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Relacionamento abusivo: a culpa é de quem?

Se alguém souber o crédito, pf me avise

Numa manhã desta semana, lendo as chamadas da Folha, fui atraída por uma manchete: Wanessa Camargo diz já ter sofrido em relações abusivas. Cliquei e li a matéria (para quem quiser ler, está aqui). Deti minha atenção numa frase da cantora: “Fui permissiva”. Ela continuou: “Não adianta amiga falar, psicólogo, mãe e pai, não adianta. A pessoa tem que ter amor-próprio muito grande para se libertar disso”. Voltei pra home, fui ler outras coisas, esqueci o assunto.

Hoje, na home do UOL, leio a seguinte chamada: “Wanessa e o relacionamento abusivo: a vítima nunca está sendo permissiva”. Hmm, alguém comentando bem a frase que tinha me chamado a atenção antes de cair no esquecimento. Cliquei. Para quem quiser ler o texto, está aqui, O título resume bem do que se trata: a culpa nunca é da vítima.

O bordão defende uma ideia de maneira categórica. Leio e tendo a concordar 100% com ele: ora, a culpa nunca é da vítima, óbvio, a vítima vai ter culpa de alguma coisa? Mas aí releio a fala de Wanessa (da qual, na verdade, nem acho que é questão discordar ou concordar, ela está fazendo uma leitura dela de uma situação vivida por ela: ela chegou à conclusão de que foi permissiva enquanto concordava em se manter naquele tipo de relação). Sinto que entendo o que ela está dizendo, e mais, que penso meio parecido, e mais ainda, que isso não quer dizer discordar do bordão ou (por favor, né?) concordar com a violência do agressor.

A jornalista que escreve o artigo no UOL afirma que “a vítima não pode ser responsabilizada” e ainda pergunta ao leitor: “Isto está bem claro?” (que a vítima não pode ser responsabilizada) (embora Wanessa não tenha sido responsabilizada, ela se responsabilizou). Para mim, não é tão claro assim. Culpa, para falar a verdade, me pergunto se alguém tem de alguma coisa. Nem sei se existe, se faz sentido falar em culpa. Acho que até por isso tendo a concordar rapidamente com o bordão: a culpa não é da vítima (nem de ninguém, estamos todos em apuros ontológicos) (em apuros materiais, infelizmente uns muitos estão mais do que outros poucos). Aliás, um bordão, por mais bem-intencionado que seja, dificilmente traduz a complexidade de uma situação – e nem é isso que se espera de um bordão, embora, muitas vezes, ele seja usado como dogma, como uma máxima que não deve ser questionada. Acho que tudo pode ser questionado: não relativizado: questionado. Que resistam os fundamentos, as evidências, as sabedorias e o amor.

Responsabilidade é diferente. As pessoas (nós, pessoas) precisam ser responsabilizadas por seus atos, sim. E a auto responsabilidade, presente na reflexão de Wanessa, também acho bem importante. Penso que, quando percebemos a nossa responsabilidade nos nossos atos, temos muito a ganhar (e também vamos perder um pouco, afinal, perceber nossa parcela de responsabilidade por aquilo que nos acomete não é fácil.)

Por isso, penso que a Wanessa fez um movimento muito importante em sua fala que é: inspirar a pessoa que está sofrendo numa relação abusiva a se perguntar: o que estou fazendo aqui? Que parte em mim está sendo alimentada nesse pacto sadomasoquista?

Questionar-se abre uma porta para se fortalecer, aceitar ou buscar ajuda se necessário e sair da situação. Questionar-se abre uma porta para acessar as forças de dentro. Só aí os conselhos/sugestões farão efeito. A relação abusiva implica uma dinâmica, não é algo pontual como o exemplo de roubar um relógio, e também não é crime como um estupro (comparações feitas pela jornalista em seu texto) (embora, claro, uma relação tóxica possa infelizmente terminar em crime). É uma dinâmica complexa e acho que, mais do que apontar culpados (embora é claro que haja, infelizmente, pessoas que se aproveitam da fragilidade psíquica dos outros sim, e embora essas pessoas devam ser desencorajadas socialmente a explorar/abusar sim), é interessante e importante se olhar, encarar os próprios narcisismos e os desejos mais profundos. Por que me me permito ser manipulado? Que eu é esse em mim que quer ser subjugado? E eu, manipulo? Quando manipulo? Caí numa cilada ou relações assim têm se repetido? E o que me mantém aqui nesta cilada? Qual a minha parcela de responsabilidade na dinâmica que foi estabelecida nesta relação?

Como alguém bem observou nos comentários do artigo, tanto o abusador ou abusadora como o abusado ou abusada são alvo de fatores que desencadeiam ou reforçam seu comportamento. Acrescento: podemos entender que numa dinâmica tóxica há um elo mais fraco e outro mais forte, um abusado e um abusador. Mas podemos também lembrar que ninguém nasce abusador e ninguém nasce abusado. Trata-se, no meu entender, de uma dinâmica em que ambos os envolvidos estão muito distantes de si mesmos. Muito inconscientes. O lado mais fraco provavelmente vai sair mais lesado, mas me pergunto que tipo de vida é aquela levada pelo outra parte. Que espécie de força ostenta o dito forte? Ainda que o abusador não se dê conta da violência que pratica, ou que se dê conta, sim, e continue praticando, ele certamente sente os efeitos de uma vivência erguida a partir de uma interioridade tão árida.

De qualquer forma, minha torcida é para que, embora não se dê conta da força que tem, o abusado descubra sua força.






(2) Comentários

  1. que texto importante, lili! você sempre consegue colocar em palavras incômodos que eu achava que só eu sentia. logo depois que me libertei de um relacionamento abusivo, há alguns anos, lembro de culpar demais aquela pessoa (o abusador). conforme o tempo passou, eu comecei a entrar numas noias tão doidas que cheguei até mesmo a relativizar, como se tudo fosse coisa da minha cabeça, como se na verdade eu que fosse culpada por ter deixado aquilo tudo acontecer. hoje, com mais maturidade, encaro isso desse jeito que você apontou no texto e isso me permite ter relacionamentos mais saudáveis comigo e com as pessoas ao meu redor. entender que aquela pessoa me fez mal e entender que, naquele momento, foram aquelas as ferramentas que tive pra lidar com a situação. e seguir em frente. ♥

  2. Liliane Prata diz:

    Perfeito! Que paz esse desdobramento, que bom <3

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