A vida antes da morte

27b5cc90af8e1f2f37c571014672c507“Eu quero estar vivo na hora da minha morte”, li numa entrevista recentemente. A frase é do Winnicott, psicanalista e pediatra dos mais sensíveis, cuja obra comecei a conhecer não faz muito tempo. Eu estava tomando meu café da manhã, era muito cedo, eu era a única acordada na casa – e ainda estava, na verdade, bem sonolenta. Mas, diante daquela frase, despertei. “Eu quero estar vivo na hora da minha morte”: que forte!

A vida antes da morte… Há vida antes da morte? Ou nem sempre?

Quantos de nós aguentarão, até o fim da vida, a própria vida? Quantos de nós não morrerão pelo caminho, apesar dos olhos abertos, olhos que há tempos já não enxergavam nada? Quantos de nós já não estão sonolentos aos vinte, exaustos aos trinta, moribundos aos quarenta?

Mordo meu pedaço de queijo pensando no autoquestionamento inevitável: estou, eu mesma, viva? Para um cardiologista, uma vida pode ser definida por um coração que pulsa. Para Winnicott e para todos nós, viver é algo que vai muito além dessa vibração no peito. Estar vivo envolve querer viver. Continuar desejando, apesar de tudo, continuar se interessando, apesar de tudo, continuar experimentando, apesar de tudo, continuar, afinal, vivo – apesar de tudo. Quantos de nós não terão desistido antes do fim?

Penso no livro que estou lendo, sobre budismo. Parece que os budistas aceitam bem essa queda de vida durante a própria vida: ao longo do tempo, nosso olhar vai ficando fosco. Talvez seja mesmo impossível para alguém, no fim da sua jornada de décadas, se interessar pela repetição do mesmo, isso para não falar das tragédias, as grandes e as pequenas, as vividas e as observadas. Viver cansa, e muito. Tenho 34 anos e já concordo. As pessoas cansam, os fatos cansam, às vezes eu me canso de mim mesma, às vezes eu me canso de lá de fora.

Viver cada dia como se fosse o último, além de extremamente cansativo, é inviável. Precisamos planejar. Precisamos nos preocupar. Precisamos aceitar que não é todo dia que há muita
vida no nosso viver. Precisamos controlar nossos maus pensamentos, nosso pessimismo inerente à nossa condição de humanos, nossos infindáveis pontos de interrogação. Tudo isso cansa qualquer um. Dependendo do dia, exaure.

Dependendo do dia, porém, tudo cede a uma boa taça de vinho.

Dependendo do nosso olhar, do nosso temperamento, das nossas circunstâncias, das nossas escolhas, tudo cede, ao menos temporariamente,  a uma boa conversa, a um sorriso, a uma leitura, a um sono bem acompanhado no meio da tarde, a um café bem passado na casa vazia e silenciosa em que leio a tal entrevista.

Nosso cansaço parece aumentar ao longo da vida, mas não me parece um aumento linear. Sempre haverá, parece, motivos, razões, ou, se não tanto, pelo menos pausas, intervalos, respiros, risadas lá fora quebrando tanta seriedade interna, uma movimentação interessante para interromper o tédio que vai e volta. Nosso cansaço sobe, mas sobe em espiral. Podemos dar voltas na nossa mesmice, subir aos poucos, descer às vezes, nos nossos dias mais distraídos, quem sabe: por que não? Beirar a morte algumas vezes e renascer em cada uma delas antes da verdadeira morte.  Podemos, de vez em quando, ser capazes de descansar um pouco de tanto cansaço: descansar de verdade, descansar a alma: lavar nosso dentro, mesmo se não conseguirmos tirar todo o pó, mesmo se não ficar como novo. Podemos, afinal, estar vivos no dia da nossa morte, se nos dermos ao trabalho. Podemos?

Bom, pelo menos, é o que pretendo tentar. Se estou viva, quero estar viva. Quando morrer, quero ter vivido. Não apenas dentro do meu peito. Mas no meu corpo, na minha mente, na minha xícara de café e transbordando pelo pires, alguns dias mais, alguns dias menos, mas indo e voltando, interrompendo e retomando, dando voltas e voltas pelo espiral, sem nunca parar de vez: até precisar parar de fato.

 

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  1. emanuel campos - 18 de dezembro de 2014 at 19:57 Reply

    Linda reflexão. Me fez pensar muito no meu avô, que se foi em outubro do ano passado, mas ja tinha ido antes disso, no olhar triste, repetindo sempre que sua hora havia chegado. Às vezes, parece, entregamos os pontos… inevitavelmente.

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