Para que tanto espelho?

images (1)Pra que nos olharmos tanto no espelho?, me pergunto, eu mesma me olhando no espelho, saindo do banho, eu sozinha no banheiro, ou melhor, eu no banheiro com meus interlocutores imaginários. Desvio o olhar, encaro fixamente o reflexo, desvio de novo, me enxugo, me visto, olho agora apenas o meu rosto: pra quê?

Quando nos olhamos no espelho, sobretudo quando nos olhamos fixamente, ou gostamos do que vemos, ou não gostamos. Dificilmente somos juízes neutros: somos nós, ali, escancarados, somos nós bonitos ou feios, nós diante de nós, nós, presas vulneráveis da nossa própria análise.

Momento do dia, momento da vida: expressão facial, humor, estado de espírito, olhos mais críticos ou mais condescendentes, peso na balança, peso do tempo: são muitos os fatores envolvidos nesse nosso olhar. Podemos estar tomados pela vaidade e por todo tipo de preocupação mundana, e então aquele corpo ali representa o mundo; podemos, ao contrário, estar desconectados do concreto, mirando o eterno, e aí aquela imagem nos parece desimportante, e por isso mesmo confortável: é apenas uma imagem, é apenas um corpo e nada mais.

Estamos diante do espelho. Às vezes, apenas escovando os dentes. Às vezes, nos detemos ali. Nós nos olhamos. Observamos. No fim, gostamos do que vemos ou nos entristecemos, no todo ou em um detalhe: uma espinha, uma ruga, um pedaço, um canto de nós mesmos que nunca nos agradou. Nós nos sentimos bem, ou nos sentimos mal… E pra quê?

Penso em quando não havia espelhos. Me vem à mente um tempo em que pessoas viviam suas vidas inteiras sem saber com a nitidez de hoje como eram seus rostos. Rostos que se surpreendiam em um pedaço de bronze ou prata nem sempre disponível, rostos que mal se sabiam.

Penso no preço de viver num tempo espelhado, um tempo em que somos refletidos em qualquer banheiro, em uma mera virada de pescoço na rua, na coluna de um prédio comercial, isso para não falar das câmeras, das fotos, dos vídeos.

Não resistimos. Olhamos. De vez em quando, analisamos.

Para que se olhar tanto no espelho? Se nos sentimos mal ou nos sentimos bem: e então? E daí?

Para que perder tempo com aquela imagem se lá fora, no apertado espaço de existência que sobra entre os espelhos, há tanta coisa mais interessante para se ver e pensar, tanta coisa mais gratificante do que um reflexo que, se nos envaidece num dia, tira nossa paz no outro?

Olhos meus olhos, nem sei mais o quê ou quem estou vendo ali: me distanciei da minha própria imagem, é como se ela não me pertencesse. Penso nas mulheres lindas, nas modelos perfeitas, nas que saboreiam, desfrutam sua beleza refletida ou, quem sabe, criticam-se apesar de tão lindas, vá saber. Penso nas mulheres que podem contar nos dedos quantos elogios já receberam por seus traços: o que pensam quando se olham, se gostam do que veem independentemente da opinião dos outros, se se sentem mal, injustiçadas, talvez…. E pra quê? Nós, as mulheres medianas, a maioria, nós, que nos sentimos lindas num dia e feias em outro, nós que passamos dos trinta e começamos a ser surpreendidas por uma mudança na pele aqui, outra ali, nós, que poderíamos nos olhar de manhã, nos arrumar e sair para o dia sem pensar muito nisso, mas que, às vezes, num dia ou outro, ficamos presas à nossa imagem, nossa imagem agradável de vaidade ou desagradável de tudo.

Saio do quarto pensando naquele tempo de antes, aquele tempo não tão espelhado. Penso em hoje. No brilho espelhado que reflete nosso rosto, nosso corpo. Lá estamos nós, nos fitando, principalmente nós, mulheres, nós, que estamos procurando ali o quê, mesmo? Aprovação de alguém? De quem? E principalmente: pra quê?

Você, homem ou mulher, costuma se deter no espelho só de vez em quando ou sempre para ali? Para, e fica, e se oberva, e se analisa?

Não somos refletidos por inteiro, é captado pela imagem tão pouco de nós. E, no entanto, quantos de nós são quase que capturados por aquele reflexo, de quem se tornam verdadeiros reféns?

E pra quê?

 

2 comments to “Para que tanto espelho?”

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  1. priscila - 3 de fevereiro de 2015 at 17:27 Reply

    lili,

    minha relação com o espelho normalmente tem fundamentos apenas práticos: uma ajeitada no cabelo, um sorriso pra checar se não tem nada nos dentes.

    mas o que faço com mais frequência é olhar fixamente para minha imagem até conseguir de me ver de fora, como se há mais de 30 anos minha consciência estivesse dando uma voltinha e, por mero acaso, ficou presa nesse corpo. normalmente gosto do que vejo com esse distanciamento, tanto esteticamente quanto em relação às minhas angústias.

    meu espelho me ajuda a me aceitar de longe e poder fazer as pazes com que está por dentro da minha imagem.

    um beijo!

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