="Candido-Portinari-4" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/09/Candido-Portinari-4-300x285.jpg" alt="" width="300" height="285" /></a>Se eu fosse uma índia brasileira no século 15, se eu fosse um bandeirante alguns séculos depois, se eu fosse um comerciante na idade média, se eu fosse um artesão na China imperial, então a minha alegria seria simples, seria localizada, seria uma conseqüência natural de um dia bom.</p>
<p>Fico pensando no que é um dia bom para uma índia brasileira no século 15, um bandeirante, um comerciante medieval, um artesão chinês. Nos meus devaneios embaixo do chuveiro, nas caminhadas pelo meu bairro, o dia bom deles é um dia em que a doença do meu filho melhorou, em que voltaram com uma bela caça, encontrei ouro, fiz um bom negócio.</p>
<p>Deitada no sofá, imagino o dia ruim deles. Um dia ruim pode ser apenas um dia em que não choveu. Também pode ser um dia terrível, porque um dia terrível é terrível em todas as épocas, porque minha tribo pode ter sofrido um ataque, porque vi mortos e feridos, fui roubado, um parente morreu de doença, tanta coisa.</p>
<p>Mas essa coisa é localizada. A dor é localizada, a dor está no meu ombro, no meu entorno, está perto de mim, assim como estão as minhas alegrias. Porque a índia brasileira do século 15, o bandeirante, o comerciante, o artesão, eles não vêem Globo News, não sabem o que é CNN, não lêem a Folha enquanto passam manteiga no seu pão no café da manhã, não entram na home do Estadão.</p>
<p>A moça mais bela do mundo é a filha do cacique, não é a capa da revista People. Exemplo de coragem é um guerreiro de quem ouvi falar pelos meus pais e avós, não o surfista australiano que vi num vídeo no YouTube. As coisas acontecem não longe, mas ao meu lado; se não há terremoto na região onde vivo, então não há terremotos, e a alegria, quando existe, ah, a alegria é desinteressada, é simples, é localizada, mais fácil. No meu banho, no meu sofá, a alegria deles é apenas uma coisa boa de se sentir. E a minha alegria? A minha alegria é diferente.</p>
<p>Basta ler algumas notícias, basta saber de algumas coisas, basta se informar pelas estatísticas: ah, as estatísticas! Graças a elas, meu conhecimento não se reduz ao que se passa na minha casa, com meu marido, minha filha e meu sofá: graças a elas, sei que, nas duas horas em que passei numa sala de cinema, cerca de 110 pessoas morreram assassinadas no mundo. Graças a elas, tenho ideia de quantos estupros ocorrem diariamente no Brasil e nos outros países, quantos atropelamentos, desaparecimentos, diagnósticos de câncer, vítimas de AIDS, de tuberculose, de apedrejamento, de furacão, de terremoto, de tortura. Não sei apenas o que acontece na minha casa, com minha família e meus amigos, mas com as famílias e os amigos dos outros, do meu país e de todos os outros países, sei de pais que espancam seus filhos, li sobre pessoas perdendo seus membros em minas terrestres, vi fotos de feridos em guerras, em tantas guerras, em muito mais guerras do que deveriam caber na minha vida.</p>
<p>Como ficar feliz hoje, sabendo que há tanta tristeza?</p>
<p>Talvez seja impossível definir qualquer sentimento, mas talvez seja fácil definir a alegria de hoje, a alegria da modernidade, a alegria da era da informação: a nossa alegria é um lapso, um esquecimento.</p>
<p>Por alguns breves instantes, esquecemos os famintos, as vítimas de estupro, os furacões, as crianças doentes, e sorrimos com a gracinha do nosso filho, e saboreamos uma xícara de cappuccino, e botamos a conversa em dia com uma amiga, e rimos de alguma bobagem na TV.</p>
<p>A índia, o comerciante medieval – para se sentir alegres, eles precisavam se esquecer dos eventos ruins que tinham acontecido no dia anterior, na semana anterior, no ano anterior; eles precisavam apenas se esquecer do passado, enquanto nós lutamos para esquecer o presente.</p>
<p>Fico pensando se toda alegria hoje é uma forma de alienação, se eu simplesmente não deveria me sentir alegre nunca, se eu deveria fazer mais, muito mais do que eu faço, mas o quê? Fico pensando se toda alegria é uma ignorância egoísta ou uma fuga desesperada desse todo caótico, uma corrida pela vida, pela minha própria vida, uma corrida para o meu universo particular.</p>
<p>Nos meus banhos, no meu sofá, tento lembrar que há dois universos, o lá de fora e o aqui dentro de mim, e o de dentro de mim precisa às vezes esquecer as estatísticas, precisa desligar a Globo News, precisa de paz, de alegria, nem que seja dessa alegria de hoje, essa alegria do esquecimento, da fuga, do lapso, nem que essa alegria seja ignorante, individualista, talvez mesquinha – preciso dela para respirar.</p>
<p>E talvez não seja só eu que precise dessa alegria, desse lapso, talvez precisemos todos, eu, você e também as vítimas das mais tristes estatísticas, o menino que perdeu uma perna e agora joga futebol usando uma prótese, a menina que foi violentada e um dia conseguiu tomar um sorvete, dançar, rir de uma piada, quem sabe planejar uma festa de aniversário. Todos nós precisamos esquecer.</p>
<p>A vida sem esquecimentos é dura demais, para nós e para eles. É mais dura do que podemos suportar. Se temos mais informação hoje, penso eu no meu sofá, temos também mais necessidade desses lapsos, dessas alienações, que seja.</p>
<p>Temos de dar conta do fato de não darmos conta de tanta tristeza, simplesmente. De o conteúdo da CNN ser vasto demais para o nosso coração. Temos de arranjar uma permissão interna para saborear nosso chá por alguns minutos. Uma pausa para rir. Para aceitar que nosso poder individual é pouco para a grandeza da dor mundial. Para nos lembrar não só das centenas de assassinatos e estupros por dia, mas também dos nascimentos e das relações sexuais prazerosamente consentidas, e dos abraços,  cafunés e reencontros de todo tipo. Para nos contentar em fazer o que está ao nosso alcance pelo universo dos outros. Alguns fazem mais, outros menos, e todos nós sentimos muito, e respiramos fundo, e nos esforçamos para conservar alguma esperança e também para pedir licença e nos refugiar por alguns instantes dentro de nós mesmos, da nossa família, dos nossos sonhos, do nosso caos interior.</p>
