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Aquela rua

Eu devia ter uns oito anos quando meu pai se mudou para aquela rua.

Não seria por muito tempo. A ideia era passar alguns meses naquele antigo sobrado até que terminasse a reforma do apartamento novo. Então fomos eu, meu pai, meu irmão e nosso cachorrinho, um husk siberiano lindo, branco e preto, de olhos azuis, chamado Dragon – quem escolheu o nome foi meu irmão.

Naquela época, a minha futura situação no meu colégio já estava desenhada. Na verdade, estava mais para um garrancho do que para um desenho: minha popularidade na escola só caminharia de mal a pior. Eu me achava feia, esquisita e desengonçada, e, para piorar, todo mundo me achava feia, esquisita e desengonçada.

Eu me sentia um pouco mais aceita no prédio onde minha mãe morava, apesar de que lá não havia muitas crianças para me aceitarem. Eram só algumas garotas três ou quatro anos mais novas do que eu, e três ou quatro anos para uma criança são muita coisa. Aliás, meu irmão é quatro anos mais velho, o que significa que, em casa, quando eu era sua única companhia, ele brincava bastante comigo – mas, lá fora, ele tinha a turma dele. Nos prédios onde meu pai morava, nunca tinha criança. Definitivamente, metros quadrados e localização contam mais na hora de seus pais escolherem um apartamento do que a presença de crianças.

Até que meu pai se mudou para aquela rua.

Lembro direitinho do primeiro fim de semana lá. A rua era calma, só de casas. Não tinha muito carro e meu pai me deixou brincar lá fora. Dois minutos depois, chegou a primeira criança para conversar comigo. Ela tinha a minha idade. Dois minutos depois chegou outra criança, e mais outra, e mais outra. De repente, eu me via dentro de um grupo de dez, doze crianças, todas vizinhas. Meu Deus! Minha alegria era tanta que parecia que eu tinha sido transportada para uma terra longínqua. Não era uma nova rua, era um novo universo paralelo, eu tinha certeza.

Tinha a Joana, que fazia picolés para a gente vender nas casas. Tinha a Patrícia, prima dela, que tinha dois gatos. Um dia, um dos gatos sumiu e passamos o dia inteiro na rua, procurando por ele, com direito a lanterna, corda, bússola! Tinha a Ju, que sempre nos chamava para tomar café na casa dela à tardinha – como era bom sentir o cheiro do biscoito de queijo que a mãe dela fazia, e mais ainda, fazer parte daquele bando alegre de crianças que ia lá comer os biscoitos de queijo, e tomar suco de uva, e depois voltar alegre para a rua! Tinha o Daniel, que gostava de mim. Eu mal podia acreditar: tinha o Daniel, que gostava de mim! Ele era um ano mais velho, usava óculos e isso é tudo que me lembro dele, além do fato de que… Deus, ele gostava de mim, e todas as crianças daquela rua sabiam disso, e como isso me deixava feliz.

Lembro de como era bom, à noite, ficar sentada com todos aqueles amigos na calçada. Da rua, eu via as luzes dos filmes a que meu pai assistia na televisão, as luzes refletidas nas paredes do sobrado. A gente ficava vendo as luzes e conversando, até que alguém pegava uma bola, até que a gente brincava de mês e telefone sem fio, até que meu pai me chamava para dormir e, no dia seguinte, começava tudo de novo.

Mas é claro que tinha o apartamento. A reforma. O apartamento muito maior e melhor do que aquele sobrado, numa rua melhor e cheia de prédios.

Não participei da mudança. Não me despedi de ninguém. Eu estava na casa da minha mãe, quando meu pai ligou, feliz, dizendo que, no fim de semana seguinte, já estaríamos no novo apartamento.

Então, passei os finais de semana seguintes naquele apartamento gigante, lindo, é verdade, mas num prédio sem crianças. Depois, eu conheceria dois vizinhos, o Gustavo e a Carol, mas isso era depois. Naquele momento, tendo como universo o prédio do meu pai, o prédio da minha mãe e a escola, eu me sentia completamente sozinha.

Não sei por que, mas nunca pedi que meu pai me levasse de novo àquela rua. Criança tem umas coisas. Na minha cabeça, era como se fosse impossível voltar: como se eu tivesse sido arrancada da minha dimensão paralela pelos adultos, e só pudesse voltar se alguma mão mágica me levasse para lá novamente.

O fato é que só vários anos depois, quando eu já estava no último ano do colégio, é que, andando pelo bairro, indo ao supermercado, errei o caminho e fui parar sem querer naquela rua. Levei um tempo para reconhecer o sobrado – o meu sobrado, e depois o da Joana, e depois o do Daniel. Não era possível! Aquela rua, aquela dimensão mágica da minha vida, aquele mundo distante, ficava a apenas cinco quadras do apartamento reformado, onde eu ainda morava. Cinco quadras.

Por algum tempo, fiquei ali parada. Eu não era mais criança, mas, mesmo ocupada com os estudos para o vestibular, imediatamente voltei no tempo e revi com toda força os meus dias naquela rua. Cinco quadras! Eu devia ter voltado. Devia ter pedido ao meu pai, ao meu irmão, eu devia ter gritado! Devia ter contado para eles o que aquela rua representava na minha vida… Devia ter contado que tinha a Joana, os gatos da Patrícia. Tinha o Daniel, e ele gostava de mim. O que o Daniel teria pensado quando percebeu, de um dia para o outro, que eu não morava mais lá?

Mas não adiantava pensar nessas coisas. O tempo tinha passado e eu tinha uma tarde de estudos pela frente. Então, respirei fundo, fui ao supermercado e voltei para o apartamento – o tal apartamento grande e reformado num prédio sem crianças, mas e daí, agora eu já não era uma delas.

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Ela e as mudanças dela

Decidiu que estava farta de ser quem era.

