Sobre atuar na política ou tocar gaita

downloadHá alguns anos, eu estava com uma amiga aqui em casa tomando chá, comendo bolo e ouvindo música. Em determinado momento, começou a tocar Mallu Magalhães. Foi bem na época em que a cantora (que eu adoro) estava participando de um monte de programas de entrevistas na TV e causando com sua (falta de) desenvoltura nas respostas. Daí a minha amiga falou:

– Essa é aquela cantora supernova e tal?
– É, sim, é a Mallu Magalhães – respondi.
– Cara, vi uma entrevista com essa menina, ela é TÃO alienada.

Daí eu fiz minha primeira defesa à cantora:

– Bom, ela tem o quê, dezessete anos?
– E daí? Eu, com dezessete anos, já era da esquerda, participava de passeata pelo impeachment, fazia parte do grêmio da minha escola, militava pelo PT!!

Então eu fiz minha defesa final à cantora:

– Legal, mas, aos dezessete anos, você tocava violão? Piano? Gaita? Você compunha em inglês?

Então a minha amiga fez o comentário que sempre vou recordar:

– Não, Lili, eu não fazia nada disso, mas pô, o que é mais importante, participar da vida política ou tocar gaita?

Em prol da harmonia do chá com bolo, mudei de assunto – e de trilha musical. À noite, porém, não resisti. Mandei uma mensagem pra ela assim: Logo você, Ju. Você, que não passa um dia da sua vida sem música. Logo você!

Não obtive resposta.

Numa sociedade complexa, em que um número enorme de pessoas se divide em um número enorme de tarefas, temperamentos, histórias de vida e atividades, apenas um certo número de pessoas vai atuar mais diretamente na política. Cobrar que todos sejam bons cidadãos é uma coisa: que não joguem lixo na rua, que paguem seus impostos, que respeitem a faixa de pedestres. Achar que as pessoas devem acompanhar o que acontece à volta delas, pelo menos minimamente, me parece razoável. Cobrar que todos participem diretamente da política, com a mesma dedicação e grau de interesse? Putz, aí acho um pouco demais.

Para quem não leu, “A república de Platão” fala como seria uma cidade ideal. Nessa cidade ideal, a finalidade da vida é a política, a ponto de as mães entregarem seus bebês para o Estado cuidar. O que importa não são as pessoas em sua individualidade, mas o cidadão, o indivíduo como membro de uma coisa maior: a cidade.

Em outras palavras, “A República de Platão” acaba falando sobre o autoritarismo, sobre a repressão extrema à liberdade individual, sobre a ditadura.

Exigir que todos participem diretamente da política, por meio de manifestações, abaixo-assinados, boicotes, passeatas, filiações partidárias etc, e mais, exigir que as pessoas substituam suas gaitas por assembleias, tem esse nome: autoritarismo. Numa sociedade democrática, sempre haverá liberdade para que as pessoas que se interessam por política atuem na política. E para que as pessoas que gostem de gaitas toquem gaitas.

Uma sociedade democrática doente é a que não oferece um solo fértil para que eles, os interessados e atuantes na política, como minha amiga, brotem. E essas pessoas não brotam nem desenvolvem sua formação apenas lendo ouvindo falando assistindo sobre política: minha amiga não só gosta de música como adora chocolate e não perde uma mostra de cinema.

Nos últimos tempos, acho que temos, todos nós, presenciado um aumento de interesse da população brasileira pela política. Há quem diga que essa é uma falsa impressão causada pelas redes sociais: no Facebook e cia o pessoal adora falar de política e tal. Há quem discorde – “Não há dados concretos”, esses podem dizer. E há quem diga que a era democrática pós ditadura está se consolidando ou que o gigante acordou. De todo modo, a crença que o brasileiro é alienado em relação à política parece estar se esvaindo. E o esvair dessa crença, na minha opinião, é positivo. Mas, nesse contexto, vejo surgindo aqui e ali discursos (e na maioria das vezes não passam disso – discursos, falatório abstrato e vazio) que dão a entender que a finalidade da vida é a política. Que todo ato é político. E que política é que importa.

Sim, a política importa e muito. Mas a vida sempre vai ser mais vasta do que a política, uma vez que a política é parte da vida – essa, sim, a “coisa maior”, e não a cidade. Tomar um café importa. Ficar com nossos amigos e criar nossos filhos é importante, como disse Amos Oz. Amar é importante. Dançar é importante. Aliás, se nada disso importasse, que valor, afinal, teria a vida na cidade ou a política?

Quem diz que participar da política está acima de tudo, como disse minha amiga, talvez devesse prestar mais atenção ao som da gaita que ouve.  Quem diz que todos deveriam largar o que está fazendo e ir para as ruas em uma noite de manifestação deveria se abrir mais às variedades de rotinas, compromissos pessoais e temperamentos. E quem diz que todo ato é político bem que poderia se deixar tocar pela delicadeza da gradação, da nuance, das matizes:  se todo ato é político, vamos concordar que ir a uma manifestação é um ato mais político do que, digamos, passar manteiga no pão.

Sei lá. Gosto é gosto, mas eu, pelo menos, acho legal viver em uma sociedade em que todos nós possamos passar manteigas nos nossos pães em paz.

 

6 comments to “Sobre atuar na política ou tocar gaita”

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  1. Cinthia - 8 de outubro de 2014 at 11:27 Reply

    Acho que nem todos precisam ser cientistas políticos, mas todos deveriam se importar para não serem alienados. Tudo bem você não ser militante e não dedicar com a mesma garra, mas acho perigoso fazer essa defesa. Você pode tocar gaita e saber dos seus direitos e se interessar por política SIM. Ainda mais sendo músico. Onde tocar gaita? Como? Quais são meus direitos? hahaha Política influi em tudo na nossa vida.

    • Liliane Prata - 8 de outubro de 2014 at 16:15 Reply

      Concordo super! Todos deveriam se interessar por política. Só acho que há graus, sabe. Respeitando temperamento, escolha profissional etc, sem a obrigação de ser “expert”, de estar por dentro de absolutamente por tudo, engajado em cada assunto etc

  2. madá - 12 de outubro de 2014 at 7:41 Reply

    Concordo com você, Lili. Pode me chamar pra tomar café (não curto chá) e comer bolo ouvindo Mallu Magalhães (adoro ela).

  3. Renan Medeiros Costa - 2 de novembro de 2014 at 19:42 Reply

    Na sociedade de hj? Difícil, se tu passar cabeça de touro vão lhe chamar de louco e que está querendou se matar. Se passar light vão dizer que não tem gosto de nada. Rs

    eu acho que se todos sentissem a música de verdade o ser humano nanão seria tanto inútil

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