Saindo da casa dos pais

master-yourself-and-your-feelings_10-things-you-can-do-to-be-independentTenho uma amiga que se mudou para São Paulo na mesma época que eu, há quase uma década. Diferentemente de mim, porém, ela acabou voltando para a sua cidade natal há uns três anos. Eu me lembro bem da pergunta que ela me fez, apreensiva, quando resolveu, por força das circunstâncias, encerrar o contrato de aluguel e fazer as malas: “Vou conseguir ser eu mesma em Brasília?”. Imediatamente, entendi o que ela quis dizer. Acho que todos nós, imigrantes ou não, entendemos.

Longe da cidade onde crescemos, nós nos distanciamos das nossas origens não apenas geograficamente, mas internamente: vamos para longe dos nossos antigos padrões de comportamento, nossas idiossincrasias mais engessadas, nossos jeitos repetidos de ver o mundo. Não importa onde more, o viajante também vivencia isso – quanto mais longe e menos familiar for o destino, melhor. Assim como todos aqueles que já saíram da casa dos seus pais.

Mudar-se de cidade, viajar para longe: tudo isso é, no fundo, sair da casa dos pais. Descascar-se das características que se tornaram nossas não porque as consideramos as melhores, mas porque estamos habituados. Estar a sós com as próprias regras.

Lembro de uma passagem do livro “A elegância do ouriço”, de Muriel Barbery: “E eu? Será que meu destino já se vê na minha testa? (…) Mas e se, no universo, existir a possibilidade de nos tornarmos o que ainda não somos… será que saberei agarrá-la e fazer de minha vida um jardim distinto do de meus pais?”

Sair da casa dos pais e se mudar para a mesma rua ou para outra cidade é fundar, dentro de nós mesmos, nosso próprio país. Mas esse não é um país onde ninguém entra. Semana passada, mesmo, minha família passou alguns dias aqui em casa. E, como acontece sempre comigo, e como minha amiga temia que acontecesse permanentemente com ela, eu me vi, de novo, ressurgir uma parte de mim há muito adormecida. São detalhes, talvez ninguém perceba além de mim mesma – são apenas traços meus que, independentemente de serem bons ou ruins, estavam distantes. Falo de algumas reações automáticas, alguns medos que eu há muito não sentia. Volta o contato próximo com os meus, volta parte de minhas origens. Meu sotaque mineiro, então, esse volta rápido como um bronzeado nas férias.

Alguns mais, outros menos, todos nós mudamos ao longo da nossa história pessoal. Mas talvez nossas versões antigas nunca sejam sepultadas: elas apenas dormem um sono profundo e despertam a cada objeto de infância encontrado e cheirado, a cada vez que voltamos à nossa escola para votar ou à nossa cidade natal, a cada visita sem pressa no nosso antigo quarto na casa dos nossos pais.

“Você já é você mesma”, eu respondi à minha amiga apreensiva, para quem retornar à Brasília era retornar não apenas geograficamente às suas origens. Todos nós, adultos, já somos nós mesmos. Embora não durante 100% do tempo… Mas, ora essa, existe algo que somos durante 100% do tempo?

 

3 comments to “Saindo da casa dos pais”

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  1. Renan Medeiros Costa - 3 de novembro de 2014 at 1:16 Reply

    Sinto-me mais livre longe dos familiares.

  2. Maria - 3 de novembro de 2014 at 12:18 Reply

    Bom dia, Liliane. Primeiramente parabéns pelo blog, é o meu preferido!!!! Gosto muito de você, te acompanho desde a capricho (você deve escutar muito isso, né?).
    Enfim, não sabia por onde pedir essa sugestão. Vi que nos últimos vídeos você sugeriu três livros pra sair na nossa zona de conforto. Mas, na verdade, queria que você indicasse, sei lá, uns 12 livros (um pra cada mês do ano que vem) que todo mundo deveria ler um dia. Pensei nos clássicos, mas queria sugestões q mudassem a gente, sabe? Faz um tempo que não leio um livro bom assim. Aliás, me considero leitora de um autor só, Gabriel García Marquez e queria me aventurar por outros autores.
    Ficou grande o comentário, desculpa. Era isso, beijão =)

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