Envelhecer é descer ladeira abaixo?

5e321ac1900fcffc656b36fede7fa4a2Sábado. Eu estava no restaurante, almoçando com uma amiga minha, quando ela comentou:

– Olha aquela família ali… Acho tão deprê ver essas famílias no restaurante…

Virei a cabeça para trás. Era um casal com um bebê e uma criança de uns quatro anos. Todos comiam sossegados. No carrinho, o bebê parecia estar dormindo.

– Olha o casal – ela continuou. – Eles nem estão conversando um com o outro. E que chatice ficar cuidando de criança, eles vão passar o fim de semana inteiro ocupados. Ah, essa cena me parece meio deprê, sei lá.

Como eu tenho marido e filha, pensei: será que, quando estamos calados em um restaurante, olham para a gente assim? Somos felizes, mas com certeza devemos passar uma imagem de tédio aos olhos alheios dependendo do dia, do momento. Bom, que olhem como quiserem, não tenho controle sobre isso, concluí. Mas antes que eu dividisse minhas conclusões mentais com minha amiga, ela falou:

– Outra coisa que eu acho deprê é aquela mulher ali, sozinha, mexendo no celular, dá uma olhada… Deve ter a minha idade e tá na cara que é solteira ainda… Ou separada, né… Nossa, ela passa uma tristeza no olhar, um vazio, um tédio…
– Espera – eu falei. – Esse vazio, esse tédio são seus, né. Ou todo estado civil é deprê?

Ela riu, eu ri, e então ela, que tem quarenta anos, confessou sua opinião: não importa como você viva – a partir dos trinta e poucos, é um curso ladeira abaixo que você segue. Passou a fase do namoro, das paixões, dos encontros cheios de ansiedade e de um coração receptivo ao outro e animado diante das experiências. Acabou o entusiasmo juvenil, a sede de novidades, acabou uma certa inocência, uma boa vontade em relação às pessoas e ao futuro. Sobrou o quê? Um cansaço, um certo desgosto generalizado. Uma desconfiança, um desconforto que não passa. Um discurso cínico e azedo sobre o ser humano, sobre os tempos atuais, a família e as relações amorosas. A culpa não é do estado civil, mas da idade: quando as risadas de alegria são substituídas por tiradas sarcásticas, cenas que eram emocionantes viram repetitivas e, às vezes, simplesmente patéticas, e uma dose de desprezo contamina tudo ao redor.

Casais juntos há anos: são felizes, mesmo, ou estão juntos por medo, comodismo, conveniência? Solteiros: são descolados, ou passam uma imagem triste e desesperada com suas buscas no Tinder? Divorciados com filhos: pessoas vivendo as dores e delícias que fazem parte dessa fase, assim como de qualquer outra fase, ou “os mais deprimentes”, segundo minha amiga, com seus fins de semana levando e buscando as crianças na casa um do outro e suas noites esquisitas, tentando se encaixar na balada, com expectativas já afogadas em esperanças que tiveram quando mais jovens e não têm mais?
– Ai, Lili, eu me sinto tão leve conversando com você – minha amiga completou, depois de eu rir muito e comentar um pouco sobre sua perda de fé generalizada.

– Eu, por outro lado, estou dez quilos mais pesada! – admiti, pedindo o café e louca, confesso, louca para ir pra casa dar um abraço na minha filha, comer um chocolate, fazer um bolo, fazer sexo: qualquer coisa que me devolvesse a sensação tranquilizadora de que a vida, em qualquer idade, pode ser rica, interessante, envolvente.

Essa minha amiga ficou desiludida muito cedo. Não que haja uma idade ideal para que a amargura invada o olhar – acho que o ideal é que pelo menos algum encantamento possa ser encontrado nos nossos olhos até o fim dos nossos dias. Mas acho triste quando essa amargura vem já na terceira ou quarta década aqui. Impressão minha ou muitos, além da minha amiga, estão se cansando rápido demais de suas jornadas? Sempre foi assim?

Penso em velhinhos amargurados: com seus oitenta, noventa anos, só sabem condenar, reclamar e se lamentar. Conheço pessoas assim. Então penso em velhinhos serenos, que passam uma leveza que sinto que tenho, mas que também sinto que preciso me cuidar para preservar. Também conheço velhinhos desse grupo. Como sempre, há de tudo. Não existem só olhares como os da minha amiga. Não existe apenas a ótica da falta, da escassez. Não é esse o único viés possível para se olhar a existência. Há filtros mais generosos, condescendentes ou simplesmente alegres. Se não para todos aqueles que buscam, então para os que conseguiram encontrar. Se não buscar, penso que aí é que não se acha mesmo. Generosidade natural em relação à vida, sem esforço ou, ao menos, sem certo cuidado e dedicação, talvez só a das crianças. Nós, adultos, temos que respirar fundo e fazer essa opção. Ou talvez alguns sejam amargos por natureza. De todo modo, nem todos conseguem. E também tem aqueles que não querem, não estão a fim, não se dão ao trabalho.