Era preciso, então, escolher quem seria dali em diante. Por isso, sentou-se no sofá com uma expressão decidida, papel, caneta e um pacote de bolachas – o que não era necessário à decisão, mas, bem, as bolachas eram de chocolate e ela estava com fome.

Do que não gostava em si mesma? Do jeito estabanado de andar. Com certeza, do jeito estabanado de andar. Ah, e do hábito de chorar por qualquer coisa. Só de se lembrar disso, tinha vontade de chorar! Não gostava do nariz e da barriga, mas isso não vinha ao caso. Afinal, não era hora de frivolidades: a mudança era interna. Queria ter mais coragem, isso sim – era medrosa. Queria ter coragem, muita coragem, inclusive para fazer plástica no nariz e na barriga se tivesse vontade, por que não? Não precisava se envergonhar de seus sonhos.

Começou a anotar tudo o que gostaria de mudar quando se lembrou de seu chefe. Tomás era uma dessas pessoas que parecem ter nascido com o pacote chefe. Não falava, indagava. Não olhava, intimidava. Não conversava, cobrava. Tomás tinha cara de chefe, voz de chefe, roupa de chefe, cabelo de chefe, cheiro de chefe e nariz de batata – não há um padrão de narizes de chefes.

Estava decidido. No dia seguinte, ao chegar ao escritório, usaria sua nova personalidade para mudar sua relação com Tomás. Se ele quisesse, que a demitisse! Afinal, ela agora tinha coragem.

Mal podia esperar. Ao chegar, encontraria Tomás em sua mesa, como encontrava todos os dias. Mas não passaria por ele com a cabeça baixa. Não, não. Olharia fixamente nos olhos dele. Não murmuraria “bom-dia” com um fio de voz, como de costume: se preciso, gritaria! Não deixaria que ele a amedrontasse, em nenhum momento do dia. E aproveitaria para, no fim da tarde, pedir um aumento. Fazia tempo que queria pedir um aumento, mas não tinha coragem. Agora, depois de escrever naquele papel tudo o que queria mudar, não só tinha coragem, como um andar confiante e o hábito de não chorar por qualquer coisa.

No dia seguinte, acordou já se espreguiçando de um jeito diferente. Estava animada para desfilar com sua nova personalidade como quem estreia um lindo par de sapatos, e saiu de casa com seu novo jeito de andar. Claro, chegou ao escritório um pouco dolorida, mas que par de sapatos novos não causa dor?

Andou pelo corredor. A três metros de virar a baia e dar de cara com Tomás na mesa dele, respirou fundo. “Você vai conseguir, amiga”, disse para si mesma. Gostava de se chamar de amiga nessas horas. Com seu novo jeito de andar, deu mais um passo. Outro passo. E mais outro. Quando finalmente viu a mesa de Tomás… ele não estava lá.

Isso nunca tinha acontecido. Por alguns instantes, ela ficou de pé, imóvel, confusa. O que faria agora?  De repente, que susto! Tomás apareceu pelo outro lado, intimidando-a com o olhar.

Então, ela imediatamente abaixou a cabeça e murmurou: “Bom dia”.

E, quando o fim da tarde chegou, o pedido de aumento não veio junto.

Mas tudo bem. Depois do expediente, ela se consolaria no shopping, comprando um par de sapatos novos. Ah, e na segunda-feira, começaria uma dieta – um objetivo bem mais fácil de ser conquistado. Claro, desde que ela não tivesse que abrir mão das bolachas de chocolate.

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Saindo de férias

Aconteceu com um casal de amigos meus. Num primeiro momento, claro, fiquei estarrecida.

Estavam casados havia o que, uns dois anos. Verdade que nunca tinham sido um desses casais entediantes que se fecham em si mesmos para, anos depois, culparem um ao outro por terem se fechado em si mesmos. Mas moderninhos, moderninhos, não eram. Trinta anos atrás, certamente seriam considerados de vanguarda. Mas hoje em dia?

Natália continuava indo a festas com as amigas, Breno continuava jogando futebol com os caras. Às vezes, os dois jantavam com uma ex-namorada dele, o que, no fundo, consideravam muito civilizado, muito contemporâneo. Dividiam todas as tarefas domésticas, ela viajava sozinha quando ele preferia passar os feriados em casa. Enfim, não podiam ser considerados antiquados, concordo, mas não faziam nada de muito inovador. De maneira geral, formavam um casal convencional, dentro das convenções dos novos tempos, mas convencional.

Mas, aí, Breno veio com aquela ideia.

Sei lá de onde ele tirou aquilo. Só sei que Natália apareceu lá em casa descontrolada, chorando. “Está tudo acabado!”, “Como ele me propõe uma coisa dessas” e por aí foi. Imaginei uma traição, claro. Na minha cabeça, Natália não era uma dessas pessoas que se descontrolam e choram quando descobrem uma traição, mas isso era a Natália da minha cabeça. Vai que ela reagisse de uma maneira convencional, convencional de hoje, de trinta anos atrás, de séculos atrás? Mas não era isso. Breno não tinha outra. Também não queria propor exatamente aquela coisa de relação aberta, que foi minha segunda hipótese. “Ele quer ter direito a férias de mim”, disse ela, depois de ter se acalmado um pouco. “Ele quer tirar férias todos os anos”.

À medida que ela foi explicando, minhas sobrancelhas foram se contorcendo mais e mais, estou certa disso. O negócio funcionaria mais ou menos assim: um mês por ano, eles tirariam férias um do outro. Viajariam ou continuariam em São Paulo, tanto faz – o que importava é que, nesse tempo, poderiam fazer o que quisessem, se envolver com quem bem entendessem, e nem telefonariam um para o outro. “Você liga para o seu chefe quando está de férias?”, ele me perguntou, quando, no dia seguinte, fui questionar a sanidade dele. “E na volta, meu Deus?”, indaguei, tentando acompanhar aquela proposta absurda. “Na volta!”, ele disse, os olhos brilhando. “Quer coisa melhor do que voltar de férias? Na volta é só alegria, entusiasmo, vontade de viver! Um tempo depois, é verdade, vai ficando ruim de novo. O desânimo. O tédio. Aí, você começa a contar os dias. E, quando menos se espera, quando pensa que sua rotina não tem mais saída, quando acha que a sua vidinha já engoliu você, lá vêm elas: as férias de novo!”