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		<title>Estamos presos</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 00:13:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[pessimismo]]></category>
		<category><![CDATA[Zara]]></category>

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		<description><![CDATA[Como muita gente, senti um mal-estar ao pensar nas condições sub-humanas a que são submetidos alguns costureiros que trabalham para a Zara. Isso foi hoje de manhã, tomando café, lendo a Folha – não sei por que espalharam por aí que jornal e café da manhã combinam. Lembrei do trabalho infantil associado à marca Nike, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Tempos-modernos.preview.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-337" title="Tempos modernos.preview" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/08/Tempos-modernos.preview-300x222.jpg" alt="" width="300" height="222" /></a>Como muita gente, senti um mal-estar ao pensar nas condições sub-humanas a que são submetidos alguns costureiros que trabalham para a Zara.</p>
<p>Isso foi hoje de manhã, tomando café, lendo a Folha – não sei por que espalharam por aí que jornal e café da manhã combinam. Lembrei do trabalho infantil associado à marca Nike, na China, se não me engano, alguns anos atrás. Pensei: basta. Chega de comprar roupas de grandes manufaturas. Porque o problema não é só da Zara nem só da Nike, o problema é da lógica da produção em larga escala – custo baixo, lucro alto, vamos lá encontrar algum país latino-americano ou asiático e mandar bala – e refrigerante, e bolsa e qualquer coisa produzida em grande quantidade.</p>
<p>Vou dar preferência a roupas de pequenas manufaturas, pensei, terminando meu café. Eu já tinha pensado nisso antes, já tinha pensado que faz mais sentido incentivar pequenos empresários, pequenas empresas. Não vou fiscalizar a manufatura delas, mas elas produzem poucas peças, não fabricam nada insanamente, não escravizarão trabalhadores no Bom Retiro nem em lugar algum. E para que me limitar a roupas? Eu sei em que condições trabalham os operários da linha de produção da, digamos, Nestlé? Não, não vou comprar mais chocolate da Nestlé, vou comprar chocolate caseiro, trufas caseiras, aqui perto de casa tem uma simpática senhora que vende trufas deliciosas.</p>
<p>Já na hora do almoço, eu me lembrei dos botões, dos zíperes e dos tecidos. Malditos botões, zíperes e tecidos. E havia também as embalagens. As embalagens, meu Deus! Liguei para uma amiga estilista que definitivamente não produz em larga escala: quem produz os botões que você usa para costurar suas roupas? Os zíperes? Os tecidos? Onde você adquire as embalagens? Ela me deu o nome de alguns fornecedores. Fiquei feliz de ver que o fornecedor de botões era uma pequena fábrica em São Paulo, que aparentemente não escravizava ninguém. Mas aí pensei: o plástico dos botões. De onde vem? Quem é o fornecedor do fornecedor? E o fornecedor das máquinas das fábricas? Algo me diz que aqueles parafusos vêm da China. Ninguém me garante que não haja uma criança envolvida na linha de produção daquele parafuso. Ou um trabalhador adulto com dez minutos de almoço.</p>
<p>E aí adocei meu café com açúcar. E aí acabou tudo. Porque me lembrei do cortador de cana. Do cortador de cana que vive em péssimas condições, trabalha em péssimas condições e tem que se aposentar aos 30 anos por invalidez.</p>
<p>Claro que, a essa altura, a possibilidade de todo o chocolate consumido aqui em casa vir da simpática senhora das trufas estava descartada. Porque ela usa o açúcar desse cortador de cana. E, pensando bem, a trufa dela lembra o gosto da Nestlé. Para produzir suas trufas caseiras, ela deve derreter barras de chocolate Nestlé no forno de microondas dela produzido em larga escala pelos operários coreanos, chineses ou sei lá de onde da Panasonic.</p>
<p>À tarde, no banho, eu já tinha desistido do meu plano inicial de boicotar as grandes manufaturas de roupa.  Mas eu não tinha me dado por vencida: consumir menos. É por aí que a solução passa: consumir menos.</p>
<p>Mas aí pensei: se todo mundo resolve fazer isso, não estouraria uma crise econômica mundial ainda mais grave? Não entendo muito de economia mundial, para falar a verdade, entendo cada vez menos; não conheço nenhum economista para conversar sobre isso, talvez as opiniões deles se dividam sobre essa questão, mas ali, no meu banho pessimista, eu só conseguia pensar: consumir menos é gerar menos empregos, é piorar ainda  mais as coisas.</p>
<p>Agora há pouco, depois do jantar, vestindo meu casaquinho Zara por cima do meu pijama, tomando  meu chá com açúcar, pensei: estamos presos.</p>
<p>Tem dia em que estamos amargos, em que nem banhos nem chás melhoram as coisas para a gente, e ali, no sofá, eu só consegui pensar isto: estamos presos.</p>
<p>Estamos presos e qualquer coisa que façamos para tentar nos libertar só vai servir para, no máximo, deixar nossa consciência mais leve. Não vai mudar o modo como as coisas funcionam porque não é assim que se muda o modo como as coisas funcionam. Eu não sei como se muda o modo como as coisas funcionam. Mas algo me diz que não é parando de adoçar nossos cafés que transformamos a história.</p>
<p>E não me venha falar em revolução socialista. É tarde demais para acreditar em revolução socialista. Eu nem sei se acredito mais em revolução, qualquer uma que seja. Eu queria acreditar em um capitalismo menos selvagem, mas não sei como e se isso seria viável. Talvez se tivesse menos gente no mundo. Menos gente no mundo, menos consumo, menos emprego, menos lixo. Talvez, um dia, a população encolha, talvez voltemos a produzir nossas roupas e trocá-las por comida em feiras de comércio, talvez voltemos a ser índios, talvez a história retroceda.</p>
<p>Retroceder para avançar: será? Não acredito nessa ideia. Eu queria acreditar, para acreditar em alguma saída, mas não acredito. Minha sensação continua a de depois do jantar: estamos presos.</p>
<p>Mas então não vou fazer nada? E, no fim do ano, vou lá conferir a liquidação da Zara?</p>