Saí daquele almoço pensando duas coisas: na caminhada de volta à minha casa, vou passar na banca e comprar figurinhas para a minha filha. E espero que minha amiga recupere algum gosto pela direção suave, agradável, em vez de botar a vida no ponto morto e descer de vez ladeira abaixo.

* Esta minha crônica foi publicada no site da CLAUDIA. Para ler lá, clique aqui

3 comments to “Envelhecer é descer ladeira abaixo?”

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  1. Célio Ramos Lopes - 26 de outubro de 2015 at 13:08 Reply

    Muito oportuno seu texto Liliane. Ele me recordou o texto do Eclesiastes 3, há um tempo para tudo, pelo menos na minha vida foi sempre assim. Muitas vezes as coisas que eu queria não vieram “na hora que eu queria”, mas algum tempo depois. Da mesma forma, nosso estado de espírito se manifesta de acordo com o momento, não há como sorrir o tempo todo. Um casal almoçando sem conversar não significa nada, considerando que são um casal, devem conversar praticamente o tempo todo, logo, em algum momento, não terão muito a dizer um para o outro.
    Tenho 18 anos de casado, já tive momentos bons, momentos ruins, já quis “mata-la” (modo de dizer, não leve ao pé da letra rs rs rs), já passei por muita coisa, … mas nos últimos meses temos vivido um romance gostoso, com tudo que tem direito, e não trocaria essa vida por nada. Além dos filhos, que também proporcionaram uma montanha russa de emoções a medida que cresciam.
    Creio que se fôssemos nós quatro na mesa ao lado da sua, é bem possível que estivéssemos em silêncio, sem conversar. Meu filho no celular, minha filha reparando as outras mesas, minha esposa olhando o cardápio e eu simplesmente viajando em meus pensamentos. Mas isso não significaria nada, pois estamos sempre juntos, passeando, indo ao cinema, viajando e enfim sempre juntos.
    Neste fim de semana inclusive, acompanhando minha filha às provas do ENEM, experimentamos entre nós quatro, vários momentos de amor, amizade e companheirismos, isso tudo entre nós e mais a experiência de interagir com as outras pessoas na mesma situação.
    Fiz questão de comentar com meus filhos, como é legal, bacana, você cumprimentar as pessoas a sua volta e deixa-las exprimir o que estão sentido, seja felicidade, esperança. ou até mesmo tristeza. Fiquei um bom tempo, do lado de fora da escola, esperando minha filha terminar a prova, pelo simples fato de dar uma “boa tarde” aos outros pais, que também aguardavam, era motivo para que eles compartilhassem conosco seus sentimentos e contar alegres e esperançosos a jornada do filho até ali.
    Outra experiência interessante aconteceu em um shopping. Eu e meu filho fomos comprar um sorvete. Cumprimentei a moça que nos atendia e perguntei-lhe como estava seu dia, se havia trabalhado muito, pronto. Ela sorriu e começou a conversar comigo tranquilamente, acabou me dizendo a hora que entrava no trabalho, a hora de sua saída, entre outras coisas. Também já aconteceu o contrário, em um supermercado, depois de meus cumprimentos, o caixa começou a reclamar da empresa, do salário, do horário de trabalho…
    Oswaldo Montenegro tem uma música que fala sobre isso, já ouviu “O Chato”? É verdade que quando cumprimentamos alguém: “E ai? Como vai?”, não estamos esperando que a pessoa nos conte sua vida, é só um cumprimento. “Aparece lá em casa.” é só um jeito de falar. Claro que as vezes queremos realmente saber como você vai e queremos que apareça lá em casa, mas existe uma diferença. É legal quando a pessoa interage aos nossos cumprimentos de forma positiva, as vezes não tem problema algum falar da sua vida, mas isso não pode ser uma lista de reclamações sem fim.
    Ih, acho que fugi um pouco do assunto. Mas adorei sua abordagem. Tchau!

    • Liliane Prata - 27 de outubro de 2015 at 12:56 Reply

      Obrigada por dividir as experiências, Célio! Adoro esses pequenos acontecimentos do dia a dia. Nunca ouvi essa música. E geralmente sou uma ouvinte impaciente quando o assunto são reclamações intermináveis… Beijos!

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