Tem gente que gosta de pagar para ver. É inato, é como se a curiosidade dessas pessoas tivesse nascido com alguns centímetros a mais que a prudência. Natália é assim. Depois de chorar, de se indignar, de dormir na minha casa por dois dias, de conversar com Breno várias vezes… Resolveu topar. Louca, a Natália. “Você está colocando seu casamento em risco”, alertei, me sentindo uma tia gorda, de óculos e blusa de bolinhas, que vive nos anos 30. “Ou estou inventando um novo padrão”, respondeu ela. Pobrezinha. Não sabe que não é ela que inventa os padrões.

Foi ele que tirou as férias primeiro. Não disse se sozinho ou acompanhado, não disse para onde: só foi. Ela ficou perdida, solitária, temerosa – mas, ao mesmo tempo, ansiosa para que chegassem suas próprias férias, dali a alguns dias. Até porque ela tinha se dado conta de que um colega de trabalho, com quem sempre tinha flertado, estava solteiro. Como sempre gostou de férias planejadas, acertou tudo com ele antes.

Então, continuou sendo uma esposa dedicada e fiel, com saudade do marido, simpática ao telefone com a sogra, cumpridora e todas as suas tarefas normais. Até que o dia marcado chegou: e então ela saiu de casa, ansiosa e feliz, para se hospedar na casa do Jonas, como programado. Sempre organizada, a Natália.

“Você não faz ideia de como foi bom”, ela me disse, na volta. Notei que estava mais corada, talvez até bronzeada. Agia como se tivesse voltado de um lugar distante, ou mais: como se, por trinta dias, tivesse vivido outra vida, na pele de outra pessoa. “Que revigorante! Pena que esqueci a máquina fotográfica”, disse, gargalhando.

Era estranho, mas não posso dizer que era incompreensível. O dia-a-dia com Breno era ótimo, ele era um marido incrível, ela tinha sorte; mas, nas suas férias, tudo o que ela não queria era se lembrar de Breno. “Nossa, mas como foi bom voltar!”, ela continuou. “Nunca vi o Breno tão animado, e parece que até nossa casa ficou diferente! Tudo mais bonito, colorido!” Bom, aí, nessa hora, comecei a me encher. Afinal, é quase uma afronta conversar com essas pessoas que voltam tão regeneradas das férias, quando você está na mesma – sem direito a um mísero dia de folga, quanto mais férias prolongadas.

Mas não sinto inveja. Já faz cinco anos que eles começaram com essa história e ainda acho tudo isso uma grande loucura, uma insensatez. Férias de casamento? Isso não existe. De certas coisas, você não tira férias nunca, a não ser que decida pagar um preço muito alto. Mais cedo ou mais tarde, essa conta vai vir, tenho certeza. Um amor de verão vai subir a serra, sei lá. Uma hora, o casamento deles vai desabar.

Claro, uma hora quase todo casamento, convencional ou não, desaba, mas não é o momento de entrar em estatísticas.

Já falei isso para os dois, em pelo menos três ocasiões. Mas eles não me escutam. Pelo contrário, parecem mais felizes do que nunca, com o relacionamento e com a vida em geral. Breno está apaixonado pelo novo emprego, trabalhando 60 horas por semana. E Natália… Bem, no momento, ela está de férias. Mas, quando voltar, quero ter mais uma séria conversa com ela.

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Ele e as fotos

Definitivamente, ele não gostava de fotos. Se estava passeando no campo e ouvia alguém comentando “Olha o passarinho!”, já fugia.

Quando aparecia uma pessoa alegremente munida de uma câmera, disposta a tirar uma foto da turma do colégio, da faculdade, dos colegas do trabalho, arranjava uma desculpa. Ia ao banheiro. Inventava um telefonema urgente. Essas coisas.

Com o passar do tempo, foi ficando mais ágil. “Deixa que eu tiro!”, gritava, assim que as pessoas alegres apareciam com suas câmeras. “Vamos colocar no automático”, disse um amigo, certa vez. Pego de surpreso, tudo o que conseguiu improvisar foi um ar comovido acompanhado por um “Quem tira a foto tem que ter vida”.  Nunca mais repetiu aquela resposta patética, apesar de ter ouvido, na ocasião, um ou dois suspiros de pessoas tocadas pela sua sensibilidade – o nível de álcool estava elevado naquela noite.

Às vezes, tinha que fazer alguma concessão. “Não tenho nenhuma foto com você. Sorria!”, dizia o colega, o amigo, a nova namorada. Resignado, ele olhava para a câmera e lançava seu melhor sorriso amarelo, que dificilmente seria aceito por algum porta-retrato. De fato, ficava orgulhoso ao visitar algum amigo e constatar que nunca havia foto sua nas paredes alheias. Muito menos nas paredes da sua casa: esse, sim, era um lugar que não admitia exceções.

Fotos dele mesmo, só em documentos. De resto, não tinha fotografia nenhuma, nem da mãe, do pai, da namorada ou de quem quer que fosse.  “Toma, coloca na sua carteira”, disse uma namorada, estendendo-lhe sua melhor 3×4. Ele riu do humor da moça. Ela era mesmo uma graça.

Quando casou, não quis ver as fotos do casamento. Posar para fotos da lua-de-mel, nem pensar. “Que coisa mais anti-romântica”, esbravejou, quando a mulher, esperançosa, sacou uma câmera da bolsa.

