Dia dos pais

Homer_Simpson_Vector_by_bark2008Ontem a escolinha da minha filha organizou um evento chamado “Dia da Família”. No dia das mães, o evento se chamou “Homenagem às mães”, mas agora, no dia dos pais, os pais viraram “Família”. A justificativa foi que muitas crianças são filhas de pais divorciados e eles acabam não indo ao evento, e outras, ainda, não têm uma relação com o pai. Então, no Dia da Família, quem não tem pai pode caçar com tio, avô etc.

Lembrei da exposição que a turma da minha filha fez no início do ano. As famílias foram convidadas a visitarem as obras em um dia específico, mas esse dia era no meio da semana, no horário da aula, o que dificultava a vida do pai e da mãe que trabalha. Consegui ir e não pude deixar de perceber que estavam presentes 17 mães e 2 pais, um deles o da minha filha.

Lembrei também de quando minha mãe, professora, comentou comigo sobre seu espanto ao saber da péssima alimentação que os alunos recebiam nas férias. “Mães que, na correria, só fazem Miojo, mães que não criam o hábito de comer frutas em casa, mães que não têm tempo para o filho”. Depois de ouvir a palavra “mãe” umas 1453 vezes, perguntei: “E o pai dessas crianças?”. Minha mãe responde: “Não sei do pai, o que é que tem o pai?”

Último caso, esse já contei aqui: V., empregada doméstica que trabalha na casa de uma amiga minha, um filho. Ela pede demissão contrariada, dizendo que a mulher que pegava o filho pra ela na escola não vai poder fazer mais isso. Diz que adora o trabalho e não quer ficar em casa o dia todo, mas tem que pedir demissão. Minha amiga pergunta a ela: “E o seu marido? O que ele faz, mesmo?”, “Ele é pedreiro”, “Mas ele tá em alguma obra agora?”, “Não”, “Por que ele não busca o filho de vocês?”, “Ih, dona Isabella, ele diz que isso aí é problema meu, eu que tenho que resolver.”

Esses casos mostram como ainda é forte o peso da tradição: cuidar filho é tarefa da mãe. São poucas famílias que fogem à regra.

Não que fugir à regra seja obrigatório. Pessoalmente, acho que o ideal é que cada família faça o arranjo que lhe for mais conveniente, sem se preocupar em corresponder ou deixar de corresponder ao papel social esperado, sem se preocupar em ser conservador ou liberal. O que acho triste são casos como o da empregada V.: casos em que a mulher se vê obrigada a cumprir quase que sozinha um papel que pode muito bem ser dividido com o homem que encara a paternidade com comprometimento. Aí temos uma situação bem desigual: de um lado, uma pessoa sobrecarregada por uma questão de gênero, de outro, alguém que assiste àquilo passivamente – no meio, os filhos.

Neste dia dos pais, parabéns aos pais que, trabalhando muito ou pouco, com muito ou pouco tempo disponível, não sobrecarregam as mães de seus filhos apenas pelo simples fato de elas serem mulheres e serem, “portanto”, “responsáveis” pelos pequenos. Parabéns aos pais que enxergam no seu papel a mesma importância da mãe e que dividem as tarefas do modo que funciona melhor para os dois. Para mim, vocês, pais, são fundamentais para os filhos. Tanto quanto nós!

Meu parabéns especial para o pai da minha filha, alguém que nunca me ajudou, sempre dividiu. E para o meu pai, sempre presente, pessoalmente ou por Whatsapp, do meu primeiro dia de vida até agora =)

P.S.: escrevi esse texto hoje no meu Face, mas como muita gente gostou e alguns até me mandaram e-mail comentando, botei aqui.

 

8 comments to “Dia dos pais”

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  1. Kris Arruda - 11 de agosto de 2014 at 15:13 Reply

    Demais o texto, Lili.

    Mas que tristeza senti ao ler o primeiro parágrafo. Não sei se é só nostalgia, mas nem um “Dia dos Pais” vamos poder ter mais? E pior ainda a justificativa para isso ser pais ausentes.