<p>É por isso que, cada vez mais, acho que não é que os jovens de hoje estejam desinteressados pela política. Dizem muito isto dos jovens de hoje: são desinteressados pela política. Mas talvez não seja desinteresse, mas uma forte sensação de impotência.</p>
<p>Se me sinto impotente, continuo usando meu casaco da Zara e ouvindo minhas músicas no iPod, fechado para o mundo lá fora, esse mundo que me parece nublado, confuso e insolúvel.</p>
<p>Adoçando minhas bebidas, consumindo o que puder não para me sentir feliz, mas para aplacar minha angústia. Angústia pela minha impotência, minha e de todos os consumidores.</p>
<p>Termino a crônica sem uma conclusão – como essa questão termina para mim no final do dia.</p>
<p>UPDATE 19/08: acordei mais otimista, pensando que, se a solução para as condições trabalhistas desumanas não passa pelo tal do &#8220;consumo consciente&#8221;, passa pela política e pelo judiciário. Embora essa forte sensação de impotência e de que o mundo anda tão complicado desmotive tantos a se engajar na política, inclusive eu, acredito que seja por aí.</p>
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		<title>Não quero confusão</title>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2011 19:14:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[casamento; fidelidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava casado havia quase uma década. Sempre tinha sido fiel. A mulher sabia que ele sempre tinha sido fiel. Num mundo louco como este, em que as pessoas não dão valor a nada, encontrei um homem de princípios, ela gostava de pensar. Um homem íntegro. De valores sólidos. Moral bem constituída. Ciumenta no início, Isabel [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/04/the-good-husband-guide-capa.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-333" title="the-good-husband-guide-capa" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/04/the-good-husband-guide-capa-255x300.jpg" alt="" width="255" height="300" /></a>Estava casado havia quase uma década. Sempre tinha sido fiel.</p>
<p>A mulher sabia que ele sempre tinha sido fiel. Num mundo louco como este, em que as pessoas não dão valor a nada, encontrei um homem de princípios, ela gostava de pensar. Um homem íntegro. De valores sólidos. Moral bem constituída.</p>
<p>Ciumenta no início, Isabel foi ficando cada vez mais tranqüila com o passar dos anos. Tranquilidade: era isso que o marido passava. E que ela fazia questão de comentar com as amigas, com a mãe, com a sogra, geralmente acrescentando a frase:</p>
<p>– Fabiano é o melhor marido do mundo.</p>
<p>Ou:</p>
<p>– Aqui em casa, não posso reclamar de nada.</p>
<p>Certa vez, num almoço com as amigas, o tema apareceu. Fidelidade: esse tema costuma aparecer. Uma das amigas estava inconsolável. Depois de anos de união, descobriu que o marido, executivo, tinha um caso com a secretária. Ameaçou deixá-lo. Não precisou: ele a deixou primeiro.</p>
<p>Isabel sentiu pena da amiga, mas seus olhos brilharam. Fabiano nunca faria isso. Afinal, Fabiano era um cara que dava valor à família. Que sabia que trair era errado. Que jamais seria capaz de uma coisa dessas.</p>
<p>É importante frisar que Fabiano nunca havia discursado sobre o valor da família. Ou sobre o erro que é trair. Ou sobre ser capaz de uma coisa dessas. Fabiano apenas era fiel. E é aí que reside o problema.</p>
<p>Um dia, depois do expediente, Fabiano recebeu em casa alguns colegas do trabalho. Isabel se juntou a eles. Todos conversavam animadamente, até que um colega, querendo ser simpático, disse:</p>
<p>– Seu marido é um santo. Todo mundo é louco pela estagiária, mas seu marido nem vê a moça passar.</p>
<p>Como sempre ocorria nessas horas, os olhos de Isabel brilharam. E então veio o fatídico comentário de Fabiano, que assentiu com a cabeça, sorriu e disse:</p>
<p>– Não quero confusão aqui em casa.</p>
<p>Isabel franziu as sobrancelhas. Não quero confusão aqui em casa: era esse o fundamento da sólida base moral do marido?</p>
<p>Claro que não, pensou ela. Aquele era apenas um bate-papo com os colegas de trabalho. Estavam em casa, mas a conversa era de bar. Fabiano veio com essa porque o contexto não era de reflexões demoradas. É claro que ele já havia se dedicado a pensar sobre fidelidade. É óbvio que sua postura fiel era resultado de uma longa reflexão. Longa reflexão que deu a ele as seguintes certezas: era preciso dar valor à família. Trair era errado. E ele jamais seria capaz de uma coisa dessas. Certo?</p>
<p>– Não quero confusão aqui em casa – Fabiano repetiu, quando os colegas foram embora e Isabel perguntou por que ele era fiel havia quase dez anos.</p>
<p>– Já entendi essa parte. Mas a questão é: o que o leva a não querer confusão aqui em casa?</p>
<p>Agora quem franziu as sobrancelhas foi ele.</p>
<p>– Está tudo sossegado aqui em casa, ué. Para que vou arrumar problema?</p>
<p>Ela já ia discutir, mas acabou suspirando e deixando para lá. No fim das contas, pensou, talvez fosse melhor mesmo não arrumar confusão em casa.</p>
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		<title>Bandeiras serenas, chocolates quentes</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jan 2011 23:51:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexões]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Pai]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando eu era criança, meu pai costumava fazer chocolate quente para mim. Não era leite com Nescau: era uma receita elaborada, com ingredientes secretos que ele nunca revelava. E não era um momento trivial: “a hora do chocolate quente” era um evento que ocorria duas ou três vezes por mês, em noites frias ou nem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/01/coffee-women5.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-329" title="coffee-women5" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2011/01/coffee-women5.jpg" alt="" width="202" height="202" /></a>Quando eu era criança, meu pai costumava fazer chocolate quente para mim. Não era leite com Nescau: era uma receita elaborada, com ingredientes secretos que ele nunca revelava. E não era um momento trivial: “a hora do chocolate quente” era um evento que ocorria duas ou três vezes por mês, em noites frias ou nem tanto. Enquanto eu esperava na sala, meu pai sumia para a cozinha por um tempo que me parecia infinito. Meia hora depois, eu ainda o ouvia mexendo a panela. A essa altura, o apartamento todo já cheirava a chocolate. Ainda me lembro da minha alegria quando ele voltava com aquela xícara que parecia ter uma barra de chocolate derretido dentro – a consistência era de uma fondue, mas o sabor era ainda melhor: era o melhor sabor do mundo.</p>