Um dia, eles tiveram um filho. As coisas iam bem, até que a mulher fotografou o bebê e cismou: o marido ia ver ao menos uma das fotos.

“Ele está aqui na minha frente, não preciso de foto”, ele argumentou. Ela apelou: “E quando você viajar a trabalho, como vai ser? Não vai se lembrar mais de que tem família?” Ele coçou a cabeça. “Fico triste”, confessou. “Eu sempre lembro que tenho família, mas fotos são lembranças em carne viva”.

Ela não quis nem saber. Esperou que ele fizesse a mala da viagem seguinte e enfiou lá dentro, no meio das roupas, uma foto. Ela segurando o bebê. Dessa vez, ele não ia escapar. Ia se emocionar ao ver sua família e parar com toda essa bobagem.

Já no hotel, assim que foi pegar uma camisa na mala, ele deu de cara com a foto. Ficou estático. Queria desviar o olhar, mas, sem saber por que, não conseguiu. A imagem de seu filho e de sua mulher brilhava à sua frente, mesmo o papel sendo fosco.  Foi tomado por uma emoção desconhecida, uma bola amarga no estômago, uma vontade de chorar.

Ele colocou a foto na carteira e nunca mais foi o mesmo.

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Os donos do tempo

No fim do ano passado, eu estava numa fase superocupada. Frilas, trabalhos finais da faculdade, curso de teatro. Meio sem paciência, decidi diminuir o ritmo em alguma coisa. Escolhi meu hobby: o curso de teatro, que é às 8h15. Comecei a chegar atrasada, para aliviar meu dia. Beleza.

A professora não chiou. Até meados do semestre, eu tinha sido uma aluna aplicada. E, mesmo com os atrasos, estava longe de estourar meu limite de faltas. Mas eis que, um dia, no intervalo, eu meus colegas estávamos conversando sobre… sono. Sei lá por quê. Aí, comentei que costumava dormir oito ou nove horas todos os dias. Terror. Censura. Pânico! Um deles disse:  “Como assim, você dorme oito ou nove horas por dia? E ainda tem a cara-de-pau de dizer que está sem tempo?!”

É, ué. Sem tempo. Posso tomar café-da-manhã na frente do computador, se estiver enrolada. Mas prefiro sacrificar outras coisas – como a assiduidade ao curso de teatro – a diminuir meu sono.

Lembrei de um colega meu da filosofia. O dia-a-dia dele contava com duas atividades principais: ele fazia graduação à noite e tinha uma bolsa. Pela bolsa, ele tinha que trabalhar quatro horas por dia… duas vezes por semana. Não é o que podemos chamar de um workaholic, convenhamos. Mas, mesmo assim, depois de alguns meses, ele desistiu da bolsa.

Eu: Como. Assim.
Ele: Eu não tinha tempo para estudar.
Eu: Mas sua bolsa não tomava nada do seu tempo!
Ele: Nada, não. Quatro horas por dia, duas vezes por semana.
Eu: Mas era do lado da sua casa… mas… mas…

Quis saber como ele administrava o tempo. Ele contou. O café da manhã leva mais de uma hora: afinal, ele gosta de tomar café com calma. O almoço, duas horas. A caminhada depois do almoço é sagrada. Quando ele se dava conta, já era hora da aula e ele não tinha estudado tudo o que queria.

Por outro lado, quando esse meu colega precisa estudar muito, ele dorme três horas por dia.

Ninguém me pediu nenhuma sugestão de como levar a vida e não encher a paciência dos outros, mas aí vai. Quando alguém disser que está sem tempo, acredite. Deixe a pessoa lá com o tempo dela! Porque os relógios podem discordar de mim o quanto quiserem. Mas, realmente, o tempo não é igual para todo mundo.

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Só assim seremos felizes

Os dois se sentaram no sofá. Ninguém falou nada.

– E então – disse o terapeuta, por fim. – O que os traz aqui?

O marido viu que a mulher não ia dizer nada e falou, com a boca cheia:

– Ela me traiu.

Era tão bom saber que tinha razão! Aquele seria um trabalho fácil para o terapeuta. Aliás, ele devia pedir um bom desconto.

– Por quase um ano, a cara-de-pau teve um amante – continuou. – Estamos juntos há quinze anos e posso garantir: nunca fiquei com outra mulher. Não vou dizer que nunca tive vontade. Tive. Mas controlei. Controlei! Ela, por outro lado, deixou nosso casamento de lado. Nem pensou em nossos filhos. Temos dois! Mas ela nem se sente mal, porque é bígama. É até crime, não é? Eu poderia mandar prendê-la.

O terapeuta olhou para a mulher, quieta no sofá. O marido continuou.

– Nosso casamento acabou. Não tem volta.
– Então, por que decidiu vir até aqui? – o terapeuta perguntou.
– Porque quero que lhe mostre que ela errou. Não sei se é o estresse, se é algum sintoma da bigamia, mas ela não consegue entender esse simples fato. Quero que mostre a ela que trair é errado, que ser adúltera é uma vergonha e corno, uma humilhação.
– Já disse. Não vou dizer que errei, porque não acho que errei – ela falou.
–  Está vendo só, está vendo só! – o marido gritou.
– Ou melhor, errei, mas meu erro foi ter meu caso descoberto. Se isso não tivesse acontecido, não estaríamos aqui.

O terapeuta olhou rapidamente o marido. Não, ele não parecia estar armado. Ótimo.

– Infiel! – o marido gritou, com a boca cheia.
– Já disse que não acho que eu tenha errado. Entretanto, posso tentar justificar o que fiz. Se justifico, é porque te amo e quero continuar casada com você.
– Essa mulher é psicótica, doutor. Psicótica! Como você pode ter coragem de dizer que me ama? Infiel!
– Não podemos tentar conversar sem o apoio desses rótulos? Infiel, corno, adúltera. Esqueça as palavras e me escute com sua alma.
– Desculpe, não entendi o que você disse, porque entendo apenas o que é dito com palavras.

