Gente sensível

article-2452341-18A6109C00000578-705_634x408– É que já sou meio dada à tristeza, sabe –  comento com uma conhecida, quando ela me chama para acompanhá-la em um filme desses descaradamente tristes. Estamos em um café na Paulista, mais precisamente no Conjunto Nacional, a alguns metros do cinema da livraria Cultura.
– Como assim, você parece tão alegre…
– É que sou dada à alegria também, felizmente.
– Ah, sim. Agora entendi. Somos duas.
– Somos tantas, né?
– Ô. Espalhadas por aí.
– Somos um perigo.
– Um perigo para nós mesmas.
– Um perigo para nós mesmas. Somos gente que tem o peito aberto de nascença e deixa entrar o bom e o ruim sem fazer muita distinção. Penso que temos espaço demais entre os órgãos, a alma aerada: tudo passa, tudo atravessa.
– Um filme triste desmonta. Uma notícia boa aturde. Tudo ressoa.
– “Ressoa” é a palavra.
– Entra tristeza, mas não entra tédio.
– Tédio, só dormindo.
– Às vezes, nem isso.

Pedimos mais dois cafés. O assunto mexeu com nós duas. Tudo mexe com nós duas. Nem somos tão próximas, mas, naquele instante, nos tornamos. Nos reconhecemos uma na outra.

– Melhorei – digo, de repente. – Quer dizer, no gerúndio. Ando melhorando. Melhorando bastante, mesmo. Já faz uns anos.
– Eu também, sabia. Acho que isso é uma das coisas que chamam de maturidade.

Faço uma pausa. “Maturidade”, “bem-resolvida”, “ponderada”: até gosto desses termos, mas desconfio. Pois nos dão a impressão de que chegamos a algum lugar. Sinto que estou me aproximando desse lugar, sem dúvida. Dessa tal paz interior que parece ser o que há de comum a esses termos. Mas chegar não me parece coisa dos que estão vivos.

– Pode ser – digo, enfim. – Maturidade no sentido da fruta, mesmo. De não ser tão verde para a existência. Tão despreparada.
– A gente vem aprendendo a se blindar.
– Blindar, acho meio forte. Impossível.
– Mas aprendemos a abrigar uma solidez aqui dentro.
– Isso.
–  Você falou em espaço entre os órgãos. Temos esse espaço. Mas também temos órgãos. Não somos um corpo sem órgãos.
– Não somos. Quando você vive como se não tivesse órgãos, qualquer coisa pode entrar e tomar o todo. É aí que reside o perigo. O verde da fruta: a vulnerabilidade excessiva.
– Entram palavras estranhas. Crenças que são dos outros, não suas. E como saber o que é seu, se seu dentro está oco?
– Não há como saber. Se seu dentro está oco, não há nada de seu lá. Tudo entra, tudo sai. Não somos assim.
– Não somos. Há uma subjetividade sensível, muitas vezes frágil, mas há. A maturidade está em fortalecê-la.
– Solidificá-la. Até para fazer alguma coisa pelo nosso entorno. Construir alguma coisa a partir dessa sensibilidade. Quem constrói tem de estar de pé.

Ficamos silenciosas por alguns instantes, sem o mínimo desconforto. É o silêncio acolhedor de quem está arrumando os pensamentos.

– Temos espaços aqui dentro, espaços demais, mas temos órgãos – digo.
– Gente como a gente tem que se cuidar. Gente sensível. Não pode ser um oco invadido por tudo, tomado, desapropriado como se fosse terra de ninguém. É nosso dentro, precisamos cuidar daqui. Somos nós próprias.
– Temos que cuidar da pele em volta. Esse cuidado é um esforço pra gente como a gente. Um aprendizado.
– Um aprendizado contínuo.
– Uma opção pela solidez, por alguma solidez. Meu interior não pode ser líquido.
– Não apenas líquido.
– Sim. Há sangue passando. Mas não só.
– Há uma subjetividade que balança cada vez menos ao ritmo das circunstâncias.
– E que balança ao ritmo do nosso próprio coração.
– Ao som do próprio ritmo.
– Sim. Ao meu próprio ritmo. O meu. Que pertence a um eu.

 

7 comments to “Gente sensível”

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  1. marina - 3 de fevereiro de 2015 at 15:56 Reply

    Acho que diz muito sobre você, achei linda!

  2. Annina - 11 de fevereiro de 2015 at 15:01 Reply

    Alguém me chamou? Tão eu. :/

  3. Jess - 12 de fevereiro de 2015 at 14:05 Reply

    Você conseguiu descrever de forma tão clara que eu nunca conseguiria explicar que também me sinto dessa forma. E olha, posso estar errada, mas acho que a questão da certa ingenuidade e insegurança entra um pouco nisso, dessa sensibilidade. É como me sinto

    Parabéns pelas palavras, te admiro muito, desde a época da capricho

  4. Carolina Barcelos - 15 de fevereiro de 2015 at 13:34 Reply

    Texto lindo sobre algo tão pessoal mas ao mesmo tempo comum, e ‘sensível’, exatamente.
    Vou começar a ler mais você.

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