<p>Fui crescendo e meu pai continuou com seu chocolate quente e outros mimos alimentares. Eu já era adulta e já tinha inclusive saído de casa quando ele me recebia com pães de queijo assando no forno, chá, caixas de bombons compradas especialmente para mim. “Quer que eu abra um coco geladinho? Quer que eu prepare um café?”, ele perguntava.</p>
<p>Quantas vezes eu estava no meu quarto, lendo, e meu pai batia na porta para me perguntar se eu não queria que ele me preparasse um chá – além de ajeitar meu travesseiro, de se certificar de que havia luz suficiente para eu ler, de, ao ver meus pés sem meias, pegar um cobertor e cobri-los. Ano retrasado, quando dormi por alguns dias no apartamento dele, ele deixou a mesa posta com o café da manhã todos os dias antes de sair. Sempre com as coisas de que eu gostava.</p>
<p>E tinha um detalhe. Eu nunca lavava louça. Meus pais se separaram quando eu era criança; a diarista ia à casa dele duas vezes por semana. Quando ela não estava, ele lavava cada xícara que eu usava, assim como sempre arrumava minha cama.</p>
<p>Pois bem. Mês passado, meu pai veio passar uns dias aqui em casa. Espero que ele não tenha lavado nenhuma xícara também. Se lavou, não notei. Acabamos comendo fora muitas vezes, mas fiz alguns almoços e jantares simples. Ou eu cozinhava, ou, digamos, decidia conceitualmente a comida – “hoje vamos pedir uma pizza”. Também me preocupei com o bem-estar do meu hóspede: se a toalha dele estava limpinha, se eu tinha pedido para a diarista comprar as frutas de que ele gosta, essas coisas.</p>
<p>Ocorre que, um dia, uma amiga me ligou quando eu estava cozinhando. Meu pai e meu marido estavam animadamente assistindo a um filme na sala enquanto eu me desdobrava com os camarões, as batatas, o suco de laranja – hábito trabalhoso esse meu de tomar suco feito na hora. Expliquei para minha amiga a situação, dizendo que ligava para ela depois. Ela disse: “Que graça, os dois homens tranqüilos na sala e você se matando aí sozinha. Isso porque vocês três trabalham. Ô mundo machista!”</p>
<p>Lembrei do dia em que essa mesma amiga veio aqui em casa e presenciou meu marido me pedindo para fazer um café.</p>
<p>Que eu me lembre, nós dois nunca fizemos nenhum acordo para dividir as tarefas da casa, mas, desde que nos casamos, eu cozinho e ele lava. Então, acabou que passei a ser a responsável pelos chocolates quentes e tudo mais. Almoço em casa quase todo dia. Às vezes, cozinho só para mim; às vezes ele almoça comigo e cozinho para nós dois. Não importa: à noite, quando chega do trabalho, ele deixa tudo limpinho e eu – eba! – continuo sem lavar uma xícara.</p>
<p>Assim, é bem comum ele me pedir um café. Quase sempre faço. Quando minha amiga estava aqui, ele passou pela gente e veio com o seu rotineiro “hmm, você podia fazer um café, hein?” Eu a chamei para a cozinha e lá fomos nós. E, enquanto a água fervia, tive que ouvir: “Não conhecia esse lado folgado do Marcos, pedir para você fazer café. Por que ele não vem e faz?”</p>
<p>Ai, ai.</p>
<p>Acho estranho quando vejo mulheres que não são feministas. Se feminismo for entendido como o interesse pelos direitos das mulheres, qual de nós não quer levantar essa bandeira, e com muito orgulho? E, se os homens que nos amam também não levantam, como eles podem nos amar?</p>
<p>Mas o problema de levantar bandeiras é justamente este: quando ela fica pesada demais para carregar. Aí, em nome dos ideais, a gente acaba ficando neurótico. Estressado. Sem paz. Ah, sim, e o peso das bandeiras pede que sejam levadas com pressa – porque me parece que tirar conclusões apressadas e julgar a partir de poucas informações é típico de quem as carrega&#8230;</p>
<p>Fico me perguntando se não podemos levantar nossas bandeiras com mais serenidade. Se posso ficar tranqüila não só quando meu marido, esse homem sempre tão atencioso comigo, me leva um cobertor quando estou lendo, mas também quando sou eu quem leva um cobertor para ele.</p>
<p>Sem patrulhas, nem dos nossos amigos, nem da nossa consciência. Sem pensar muito sobre isso, simplesmente.</p>
<p>Com a sensação não de quem carrega uma bandeira pesada, mas de quem tem nas mãos uma bela xícara de chocolate quente.</p>
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		<title>O salmão, os defeitos do nosso ex e os povos africanos</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Dec 2010 12:24:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[mudança]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>

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		<description><![CDATA[– Salmão está ótimo! – Beth ouviu a filha falando pelo celular. Ela arregalou os olhos. Letícia jantaria na casa do pai naquele sábado. Mas desde quando Jorge comia salmão? – Seu pai nunca gostou de salmão na vida – Beth disse, assim que Letícia desligou o telefone. Olhar de quem sabe das coisas. – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/12/we-need-to-talk.gif"><img class="alignleft size-medium wp-image-321" title="we-need-to-talk" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/12/we-need-to-talk-300x202.gif" alt="" width="300" height="202" /></a>– Salmão está ótimo! – Beth ouviu a filha falando pelo celular.</p>
<p>Ela arregalou os olhos. Letícia jantaria na casa do pai naquele sábado. Mas desde quando Jorge comia salmão?</p>
<p>– Seu pai nunca gostou de salmão na vida – Beth disse, assim que Letícia desligou o telefone. Olhar de quem sabe das coisas. – Aliás, de peixe nenhum. Sempre torcia o nariz quando eu fazia peixe.</p>