O terapeuta segurou uma risadinha.

– Quer parar de brincadeira e me ouvir, por favor? – ela pediu. – Amo você. E sou muito feliz ao seu lado. Sempre fui! Mas nenhum relacionamento pode dar tudo a alguém.
– Vamos lá: eu sou seu amigo, sou ótimo pai e tenho certeza de que não deixo a desejar na cama. Como se não bastasse, sei dançar e cozinho! Um gênero raro no reino dos maridos. Viu, ainda te faço rir! O que não posso te dar, minha filha?
– Você não pode me dar a emoção de um primeiro beijo.

Silêncio. Isso, ele não podia mesmo dar. Golpe baixo.

– Bem ­– ele disse, tentando se recompor. – Você também não pode me dar isso, tá certo? A-há! Estamos empatados.
Ela franziu as sobrancelhas e ele desmanchou seu olhar de vitória. Bom, ninguém tinha dito que era uma competição.
– Nenhum relacionamento nos preenche totalmente. Todo casamento envolve, além da história dos dois, outras histórias com as quais sonhamos.
– Doutor, já falei que minha mulher, ou melhor, que minha ex-mulher é poeta? Por que você não ia para as portas dos cinemas complementar nosso orçamento?
– O que você não entende – ela disse – é que as pessoas têm diferentes temperamentos.
– É verdade. Eu, por exemplo, tenho um temperamento fiel. Você, não.
– É aí que está! Para algumas pessoas, como você, é muito fácil apagar essas outras histórias como quem apaga uma frase escrita a lápis. Para outros, não é assim tão fácil. Você diz que nunca ficou com outra mulher e parece se orgulhar disso, mas era fácil para você. Então, se era fácil, não era mérito.
– Tem toda razão. Mérito é trair seu marido. Não é à toa que um dos doze mandamentos é “trairás” e outro é “cobiçarás a mulher do próximo”. Nossa, preciso me confessar! Estou pecando!
– São dez mandamentos, não doze.
– Como você sabe? E se Moisés deixou cair duas pedras quando voltava do Monte Sinai? Não é fácil carregar pedras, ainda mais para um senhor de idade.

O terapeuta concordou com a cabeça. Fazia sentido.

– Escuta – ela pediu, tentando voltar aos seus motivos. – Não trair, para usar a palavra que você tanto usa, era fácil para você. Mas, para mim, não trair você em quinze anos seria trair a mim mesma! Que casamento seria esse?
– Olha, eu fico confortável com a idéia de você trair a si mesma.
–  Eu já tinha me controlado outras vezes. Controle. Sei que as pessoas valorizam isso. Mas fui me sentindo envolvida por esse homem, até que me apaixonei.
– Perfeito. Espero que, com ele, você se lembre de seguir os mandamentos.
– O dia em que nos beijamos foi um dos melhores da minha vida – ela continuou. – Você diz que eu deveria ter me sentido mal. Como me sentir mal, se foi um dos melhores dias da minha vida?

O terapeuta olhou para o homem de novo. Não, ele não estava mesmo armado.

– Querido, como eu disse, eu amo você. Nunca cogitei trocar nosso casamento por ele.
– Olha, fico feliz! Você é uma pessoa muito do bem.
– Me escuta! Fui muito discreta o tempo todo, porque não queria machucar você. Nunca nem comentei meu caso com alguma amiga. Quando eu mentia sobre o lugar aonde ia, mentia com perfeição, de modo que você se sentia feliz e tranqüilo. Em casa, sempre lhe dei toda a atenção do mundo.
– Bacana. Além de poeta, você pode dar aulas de casamento para jovens à beira do altar! Olha, gente, o papo está ótimo, mas eu estou de saída.
– Não quer terminar de ouvir sua esposa? – pediu o terapeuta.
– Sabe o que é, doutor, ela tem vários empregos, mas eu só tenho um e preciso trabalhar. Foi muito produtiva a consulta, obrigado.
– Eu só te dei alegrias – ela agora chorava. – Nossa vida sempre foi harmônica. Você sempre se sentiu amado, quer felicidade maior do que essa?
– Você quer mesmo que eu responda?
– Eu me casei comprometida a lhe fazer feliz, e a ser feliz com você, e eu fazia e eu era! Sempre fui uma esposa excelente e uma mãe dedicada, você sabe disso. Não sou adúltera, não sou bígama. Eu sou eu.
– E eu sou eu, prazer. Nos vemos no advogado? Com licença.

O terapeuta fez um sinal e ele acabou suspirando e se sentando novamente.

– Tudo bem, essa consulta custa uma fortuna, vamos aproveitar o tempo que falta. Olha, achei muito bonito seu discurso. Muito, mesmo. Vamos fazer o seguinte? Nós retomamos nosso casamento, e eu arranjo uma namorada para ficar um ano com ela. Que tal?
– É claro que não irei concordar com isso.
– Incoerência genética, doutor. Incoerência genética! Se não existir essa doença, olha que alegria, você acompanhou o primeiro caso.
– Se eu achasse que seria bom que você soubesse do meu relacionamento, eu mesma teria lhe contado! Mas sempre fiz questão de esconder o mais escondido que pude. Todo mundo diz que quer ter consciência de tudo, mas a consciência machuca.
– Sabe o que machuca mais ainda? Chifre.
– Certas coisas não devem mesmo ser ditas. Segredos, por definição, não devem ser revelados. Se você quer ter uma namorada por um ano, não me conte. Faça mais: me dê a certeza de que você nunca teria uma namorada por um ano. Só assim seremos felizes.
– “Só assim seremos felizes”. Nome de novela! Gostei. Mas, se for escrever, por favor, arruma outro enredo. Sabe como é, vivemos numa sociedade cristã, que segue os doze mandamentos e tudo mais.