    Complementando tudo que você falou, mais ainda do que responsabilidade, acho que o pai tem que querer cumprir essas tarefas também. Tanto por querer aliviar a barra da mulher como para curtir o dia-a-dia da criança.

    Mas como ainda não tenho filhos, tenho de ficar longe de opiniões definitivas. Quando eu tiver os meus posso mudar de idéia.

  2. Pérola - 13 de agosto de 2014 at 16:20 Reply

    Lili, acompanho seu trabalho há muitos anos, desde os tempos da revista Capricho e do blog anterior, mas nunca fiz um comentário para te falar o quanto você marcou minha adolescência.
    Seus textos atuais sobre maternidade são muito interessantes ao se contrapor a essa visão atual que as mulheres são “monstras” por não se dedicarem integralmente aos filhos e isso é ótimo para aliviar a consciência pesada de tantas mães por aí!
    Depois de ler este texto, quero compartilhar um outro que eu li sobre uma mãe que permitiu que o filho fosse morar com o pai e – adivinha? – foi muito criticada por isso! Esse é o link da matéria publicada na revista Época, mas o blog dela também é demais!!!

    http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/08/bnao-sou-uma-mae-piorb-porque-meu-filho-mora-com-o-pai.html

    Um beijo!

  3. Diana - 4 de setembro de 2014 at 17:39 Reply

    Belo texto! Sua filha será muito sortuda, assim como você, por ter um pai presente…

    Por falar em sorte, sou muito sortuda também por ter comprado certa vez a revista Capricho e assim conhecer os seus textos…

    Desde então acompanho o blog, desde quando era aquele outro, com temas mais adolescentes. É bom acompanhar alguém que curtimos na adolescência e que, assim como a gente, vem crescendo e escrevendo sobre as novas fases da vida.

    Nunca pare de escrever, Lili. Os seus textos são claros e fazem uma diferença enorme pra quem lê.

    Beijão,
    Diana

  4. Renan Medeiros (R.M.Owl) - 3 de novembro de 2014 at 2:12 Reply

    Não sei se é por ser taurino, ou por ter sido criado exclusivamente e unicamente pela minha mãe, ou por não ter tido uma infância e adolescência em contato com o meu pai. A questão é que com o nascimento da Maria Clara, minha filha, prometi a mim mesmo que não seria um pai como vários que vejo por ak na minha cidade. E mesmo com o fim do meu relacionamento ainda cumpro fielmente a minha promessa (e sem tem uma coisa q eu levo a sério na minha vida são promessas).

    E seu texto foi maravilhoso Lili (quanta intimidade né? Rsrs) e está guardado com carinho no meu coração.

  5. Renan Medeiros (R.M.Owl) - 3 de novembro de 2014 at 2:31 Reply

    1. Amei a foto do Homer, um dos personagens que mais amo. Porem acho ele melhor pai que muitos que conheço.

    2. Fiquei feliz por saber que tem whatsapp. Mas sei que o pessoal da alma cúpula literária não passaria um contato desse gênero para um simples mortal. Então não serei inconveniente em pedir. Mas, quem sabe, se um dia eu for elevado até o monte Olimpo não terei a honra de poder comunicar-me com vc por aplicativo bem mais acessível a minha realidade virtual. Kkkkkkk

  6. Carlos Motta - 15 de abril de 2015 at 7:11 Reply

    Nossa adorei o texto !
    Na verdade nao tenho filhos , talvez nunca faça filho(s) voluntariamente mas realmente , adorei tua fala …
    Sou homem e reconheço a “facilidade” irresponsavel que temos em nossa sociedade com relaçao a ser pai …
    Essa relação hoje é muito sustentada por incrivel que pareça pelas religioes que temos hoje .
    Liliane , conheci teus videos ontem , teu site “agora” , muito bom .
    Voçe é linda !
    tchau …

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