<p>Agora foi Letícia que arregalou os olhos. O pai não havia feito uma moqueca no fim de semana anterior?</p>
<p>– Ué, papai adora peixe.<br />
– Rá! Como se eu não conhecesse seu pai!<br />
– Mas é verdade! Ele até comprou uma grelha especial para assar os peixes que traz da pescaria.<br />
– Pescar? <em>Seu pai</em>?!</p>
<p>Vamos esclarecer os fatos: Jorge começou a comer peixe com certa frequência em 1998. Mas o divórcio foi em 1994. Beth registrou na memória: Jorge não come peixe.</p>
<p>E nada a convence do contrário.</p>
<p>Mania estranha essa das pessoas congelarem as manias das outras pessoas. Outro dia, conversando com uma velha amiga sobre o assunto qualquer, dei minha opinião. Ela se espantou:</p>
<p>– Como assim? Naquele jantar em 2007, você tinha dito o oposto!<br />
– Pois é&#8230; em 2007.</p>
<p>Não adianta: as pessoas podem passar os anos tendo aula de francês, aprendendo a fazer sushi, acampando, substituindo a coleção de latas por moedas antigas&#8230; e continuarem achando que, enquanto elas estavam fazendo tudo isso, os outros estavam parados, sempre na mesma – exatamente como da última vez que se encontraram.</p>
<p>Não são só os hábitos mais superficiais dos outros que a gente costuma congelar: aquelas características profundamente arraigadas na psique do ser humano nunca se alteram. Jamais. Pelo menos, para o ex-namorado desse ser humano.</p>
<p>– A Joana casou? E teve filho?? E se mudou de cidade para ficar mais perto dos pais???</p>
<p>Isso foi há umas duas semanas. Eu estava almoçando com um amigo quando ele recebeu novidades da Joana pelo celular, por uma amiga em comum. Joana é uma ex que quebrou o coração dele. Egoísta, imatura, era solteira convicta, não parava em nenhum relacionamento, traía todo mundo e não levava nada a sério – na versão do meu amigo. Isso, claro, quando eles namoraram – coisa de sete, oito anos atrás.</p>
<p>– Ela pode ter mudado – argumentei.<br />
– Mudado! Típico de você falar isso!</p>
<p>O que eu acho mais interessante é que, quando uma pessoa A deu um fora em uma pessoa B, mas um fora bem terrível, cruel, desses que não arrancaram o sangue da pessoa B, mas que com certeza roubaram alguns quilos dela&#8230; Não adianta: a pessoa A sempre vai achar que a B, no fundo, ainda paga pau para ela. Sempre.</p>
<p>Aquela que levou o fora já recuperou os quilos perdidos e ganhou outros, já protagonizou vários foras e inclusive está casada, com três filhos e morando em Nice. Mas, se o ex malvado aparecer no seu caminho&#8230; Ah, aquele ser que outrora se desmanchou em lágrimas iria se desestabilizar no ato. Ô se iria! Pelo menos, na cabeça do ex-malvado.</p>
<p>Aliás, ultimamente, esse ex-malvado pode estar um doce, vai saber. Isso, quando é ex de outra pessoa, né. Os meus ex não mudam.</p>
<p>De qualquer forma, não são só casais desfeitos que congelam o jeito de ser/de vestir/de comer/de cruzar as pernas do ex. Casais que estão juntos fazem isso. Pode reparar. Quando você conheceu seu marido, ele tinha uma amiga chamada Carla e gostava de jogar futebol com o pessoal às quartas-feiras. Você levava tudo na boa. Ocorre que, depois de algum tempo, ele passou a ter uma amiga chamada Marcela e começou a jogar squash às quintas. Pânico! Discussão! Afinal, quem ele pensa que é para&#8230; espera&#8230; quem ele <em>é</em> mesmo?</p>
<p>Por isso, fazer novos amigos costuma ser uma tarefa complexa depois que você está com alguém. Porque é fácil a pessoa aceitar a turma que você já tinha quando vocês se conheceram. Mas como explicar que a vida continua e que, bem, você conhece novas pessoas? Apresentar um novo amigo do sexo oposto, então, é pedir para ser expulso de casa. “Como assim, agora você me fala desse Ígor que conheceu no MBA? Quem esse cara pensa que é? Ele não sabe que você é <em>casada</em>?”</p>
<p>Sugestão amiga: quando começar a sair com alguém, faça um inventário de todos os amigos que você tem e invente alguns nomes para colocar no meio. Mostre a lista para a pessoa amada. Se possível, peça que ela assine. Apareceu uma pessoa nova na sua vida? Mostre a lista: “Você não entendeu, nós nos reencontramos no MBA, a gente já se conhecia”.</p>
<p>Ok, esqueça essa lista idiota. Mais prático levantar suspeitas de que esse Ígor que você conheceu é meio gay. Quase sempre acalma os ânimos.</p>
<p>Só mais uma coisa: li <em>Comer, Rezar, Amar </em>e gostei muito, como disse no post anterior. Mas me lembrei agora da autora falando sobre os balineses.</p>
<p>Ela estava encantada com a Indonésia, e, ao descrever o estilo de vida dos balineses, usou uma maneira bem estática, com frases do tipo: “os balineses gostam de isso”, “os balineses odeiam isso”, “se você for a Bali, lembre-se de que um balinês nunca faria isso ou isso”.</p>
<p>Me lembrou um pouco aqueles livros de antropologia antigos, como os clássicos <em>Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande</em>, do Evans-Pritchard, ou <em>A Vida Sexual dos Selvagens</em>, do Malinowski. Os azande são assim e assado. Os selvagens nunca, jamais, de jeito nenhum fariam uma coisa dessas.</p>
<p>Vai ver é isso. Vai ver Nova York e Londres estão num processo de mudança contínua, que vai do comportamento das pessoas à moda, passando pelo clima e pela comida, enquanto os balineses e os azande estão lá, parados no tempo. Na mesma bolha em que estão presos nossos ex, nossos amigos de infância, o síndico do prédio em que a gente morava, o político que falou aquela bobagem, o blogueiro que postou aquele absurdo, o sociólogo que pisou na bola naquela entrevista.</p>
<p>Esses continuam pensando e fazendo as mesmas besteiras de sempre, enquanto a gente está aqui, indo para o alto e avante.</p>
<p>Ou vai ver todos nós, eu e você, somos prepotentes ao extremo&#8230; Quer dizer, só você. Eu, não.</p>
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		<item>
		<title>Sobre Comer, Rezar, Amar, Ilusões Perdidas e críticas literárias</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Nov 2010 15:11:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Comer rezar Amar]]></category>