Ela enxugou as lágrimas.

– Te amo, meu amor.
– Obrigado, fico feliz. Agora, deixa te perguntar uma coisa, só por hipótese mesmo: se, por acaso, a gente voltasse, você terminaria com esse sujeito? Nunca mais iria vê-lo?
– Nunca mais.
– Como vou saber qual estilo de mandamento você está seguindo? Você mente.
– Acredite em mim, eu acredito em você e não precisamos de mais nada.
– Queria ouvir você falando isso com o gerente do banco, na hora de pedir um empréstimo.
– Você acha que quero uma vida de mentiras? Não! Quero uma vida de amor, como sempre foi a nossa vida.
– Você é louca.
– Sou lúcida.
– Por que quer ser lúcida, se a consciência machuca? A-há! Te peguei.
– Não escolhi ser lúcida. Não escolhi ser eu. Se gosta de mim, se me respeita do jeito que eu sou, fique comigo. Eu sou eu!
– De novo, as apresentações? Já estamos no fim da consulta.
– Eu sempre o respeitei. Sempre! Falta de respeito seria se eu o tratasse mal. Se eu não me separasse, mas passasse meses implicando com seu jeito de ser, fugindo de você na cama, derramando todas as minhas frustrações sobre as suas costas! Falta de respeito seria se eu não o amasse mais e continuasse casada com você. Falta de respeito seria se eu desejasse mal a você, se eu o achasse ridículo, patético, mas eu o admiro, eu te amo!
– Sabe, eu ia adorar todo esse seu respeito, se não tivesse um par de chifres em cima dele. Não posso ter só o respeito, sem a parte do chifre? Só vende o pacote?
– Talvez exista esse pacote para alguns. Talvez ele fosse possível mesmo para mim, se eu não tivesse conhecido quem conheci. Mas eu conheci. As coisas aconteceram como aconteceram. Se não tivessem acontecido como aconteceram, eu não saberia nem dizer quem é essa que esta falando com você agora. Eu poderia ser frustrada, amargurada, podia ser tudo o que não sou. Sou feliz.
– Bem, você quer me convencer de que é uma pessoa melhor porque teve um amante, é isso? Doutor, quero meu dinheiro de volta.
– Escuta, não quero mais convencê-lo de nada. Quero apenas dizer: te amo. Vamos nos amar do nosso jeito, eu e você somos quem somos.
– Ah, não. De novo, as apresentações! Doutor, anota aí: além de bigamia e incoerência genética, ela tem amnésia. Querida, já sei quem é você. Espero que consiga se lembrar da nossa reunião com o advogado, amanhã de manhã. Estou indo embora. E você, doutor, peça o cheque para ela. Ela é que tem vários empregos, não eu.

E ele saiu, pensando nos doze mandamentos. E se fossem quinze? E se os últimos anulassem os primeiros? Isso, ele nunca iria saber.

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Isabela

Começando a colocar algumas crônicas…

Isabela

Quando Isabela soube que Fernando estava dormindo mal e tinha perdido cerca de cinco quilos, sentiu primeiro uma angústia e logo em seguida uma vontade incontrolável de ir à casa dele preparar-lhe uma grande panela de carne com batata e obrigá-lo a comer tudo.

Já fazia três anos que ele havia falado que não a amava mais. Pega de surpresa como sempre somos pegos de surpresa quando alguém diz que não nos ama mais, mesmo que uma parte nossa já saiba há tempos que não é mais amada, Isabela propôs que continuassem se vendo sem compromisso. Ele estava livre para ficar com outras mulheres, desde que ficasse também com ela. E ela estava livre para ficar com outros homens, embora soubesse perfeitamente que não o faria.

Mantiveram por alguns meses uma relação leve, dessas sem cobranças, que fazia Isabela sofrer mais do que qualquer outro tipo de relação.

Como doía passar o dia esperando que Fernando fizesse uma surpresa e aparecesse na casa dela sem avisar, coisa que ele nunca fizera nem quando tinham o que chamavam de compromisso. Como doía passar o dia feliz, na expectativa de o telefone tocar, e ver essa felicidade agonizar pouco a pouco com o passar das horas e morrer no final do dia. Como doía ouvir da família e dos poucos amigos que estava fazendo papel de boba – só doía menos do que os momentos em que ela resolvia que não se envolveria mais com ele; momentos que sucumbiam docemente ao telefone quando este finalmente tocava e aos braços de Fernando quando ele finalmente aparecia.

Mas a vantagem desse tipo de relacionamento, pensava Isabela, era que ela tinha a garantia de que Fernando nunca se cansaria dela. Não é, afinal, o sonho de todo homem poder ficar com a mulher que quiser sem ter que ouvir reclamações da namorada ou esposa? Ciente disso, Isabela não reclamava; pelo contrário, estava sempre sorrindo para Fernando um sorriso tão feliz que mascarava perfeitamente o desespero inútil de quem sabe que não é mais amado.

Até que Fernando se cansou de Isabela.

Ela não podia acreditar. Primeiro ficou calada; depois disse que não se importava e que ele poderia fazer o que bem entendesse de sua vida, e finalmente se jogou de joelhos pedindo insistentemente que ele ao menos tentasse gostar dela por mais um tempo. Não precisava gostar muito, não precisava sequer gostar pouco; bastaria que ele gostasse em quantidade suficiente para suportar a presença dela e, em um ou outro momento de boa disposição, até desejar-lhe fisicamente.

Fernando disse que isso não era possível, porque estava apaixonado por outra mulher.

Isabela teve uma grande dificuldade de assimilar essas palavras. Apaixonado por outra mulher? Ela tinha ouvido, ela poderia até mesmo repetir se alguém lhe pedisse – mas não podia compreender. Outra mulher. Apaixonado. Apaixonado por outra mulher.

