Sobre filhos, carros em zigue-zague e ética

ethics-artHá algumas semanas, uma amiga me contou um caso que me deixou muito tocada, eu diria até perplexa – mesmo sabendo que esse tipo de coisa é comum, mesmo sabendo que casos ainda mais graves estampam as manchetes dos jornais. Mas sou humana, o que posso fazer? A crueldade nunca vai ser inteiramente banalizada para mim, por mais que se repita e repita e repita. Ainda mais quando o assunto envolve uma criança.

Vamos ao caso: uma amiga dela era mãe de uma criança de dois anos quando se separou. Nada mais comum. Depois da separação, porém, ela deu uma pirada e o ex-marido também deu uma pirada. Exatamente como foi a pirada do ex-marido, eu não soube. Mas a pirada da amiga da minha amiga incluía episódios como o que se segue:

Sem ter com quem deixar a criança em uma sexta-feira (nada mais comum – parte 2), a mãe saiu para uma festa com a criança junto. Beleza. Na festa, ela bebeu bastante e ficou alterada a ponto de não se lembrar de que aquele filho era dela. Na hora de ir embora, os amigos insistiram para que ela não dirigisse, mas todos sabemos que o aviso “se dirigir, não beba” só é entendido pelas pessoas que estão sóbrias e nunca pelas que estão sob efeito do álcool, porque, afinal, elas estão sob efeito do álcool e algumas, inclusive, quando bêbadas, chegam a argumentar que dirigem melhor nesse estado.

Bom, a criança entrou no carro da mãe, que dirigiu em zigue-zague até bater levemente num poste – levemente mesmo, porque nesse momento, felizmente, ela estava dirigindo bem devagar. Ela saiu do carro rindo e andou até um posto de gasolina. Quando os frentistas viram que havia uma criança no carro, eles ligaram para a polícia, que chegou ao local e levou criança e mãe para casa. Essa narrativa que conto aqui é uma mistura do relato policial com o da mãe, que, segundo contou para a minha amiga, “não estava tão bêbada assim”.

Essa minha amiga está muito preocupada com ela, que era uma mãe normal e tal até a separação. Dias depois desse episódio do posto, na sala da casa dela, minha amiga tentava convencê-la a cozinhar alguma coisa para o filho, que comia biscoito de polvilho o dia todo. “Deixa, ai, que chatice”, ela respondeu na ocasião.

Como muita gente e como, provavelmente, você que está me lendo (aliás, obrigada), sou da turma do “não dá pra julgar”, “do lado de fora é fácil criticar” etc. Cada um tem suas razões para fazer ou deixar de fazer o que faz, não conhecemos as pessoas a fundo e sabemos, todos nós, que viver é coisa complicadíssima. Quem tem filho, então, sabe bem o que é renunciar a tantas vontades e silenciar tantas urgências pessoais e até mesmo preguiças inevitáveis em prol dos pequenos. Sem contar que um dia é só um dia, né: quem me vê dando cachorro-quente pra minha filha não sabe que geralmente ela come direitinho, que aquele era um dia de pressa e tal. Então, certo, pertenço a essa turma do não me julgue, sobretudo quando estamos falando de mulheres, que já costumam ser tão culpadas por tudo. Mas esse caso me fez pensar.

Me fez pensar, principalmente, sobre quanto o amor pelos filhos é superestimado. Para mim, quando o assunto é criança, o dever está acima do amor, sabe. Tem que estar. Porque o amor fraqueja: fraqueja nos nossos dias de mau humor, fraqueja nas nossas crises existenciais, fraqueja nos nossos momentos mais vazios ou preocupados. Todos conhecemos nossos dias de sentimento cansado ou mesmo de tristeza corrosiva que apaga ou mesmo deforma o outro ao nosso lado. Nesses nossos dias, as crianças têm as mesmas necessidades que tem nos outros. O amor fraqueja, mas o dever não pode fraquejar. Ou, pelo menos, não… deveria.

Não precisamos passar todos os dias alegres e serelepes por termos gerado aquela vida, claro: às vezes, só queríamos apertar um botão de OFF e voltar a ter filhos dias depois. Já perdi a conta de quantos programas deixei de fazer por causa da minha filha, quantas refeições ou mesmo silêncios importantes foram interrompidos. Antes de ser mãe, ninguém nunca havia vomitado no meu pé (eca). Em momentos nada agradáveis como esses, estou longe de ser a melhor mãe do mundo: meu estilo é fazer o que tenho de fazer mas mais calada, na minha. Nesses momentos, sou uma mãe menos entusiasmada e amorosa, sem dúvida, mas não me permito ser péssima: existe uma linha que não me permito cruzar. Às vezes, nesses momentos, suspiro e me lembro de toooodo o tempo e liberdade que eu tinha quando não era mãe e sinto falta disso. Mas passa.