		<category><![CDATA[Ilusões Perdidas]]></category>

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		<description><![CDATA[Este ano, dei muita sorte com minhas leituras. Não posso dizer o mesmo em relação a filmes, mas não faltaram livros que me encantaram. Por isso, resolvi escrever aqui sobre alguns deles. Na verdade, é um pouco mais pretensioso que isso: quando reformulei o blog, pensei em começar a fazer algumas críticas literárias aqui, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Índice.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-314" title="Índice" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/11/Índice.jpg" alt="" width="139" height="200" /></a><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/11/ilusões-perdidas.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-316" title="ilusões perdidas" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/11/ilusões-perdidas.jpg" alt="" width="116" height="180" /></a>Este ano, dei muita sorte com minhas leituras. Não posso dizer o mesmo em relação a filmes, mas não faltaram livros que me encantaram. Por isso, resolvi escrever aqui sobre alguns deles. Na verdade, é um pouco mais pretensioso que isso: quando reformulei o blog, pensei em começar a fazer algumas críticas literárias aqui, e confesso que, no início do ano, me aventurei a escrever umas três.  Ficaram péssimas. Mas, agora, lá fui eu tentar de novo. E deu errado de novo. E desisti. E concluí: eu simplesmente não sei/não posso/não consigo escrever crítica literária.</p>
<p>Vamos aos fatos. Adoro ler, tenho essa vontade de escrever sobre o que leio,  ok. Mas, quando parei para pensar sobre quais dos meus livros preferidos deste ano eu escreveria,  pensei em <em>Ilusões Perdidas</em>, do Balzac. Comprei logo depois do réveillon e me marcou muito. Eu teria que escrever sobre ele. Mas espere. Não poderia faltar na minha lista <em>Comer, Rezar, Amar</em>, da Elisabeth Gilbert, que li em outubro e adorei. E agora? Enquanto o primeiro é considerado um clássico da literatura universal, o outro seria um mero <em>best seller</em> mulherzinha que virou filme protagonizado pela Julia Roberts (não assisti).</p>
<p>Como alguém pode fazer uma lista que inclui <em>Ilusões</em> e <em>Comer etc</em>? Como eu posso ter adorado dois livros tão diferentes? Qual é, afinal, meu <em>problema </em>como leitora?</p>
<p>Fiquei pensando. Como leitora, sinceramente, não vejo problema em gostar de coisas tão diferentes. Cada vez mais, a ideia de ser aberta a todo tipo de livro me agrada. Mas, como crítica, eu teria todos os problemas. Aliás, se eu fosse crítica literária, provavelmente seria demitida depois de juntar <em>Ilusões </em>e <em>Comer etc</em> no mesmo texto.</p>
<p>Vamos lá. Eu adoro ler, mas não sei quase nada sobre teoria da crítica literária e, sinceramente, nunca consegui entender o que diabos é “formalismo russo”. Só sei basicamente que uma crítica literária pode ser feita de várias maneiras. Ultimamente, tenho lido alguma coisa do Jonathan Culler, que, mais do que o texto em si, analisa sua relação com quem o lê – e tenho achado isso bem interessante. Mas você pode criticar um livro a partir de sua forma. Você pode reduzir a literatura à política ou à psicanálise, se quiser. Você pode partir do pressuposto de que todo livro que vende pouco é bom e todo livro que vende muito é ruim, ou não ter critérios numéricos. Você pode fazer a chamada crítica genética, que analisa a gênese de um livro (daí o nome). Você pode juntar elementos de várias escolas, assim como pode ser relativista a ponto de dizer que um romance é objeto de infinitas leituras e que nenhuma delas é melhor do que a outra.</p>
<p>Bem, tenho o costume de ler as críticas, dessas que saem no jornal, e já escolhi muitos livros por meio delas, mas concluí que não conseguiria escrever nada como elas por no mínimo três motivos (além de juntar <em>Ilusões</em> e <em>Comer etc</em>). Primeiro, porque, como eu disse, não leio quase nada sobre teoria da crítica literária (que espécie de crítico picareta eu seria, né? Convenhamos). Segundo, porque, mesmo se eu estudasse a teoria, concluí que não gosto de ficar encaixando o que leio em nenhuma escola/abordagem/período histórico. Meu pai, que é professor de literatura, ama fazer isso. O fato é que gosto ou não gosto de um livro, sabe. A partir daí, posso até tentar me justificar, mas gosto ou não gosto. Terceiro, e talvez mais importante, porque me envolvo demais com os livros que leio e não consigo e nem quero tentar me distanciar deles para escrever uma crítica.</p>
<p>Eu sou capaz de grifar as frases que me fazem tremer num livro, de tão bem escritas, como acabei de fazer com <em>Valsa Negra</em>, da Patrícia Melo (que terminei de ler ontem e adorei). Tenho o hábito de anotar num caderno observações sobre o foco narrativo, passagens de tempo, descrição dos personagens, formas como os diálogos aparecem etc – e, MESMO assim, não me pergunte como, entro na história, torço, sinto raiva, rio, choro, fico ansiosa etc. Acho que, se eu escrevesse críticas, seriam sempre críticas afetivas, digamos (e com uma base teórica pobre, hehe). Só não sei se isso existe e até que ponto é possível, mas enfim, seria algo desse tipo!</p>
<p>Em todo caso, por melhor que seja uma crítica literária, é bom lembrar que ela nunca substitui a experiência do leitor. Tive um professor na faculdade que dizia isso. Ele assinava embaixo de tudo o que Adorno falava sobre a tal da “alta cultura”, mas era simpático o suficiente para dizer isso. Então, acabei percebendo que, se não posso escrever críticas literárias, posso, ao menos, escrever sobre minha experiência com os livros que leio – porque isso, todo leitor pode, né.</p>
<p>Em suma, desencanei das minhas tentativas de crítica literária, decidi tentar escrever <em>resenhas opinativas</em> e olhe lá.</p>
<p>Aliás, sobre resenhas: acho bem melhor uma boa resenha do que uma crítica ruim.</p>