Muda, Isabela saiu do apartamento dele, que não disse nada além de “cuide-se” antes de fechar a porta. Jurou para si mesma que nunca mais atenderia nem um telefonema de Fernando – para, no outro dia de manhã, voltar ao apartamento dele, perguntando se ele estava arrependido.

Não estava.

Depois de alguns dias, Isabela voltou, com outra expressão de seu rosto – de mulher apaixonada, passou a mulher independente que estava ali apenas porque queria sexo com um amigo antigo. Uma necessidade do coração e da alma transformada em vontade do corpo.

Assim que Isabela explicou suas novas intenções, Fernando olhou para ela com alguma repulsa e disse apenas: “Não quero”. Pensando que ele não havia entendido a proposta, ela disse claramente: “Não gosto mais de você. Só estou acostumada a fazermos sexo. Se sempre foi tão bom, por que a gente deveria deixar de fazer?”. Fernando novamente olhou para ela, e depois para o relógio, e depois disse que precisava sair e que ela tinha que ir embora.

Antes de se despedir, Isabela perguntou se poderia passar no apartamento dele quando sentisse sua falta, apenas para conversar. Ele consentiu, desde que ela telefonasse antes. Ela respirou aliviada. Ficaram assim por meses: ela ligava e falava que estava indo, ele concordava e desligava o telefone ou dizia “não, agora estou com visita em casa” – nesse caso, Isabela educadamente compreendia, desligava e chorava.

Quando ele concordava com sua visita, Isabela tratava de não demorar muito para não aborrecê-lo. Ia, conversavam um pouco, ela lhe fazia um café, olhava como estava a geladeira – se não tinha nada, o que não era incomum, dava uma rápida ida ao mercado e comprava leite, pão, algumas frutas –, despedia-se com a certeza de que um dia ele ia acabar gostando dela e ia embora.

No dia em que Fernando disse a Isabela que ia se casar com a outra mulher, Isabela chorou por dois dias seguidos, mas depois enxugou as lágrimas e passou a encarar o casamento como um problema do casal – Fernando e ela. E continuava indo à casa dele, apesar de ele, cada vez mais freqüentemente, recusar suas visitas por telefone.

Quando a mulher de Fernando, Maria Luiza, atendeu a porta do apartamento em que os dois moravam e viu que era Isabela, apenas disse que o marido não estava e fechou a porta. Do lado de fora, Isabela ouviu Maria Luiza, aos gritos, dizendo para Fernando que não admitiria mais que “aquela mulher” o visitasse.

Isabela foi embora, envergonhada – mas também orgulhosa, sabendo que a esposa de Fernando se referia a ela aos gritos e, sobretudo, que se referia a ela como “aquela mulher”. Ela significava alguma coisa para Fernando. Era aquela mulher. Aquelas mulheres merecem os gritos de uma esposa!

Depois desse dia, Isabela passou meses sem contato com Fernando – sem telefonemas, sem visitas; apenas com pensamentos e com o secreto e confortante orgulho de ser aquela mulher.

Até que seu telefone tocou e era Fernando. Surpresa, Isabela ouvia: Maria Luiza tinha saído de casa. Problemas conjugais, brigas, não quis entrar em detalhes. Fernando estava dormindo mal e chegou a perder cerca de cinco quilos. Foi quando Isabela sentiu uma vontade incontrolável de ir à casa dele preparar-lhe uma grande panela de carne com batata e obrigá-lo a comer tudo.

E foi o que fez.

Chegando ao apartamento de Fernando, foi logo para a cozinha. Preparou a comida enquanto ouvia suas quase ininterruptas explicações sobre como estava sofrendo, como estava arrasado, como tinha sido pego de surpresa como sempre somos pegos de surpresa quando alguém diz que não nos ama mais, mesmo que uma parte nossa já saiba há tempos que não é mais amada.

Isabela, atenta a cada detalhe, agora o observava comendo.

Ele devorou tudo. Depois a olhou com gratidão, mais por ter sido ouvido do que por ter comido, e a abraçou. Beijaram-se. Deitaram-se. Amaram-se. Para Isabela, era uma mistura de amor, desejo, saudade, realização e uma cumplicidade que sobreviveria ao tempo que fosse. Para Fernando, era uma mão que carinhosamente tampava um buraco que voltaria a se abrir dentro de alguns instantes.

Vendo Fernando dormir, Isabela sorriu. Para ela, ter sido tão vigorosamente desejada por alguns instantes era a última prova de que precisava para nutrir uma de suas poucas e inseparáveis certezas: um dia, ele voltaria a gostar dela.

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Como nossos pais

Quando eu tinha uns treze, catorze anos, meu pai vivia me botando para ouvir as músicas de que ele gostava. Maria Bethânia. Gal Costa. Nara Leão. Elis Regina. Chico Buarque.

Eu detestava. Principalmente Chico Buarque. “Com essa voz, como esse cara pode ser cantor?” , cheguei a perguntar uma vez, do alto da minha indignação de treze, catorze anos. Meu pai ficava horrorizado. “Ouça mais uma vez”, pedia. “Preste atenção à letra”. Eu resmungava, mas obedecia. Era particularmente sofrível ouvir Elis Regina cantando “Romaria” e “Como nossos pais”. Eu quase dormia logo nos primeiros versos. Então, quando acabava aquele martírio, eu fazia pouco do mau gosto musical do meu pai. E ia para o meu quarto ouvir Kid Abelha, Legião Urbana, Engenheiros, Paralamas: aquilo que era bom.

