“Você gosta de poesia?”

muses– Você gosta de poesia? – o sujeito me pergunta na rua Augusta, quando estou entrando no cinema. Acabo virando os olhos para cima. Puxa, eu que estava seguindo meu caminho, puxa, eu que estava indo para a fila.
– Você gosta de poesia? – ele insiste, e então eu sorrio meio amarelo e respondo que não muito. Mentira. Gosto, amo. Não de toda poesia, claro, não vou nem falar que gosto de “boa” poesia: gosto da poesia que gosto. Perguntar se alguém se gosta de poesia, aliás, é como perguntar se gosta de prosa ou de música: existe alguém que não goste de nenhuma?
– Aaah como assim, não gosta, escuta essa aqui…
– Sabe o que é, moço, tenho hora no cinema – falo, tentando não ser rude.
– “Vi você. Ali. Era tarde” – ele começa a declamar.
– Boa noite – digo, deixando o poeta falando sozinho.

Imediatamente, me sinto culpada por ter sido rude. Sou dessas. Inclusive, antes mesmo de chegar à fila, já começo a questionar minha verdadeira identidade: puxa, mas eu não gosto de poesia? Será que eu deveria voltar lá? Deixa ver que horas são… Coitado do moço, o poema dele começou até bem… Bom, paciência, estou mesmo na minha hora…

“Você gosta de poesia?” – essa era para ser uma pergunta agradável, um convite prazeroso em meio ao trânsito, à falta de gentileza, à pressa dos olhares que não se cruzam, penso, agora na fila do cinema. Mas não é. Ouvir essa pergunta, “Você gosta de poesia?”, para mim, naquele momento, foi chato. Inconveniente. Por quê?

Li uma vez um provérbio chinês que dizia algo mais ou menos assim: o verdadeiro sábio só ensina sua sabedoria àquele que quer aprender. Completo o provérbio por minha conta: se o verdadeiro sábio insiste em enfiar seu conhecimento goela abaixo das pessoas, ele pode saber o quanto for, que não passa de um verdadeiro chato.

Para aprender, tem que existir uma abertura. Precisamos ficar à vontade na nossa vulnerabilidade de aprendiz. Temos que ouvir. Deixar o outro ensinar. É um gesto consciente: podemos até aprender alguma coisa no susto, meio sem querer, mas para aprender uma técnica ou qualquer coisa mais ou menos difícil para a gente, precisamos ter disposição, ficar atentos, olhar, ver, ouvir, pensar.

Talvez, com poesia, seja a mesma coisa.

Não se enfia poesia goela abaixo das pessoas. Não se empurra a delicadeza com força. Eu líricos não deveriam gritar, sutilezas não deveriam ser berradas: um puxão na sua camiseta estraga o melhor dos versos, nossa alma não quer trazer ao mundo nenhuma estrofe a fórceps.

“Você gosta de poesia?”, o moço tinha me perguntado, num questionamento que estava, para mim, mais próximo de uma interrupção indesejada do que de um agradável convite, mais para uma voz estridente do que um canto das musas. Amo poesia, mas estou passando, amo poesia, mas tenho hora, amo poesia, mas não neste momento.

Se eu estiver com tempo, se não estiver com horário marcado, minha resposta é diferente, penso, entrando na sala do cinema. Aí, sim, eu me torno a pessoa que gosta de poesia. Aí, sim, ofereço o que os amantes do aprendizado e ouvintes da poesia das ruas pode oferecer: essa abertura do provérbio chinês. Caso eu não possa oferecer essa abertura na hora, então é isso mesmo que eu disse, moço, não, eu não gosto de poesia, com licença, estou na minha hora.

 

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