<p>Parágrafo sobre críticas ruins: crítica ruim, para mim, é a crítica pretensiosa. O filósofo norueguês Jon (assim mesmo, sem <em>h</em>) Elster diz, no seu livro <em>Explaining Social Behavior</em>, que, nas ciências sociais, não há nenhuma lei como a gravitacional. Também acho que não há nada como a lei gravitacional na crítica literária. Você pode fazer afirmações técnicas sobre um livro, dizendo que ele tem muitas descrições ou mesmo que a narrativa flui rapidamente ou que há muitos clichês ou que o livro pertence à escola tal ou que junta elementos dos períodos tais ou que foi influenciado pelo autor tal ou sei lá mais o quê. Beleza. Mas não tenho paciência com aqueles críticos de cinema (estou me lembrando de alguns críticos de cinema, agora) que, levando seu gosto pessoal mais em conta do que qualquer conhecimento técnico, escrevem frases como “esse filme é uma lástima”. Como se a opinião dele fosse uma verdade absoluta. Sei lá. Para mim, isso nem é bem uma crítica de cinema. Meus amigos dizem que os filmes que viram são uma lástima, não preciso de um crítico ter estudado para me dizer isso.</p>
<p>Talvez por isso mesmo tantos autores defendam a crítica literária menos como crítica e mais como <em>interpretação</em>. Não é que toda interpretação de uma obra seja possível (não é, vai), mas é que uma obra possibilita mais de uma interpretação que faça sentido, que encontre eco no texto.</p>
<p>Bom, a crítica literária varia de acordo com muitos elementos, incluindo o país, o período histórico e o mau humor do crítico. Parece que Shakespeare ficou por dois séculos encostado pela crítica, até ressurgir aclamado pelos românticos, só para dar um exemplo da relação crítica/período histórico. Mas é chato quando um desses elementos é o preconceito. Eu particularmente detesto quando vejo que um crítico tem preconceito com o gênero a que um livro pertence em vez de lê-lo e criticá-lo como o livro único que ele é. Para mim, essa pressa/essa necessidade de encaixar um romance em um estilo ou um gênero e não prestar atenção nas singularidades dele prejudica as críticas. Muitos críticos também têm uma grande resistência em relação à literatura que está sendo feita no seu tempo. Isso é tão comum. Em última análise, respeitam as crises de Madame Bovary enquanto acham que as de Bridget Jones não passam de futilidades.</p>
<p>Eu gosto das duas personagens, embora seja particularmente fã de Madame Bovary. E embora concorde que Bridget se preocupa muito com futilidades (nada comparado à Becky Bloom). Mas e daí? Quem disse que personagem tem que ter essa, digamos, missão moral de mostrar como as pessoas devem ser? Personagens fúteis podem ser interessantes, assim como ladrões, matadores de aluguel etc. De qualquer forma, acho que os livros de Flaubert e Helen Fielding têm estilos bem distintos, mas que tanto Emma Bovary como Bridget Jones são personagens ricas, palpáveis, cheias de vida, excelentes representantes de muitas mulheres de seu tempo.</p>
<p>É, eu daria uma crítica literária bem louca.</p>
<p>Enfim, fiquei pensando. Crítica boa, para mim, é, para começo de conversa, <em>ponderada – </em>as destruidoras e categóricas são geralmente limitadas e preconceituosas. Críticas que apontam onde o ritmo do livro pecou, onde há clichês demasiados, quais são os pontos fortes, o que fica de tudo isso – dessas, eu gosto. Aprendo com elas e tal. Aliás, gosto de vários críticos, aqui do Brasil e de fora. Geralmente daqueles que, além de serem ponderados em suas análises, mais mergulham na leitura de um livro do que tentam a todo custo rotulá-lo e compará-lo, evitam conclusões apressadas, respeitam gêneros e estilos diferentes (os gringos costumam fazer mais isso, acho), comentam trechos do livro (adoro, haha!), sabem do que estão falando. E amam ler.</p>
<p><em>Ilusões Perdidas e Comer Rezar Amar<br />
</em><br />
Bom, acabou que o assunto do post virou crítica literária e não os livros sobre os quais eu pretendia falar. De qualquer modo, só para não passar em branco, aí vai uma pequena resenha opinativa sobre eles, caso você esteja aceitando sugestões para o seu próximo livro. E sim, vou tentar juntar os dois, ok?</p>
<p><em>Ilusões</em> e <em>Comer etc</em> são dois livros que recomendo fortemente. Recomendo porque um bom romance é muito mais do que um bom enredo, mas, para mim, um bom romance, acima de tudo, tem que saber contar bem uma história. Ele pode fazer críticas sociais, pode não fazer crítica nenhuma, pode ser sério, pode ser bem-humorado, pode ter um ritmo lento, pode ser objetivo, pode ser leve e despretensioso ou nos ajudar a, digamos, ampliar nossa experiência de vida, com metáforas geniais, comparações originais, descrições bem feitas, reflexões densas. Mas nada disso importa, para mim, se um romance não conta bem uma história. E esses dois livros contam muitíssimo bem suas histórias.</p>
<p><em>Comer etc</em>, na verdade, não é bem um romance, mas o relato de uma jornalista que viaja por três países, escrito de maneira deliciosa. É uma pena que a gente costume dar tanto peso à divisão dos gêneros na sociedade e considere esse um livro feminino, porque conheço homens que se identificariam muito com a autora/narradora. Elisabeth nunca teve problemas financeiros, mas teve depressão. Não perdeu a família num bombardeio, mas sofreu muito com o divórcio. E, como muitos de nós, está cansada de pensar demais – ela gostaria de aproveitar melhor a vida, sentir-se menos angustiada e sofrer menos com o que considera, no fundo, bobagens.</p>
<p>Se <em>Comer etc </em>tem um estilo narrativo bem ágil, o ritmo de<em> Ilusões Perdidas</em> pode desanimar muitos leitores de 2010. Os romances de hoje costumam começar já começando, enquanto <em>Ilusões, </em>com suas mais de setecentas páginas,<em> </em>começa falando da vida do pai de um personagem, para depois ir para esse personagem, para depois, finalmente, falar do protagonista Lucien e de sua viagem à Paris. Se fosse escrito hoje, acho que <em>Ilusões</em> começaria mais ou menos assim: “Não acredito que estou aqui – pensou Lucien, andando pelo Boulevard Saint-Michel”.</p>
<p>Ok, foi uma piada.</p>