Fui crescendo, meu pai foi desistindo de me converter musicalmente, e segui ouvindo “Infinita Highway” e “Eu tive um sonho”. Estudei num colégio em que todo mundo ouvia as mesmas coisas, com exceção de um ou outro que gostava de heavy metal e da menina romântica que suspirava com a Marisa Monte cantando “Beija eu”. O axé estava começando e, pelo menos no meu colégio, não pegou. Diversidade musical não fazia muito o estilo de uma escola em que todo mundo ia para a aula com uma mochila Company. Ai de quem fosse com uma mochila de outra marca! Tive uma Company rosa, uma roxa e uma preta – esta era o meu orgulho: só os mais subversivos usavam.

Só no primeiro semestre da faculdade fui descobrir que nem eu, nem meus colegas tínhamos inventado o bom e o mau gosto musical. Para minha surpresa, as músicas que eu ouvia eram ruins, e as do meu pai, boas. “Mas você gosta de Chico Buarque?”, perguntei uma vez a uma colega. “Eu não gosto tanto, mas sei que ele é bom”. Tá certo.

Peguei antipatia. Não podia ver alguém ouvindo Elis Regina ou Chico Buarque, que achava que a pessoa queria se exibir. Não acreditava que ela gostasse genuinamente daquilo, mas só que queria fazer parte do grupinho do tal bom gosto. O grupinho que ouve MPB de qualidade. Eu, não. Eu me recusava a entrar nessa. E seguia ouvindo Kid Abelha, Legião, Engenheiros, Paralamas, e, agora, Skank, Titãs.

Por isso, quando comecei a namorar um cara que adorava Chico Buarque e também todos que iam surgindo e sendo abraçados por esse grupinho – Maria Rita, Céu, Mariana Aydar, Thalma de Freitas, Teresa Cristina… –, logo pensei: “Que arrogante!”. Ele tentou me catequizar no início, como meu pai. Dizia: é impossível não gostar de “Noite dos Mascarados”. Mas eu desdenhava. Sempre seguindo com minhas músicas, que agora incluíam Capital Inicial à exaustão – meu Deus, como ouvi aquele acústico!

Até que, um dia, fui tomar banho na casa desse meu (agora ex) namorado. Ele não estava lá, e, com vontade de tomar banho ouvindo música, decidi pegar um dos seus cds chatos. Bati o olho num do Chico Buarque. Li no verso da caixa: “Noite dos Mascarados”. E, meio fazendo pouco, meio curiosa, botei o cd no aparelho de som, nessa faixa, e fui para o banho.

Naquela tarde, ouvi “Noite dos Mascarados” pelo menos cinco vezes.

Depois disso, percebi que “Samba do Grande Amor” dizia tudo o que eu queria ter dito quando me separei.

Notei que “João e Maria” me fazia arrepiar como nenhuma música tinha feito.

E cheguei a chorar com “Romaria”, de Elis Regina, e também com “Como nossos pais”.

É, não tinha jeito. Eu havia sido convertida à MPB.

Hoje, quando entro no meu carro, confiro se estou levando meus cds do Chico Buarque e da Maria Rita, os que mais tenho ouvido ultimamente, além de Virgínia Rosa e Mallu Magalhães (adoro a Mallu Magalhães!). Já me emocionei muito em plena Marginal Pinheiros. Se o tempo está parado dentro do carro, você não liga muito para o trânsito parado lá fora.

Mas devo confessar que, no estojo em que guardo meus novos cds, os velhos continuam lá.

Tem Legião, Engenheiros, Capital e Kid Abelha. Até Dani Carlos já passou por lá. E, quando dá vontade, ouço. Continuo teimosa: problema dos que inventaram esses rótulos. O bom e o mau gosto, o cool e o sem personalidade, o hype e o mainstream. No meu som, sempre vai ter espaço para um bom pop.

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Uma breve reflexão sobre quem pede a mesa, a conta, essas coisas

Anos atrás, numa visita da minha mãe a São Paulo, apresentei a ela um então namorado. Contentes, fomos os três jantar num restaurante. Beleza. O problema é que, chegando lá, o maître nos abordou e eu disse:

Eu: uma mesa para três não-fumantes, por favor.

Se você não viu nenhum problema no que eu disse, obrigada. Porque, assim que voltássemos para casa, minha mãe me daria uma longa bronca. “Não é você que pede a mesa! É o homem! E você ainda pediu a conta… Deus…”, ela falou, arrasada. E, como boa mãe, decretou: “Os homens gostam de proteger as mulheres. Eu sei que você mesma pode pedir a mesa, mas FINJA que precisa dele para fazer essas coisas.”

Os anos se passaram. E, nesse período, toda vez que eu estava acompanhada e pedia a mesa ou a conta, infelizmente me lembrava da minha mãe falando isso. Saco. Uma coisa que era normal em mim estava quase virando uma neura. Mães adoram fazer isso! Ou, pelo menos, a minha.

Mas então era isso? Homens gostam que a gente finja que é desprotegida?

Para abreviar meus anos de pulga atrás da orelha, vamos logo à minha conclusão: concluí que minha mãe tinha uma boa dose de razão. Muitos homens gostam de bancar os protetores e, por conseqüência, gostam que nós banquemos as desprotegidas. Mas também concluí que esses homens não são para mim. Fazer o quê! Me cansa bastante a ideia de fingir que não posso fazer certas coisas que, na verdade, posso fazer. E minha mãe me dá conselhos muito bons, mas não pode estar certa em tudo.

Então, é simples. Prefiro um homem que não se incomode que eu peça a mesa quantas vezes eu quiser.

Em tempo: não é que eu seja uma fanática por pedir a mesa e a conta, ok? Às vezes, peço. Às vezes, não. Talvez meu marido peça mais do que eu, até. E já saí com caras que sim, bem à moda da minha mãe, faziam questão de fazer tudo. E já aconteceu o oposto: eu ter que fazer tudo.

Talvez um grande qualidade de uma relação seja não fazer diferença quem vai pedir a conta e a mesa.

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Voltei!

Com um videoblog, para começarmos de um jeito diferente :-)
Aí vai, no estilo “fluxo de consciência”!

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