Alguns pais e mães, talvez, se arrependam mais gravemente e precisariam de mais do que um botão de OFF. Por eles, sinto compaixão e respeito, de verdade. Não sei o que eles podem fazer para se sentirem melhor: yoga? Esperar o filho crescer? Beber, meditar ou rezar depois que o filho dorme? Não sei: dar fórmulas e receitas universais vai além do meu alcance e do alcance de todos nós. Sei lá eu como esses pais podem fazer pra se controlarem.

Só sei que não dá para espancar ou negligenciar aquela pequena vida até lá, estampando mais uma manchete terrível no jornal ou abandonando os pequenos à própria sorte em um carro em zigue-zague. Tem coisas nesta vida que não dá pra fazer. Pelo menos não quando se acredita que temos, todos nós, nossas vontades individuais, sim, mas também nosso compromisso ético com todo e qualquer ser humano à nossa volta  – o que dizer quando o ser humano em questão é nosso filho…

 

4 comments to “Sobre filhos, carros em zigue-zague e ética”

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  1. Renan Medeiros (R.M.Owl) - 19 de novembro de 2014 at 22:29 Reply

    Obrigado Liliane. Eu realmente precisava ler isso.

  2. Isabella - 20 de novembro de 2014 at 10:58 Reply

    Nossa, Lili! Que texto bonito.

    Em tempos de tanta romantização em torno das crianças, é muito importante ressaltar que somos humanos. As crianças são humanas (e, por isso, terríveis e maravilhosas ao mesmo tempo) e nós somos super instáveis.

    Sabe o site ThePhilosophersMail? Eles têm um texto sobre o casamento que fala justamente disso. Que os casamentos dão menos certo porque com os filhos nós costumamos dar sem querer receber nada em troca, mas num casamento a gente fica o tempo todo exigindo algo em troca. Somos crianças que querem ter uma ideia de amor satisfeita.

    A gente tem que ter a responsabilidade acima do instável amor em todas nossas relações. Parece tão frio e calculista dizer isso, mas a verdade é que o cotidiano é muito mais de logística e parceria e entendimento e desentendimento do que o que é pregado pelo amor romântico…

    O trecho:

    “We start out knowing only about ‘being loved.’ It comes to seem – very wrongly – like the norm. To the child, it feels as if the parent is simply spontaneously on hand to comfort, guide, entertain, feed, clear up and remain almost always warm and cheerful. Parents don’t reveal how often they have bitten their tongue, fought back the tears and been too tired to take off their clothes after a day of childcare. The relationship is almost entirely non-reciprocal. The parent loves; but they do not expect the favour to be returned in any significant way. The parent does not get upset when the child has not noticed the new hair cut, asked carefully-calibrated questions about how the meeting at work went or suggested that they go upstairs to take a nap. Parent and child may both ‘love’, but each party is on a very different end of the axis, unbeknownst to the child.”

    “This is why in adulthood, when we first say we long for love, what we predominantly mean is that we want to be loved as we were once loved by a parent. We want a recreation in adulthood of what it felt like to be ministered to and indulged. In a secret part of our minds, we picture someone who will understand our needs, bring us what we want, be immensely patient and sympathetic to us, act selflessly and make it all better.”

    “This is – naturally – a disaster. For a marriage to work, we need to move firmly out of the child – and into the parental position. We need to become someone who will be willing to subordinate their own demands and concerns to the needs of another.”
    http://thephilosophersmail.com/relationships/when-is-one-ready-to-get-married/

    Lindo seu texto e achei muito na direção do texto do ThePhilosophersMail (aliás, amo todos os textos de lá).

    Grande beijo!

  3. Renata Junqueira - 26 de março de 2015 at 11:21 Reply

    Eu amei isso “o amor fraqueja: fraqueja nos nossos dias de mau humor, fraqueja nas nossas crises existenciais, fraqueja nos nossos momentos mais vazios ou preocupados. Todos conhecemos nossos dias de sentimento cansado ou mesmo de tristeza corrosiva que apaga ou mesmo deforma o outro ao nosso lado.”

    Comecei a ler seu blog e ver seus videos hoje (alias, agorinha hihi), por causa do video da @cintiadisse, e estou realmente adorando. Parabéns Lili! 😀

  4. Thaís Capusso - 20 de janeiro de 2017 at 20:23 Reply

    Muito lúcida e pontual essa lembrança (porque será que há os que não soubessem?) que o dever deve sim, vir antes de tudo incluindo o amor.

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