<p>Mas devo dizer que uma das coisas que mais me marcaram nesse livro foram as críticas violentas não só ao jornalismo, mas à vaidade das pessoas e aos hábitos – e afetações – da alta sociedade, com seus códigos de etiqueta, sua “opressiva polidez”, sua preocupação com as aparências.</p>
<p>Lucien, cada vez mais ansioso para ser reconhecido e admirado, vai sendo corroído pela própria vaidade e ambição – e corroendo também a vida do amigo, que, com seus empréstimos, se complica cada vez mais. E ninguém melhor do que Balzac para nos oferecer um contato profundo com a experiência de Lucien. Porque, lendo <em>Ilusões</em>, me senti sendo uma câmera que filma o cotidiano dele em Paris, andando por ruas iluminadas, participando de diálogos barulhentos, tendo sua inocência arranhada por cada frustração.</p>
<p><em>Comer etc</em> e <em>Ilusões </em>são dois livros que enlouquecem pessoas que, como eu, lêem com uma caneta na mão. Porque não faltam frases e parágrafos inteiros que pedem para ser grifados. <em>Comer</em> é repleto de boas piadas e sacadas inteligentes. Posso eleger um parágrafo? O segundo da página 57, quando a narradora/autora cogita diferentes origens para suas confusões. Tão típico da nossa época. E <em>Ilusões</em> é repleto de&#8230; bem, de Balzac. O que significa ler definições brilhantes como “A inveja, esse horrível tesouro de nossas esperanças iludidas, de nossos talentos abortados, de nossos sucessos não confirmados, de nossas pretensões feridas.”</p>
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		<title>Ela e as justificativas dela</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Sep 2010 19:29:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lili</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[filhos]]></category>
		<category><![CDATA[justificativas]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela não queria ter filhos. Nunca quis ter. Nas duas vezes em que casou, deixou claro ao marido que não pretendia engravidar. Ela usava esse verbo, pretender, mas era só para não se mostrar muito inflexível. Porque não é que ela não pretendia: ela não teria filhos. Simples assim. Quer dizer, não tão simples. Porque [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/09/dúvida.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-311" title="dúvida" src="http://www.lilianeprata.com.br/wp-content/uploads/2010/09/dúvida-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>Ela não queria ter filhos. Nunca quis ter.</p>
<p>Nas duas vezes em que casou, deixou claro ao marido que não pretendia engravidar. Ela usava esse verbo, <em>pretender</em>, mas era só para não se mostrar muito inflexível. Porque não é que ela não pretendia: ela não teria filhos. Simples assim.</p>
<p>Quer dizer, não tão simples. Porque alguém espalhou que, quando você casa, você tem filhos, e, se você não quiser ter filhos, que ao menos se dê ao trabalho de apresentar ao mundo uma boa justificativa. É aí que entra o problema. Ninguém aceitava as justificativas dela.</p>
<p>Ela se separou do primeiro marido por motivos que não tinham nada a ver com essa questão e, depois de alguns anos, casou-se novamente. Pois bem. No início, o marido não a cobrava sobre ter filhos, mas a sogra, sim. A sogra sempre perguntava:</p>
<p>– Por que não?<br />
– Porque gostamos muito de viajar – essa era a justificativa que ela costumava dar, em determinada época, para os outros e para si mesma. – Só este ano, viajamos cinco vezes, duas para o exterior.</p>
<p>E então a sogra vinha com uma lista de casais que tinham filhos e que tinham viajado seis, sete, dez vezes este ano, cinco para o exterior. Você pode levar a babá, você pode ir só com meu filho e deixar o bebê comigo, eu posso viajar com vocês para ajudar, etc, etc, etc – as opções eram infindáveis.</p>
<p>– Na verdade, não é só porque gostamos de viajar – ela disse, certa vez, agora para sua mãe. – Preciso admitir que eu não gosto muito de criança, simplesmente.</p>
<p>E a mãe falava: o pai dela não gostava de criança e sempre tinha sido um ótimo pai, a Teresa, vizinha, não tinha a menor paciência com crianças e hoje era a mãe mais zelosa e paciente do mundo, etc, etc, etc.</p>
<p>– Acho que o mundo não precisa de mais gente – ela disse, certa vez, para o marido, que sempre dispensava as sacolinhas de plástico do supermercado e procurava substituir o carro pela bicicleta quando podia.<br />
– Também acho. Por isso andei pensando: podíamos adotar uma criança. É uma oportunidade, aliás, de ajudar o mundo, e&#8230;<br />
– Não!</p>
<p>Ela foi ficando cada vez mais aflita. Estava sendo encurralada e precisava descobrir a real justificativa de por que não queria ter filhos. E rápido! A questão só foi resolvida no dia em que uma amiga apareceu na casa dela para devolver um livro. Explico.</p>
<p>Quando a amiga entrou em casa, ela perguntou o que havia achado do livro.</p>
<p>– Não gostei.<br />
– Não gostou? Mas por quê?</p>
<p>A amiga suspirou.</p>
<p>– Não sei&#8230; Não gostei, não sei por quê. Ou eu gosto dos livros ou não gosto. Posso tentar descobrir por que não gostei, mas o fato é que não gostei.</p>
<p>Ela ficou parada, observando aqueles olhinhos cheios de sabedoria à sua frente – apesar de a amiga não ter gostado de <em>A Insustentável Leveza do Ser</em> e, francamente, quem não gosta de <em>A Insustentável Leveza do Ser</em>?</p>
<p>– Bom – a amiga disse. – Acho que a história demora muito para começar. Quer dizer, tem outros livros com histórias que custam a começar e que eu gostei&#8230; Na verdade, acho que é só porque não fui com a cara do protagonista. Se bem que não fui com a cara do protagonista naquele livro que&#8230;<br />
– Espera. Você não sabe por que não gostou, é isso?<br />
– Não&#8230; Só não gostei, e agora estou tentando descobrir por quê.<br />
– Não descubra, Maria Alice! Por favor, não descubra. Deixe o livro aí em cima da mesa e vamos para a cozinha. Me diga uma coisa, e seu filhinho com o Pedro, quando vem?<br />
– Espero que logo. Sou doida para ser mãe, você sabe! Sempre fui.<br />
– Que legal&#8230; Eu sempre fui doida para paparicar filho de amiga minha!</p>
<p>E ela foi passar um café.</p>
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