Coisa de mulherzinha?

vintage-fashion-style-ladies-women-hair-makeupHá alguns anos, rolou na internet um teste para ver se o nosso cérebro era mais masculino ou feminino. Toda a minha timeline do Twitter e do Face estava fazendo, recebi o teste por e-mail etc etc. Fiz o teste – claro. Afinal, os testes não costumam provar muita coisa, mas, como todos sabem, são irresistíveis – e, além do mais, não sei bem por que, a gente adora ter um atestado, mesmo que fictício, de quem a gente é de verdade/qual nosso pior defeito/nossa maior qualidade/qual nosso grau de gula/demais coisas testáveis.

Bom, sem mais delongas. Sinceramente, não lembro resultado do meu teste – se não me engano, meu cérebro foi considerado nem lá nem cá, nem mulherzinha nem viking, ou seja, um resultado sem-graça (o legal dos testes é quando dão resultados extremos, né). O que me impressionou na época, e voltou a me impressionar agora, foi que uma porção de mulheres da minha timeline começou a se vangloriar de seus cérebros considerados masculinos. Enquanto os homens, adivinha, também se vangloriavam de seus cérebros atestados como bem machos. Quanto mais masculino, mais a galera comemorava.

Ninguém queria ter um cérebro feminino.

O que é um cérebro feminino?, Fiquei me perguntando. Pelas perguntas do teste, e também pela nossa tradição histórico-filosófica, etimologia das palavras, cultura etc etc, o feminino está ligado à sensibilidade, ao lirismo, à compaixão, à ternura, ao amor maternal, a um espírito conciliador. O masculino, o viril, está ligado à força, à coragem, a um coração destemido, cheio de garra. A mulher cuida da prole com carinho, o homem provê essa mulher e essa prole – tradicionalmente, é essa a lógica. Nos meios mais conservadores, garotos pequenos não devem usar roupas com estampa de flores, o cara que gosta muito de poesia é “viado”, a menina deve ser delicada e o menino, bom de briga.

De modo geral, na minha opinião, tanto o feminino quanto o masculino levados ao extremo são perigosos. A feminina radical vira uma flor indefesa, que se desmancha sem a presença do pai, marido ou chefe por trás. O masculino radical vira um Walter White – na ânsia de se autoafirmar como homem, o protagonista de Breaking Bad vai ferrando a própria vida e destruindo os vínculos ao seu redor. A força do feminino e do masculino se completam dentro da gente. Isso na minha opinião e, parece, na dos taoístas.

Completam-se porque todos têm o feminino e o masculino dentro de si. Em diferentes graus e independentemente do sexo. Todos sabemos por experiência que características tidas socialmente como masculinas não são privilégio dos homens, assim como o feminino não é exclusivamente nosso. Feminino e masculino estão, acima de tudo, não no gênero, mas nos indivíduos: o discurso de um homem pode ser bem feminino, uma garotinha pode perfeitamente ser mais destemida do que seu irmão mais velho e tenho certeza de que se Carlos Drummond de Andrade tivesse feito aquele teste o resultado seria um cérebro pendendo para o feminino, porque suas poesias exalam uma sensibilidade que pode nos emocionar a ponto de quase chorarmos – e sensibilidade, emoção, choro ou quase choro, tudo isso entra no pacote rosa da humanidade.

O feminino não é nosso. O feminino é dos homens, das mulheres, do mundo, dos poetas, das flores. O feminino é o apartar das brigas, o fim das guerras, o retorno dos filhos para os braços de suas mães. O masculino se lança à guerra, o feminino se choca com os corpos ensanguentados.

Voltei a divagar comigo mesma (e agora, com vocês, neste texto) sobre um teste que vi já faz tanto tempo por causa de um texto que li recentemente que não tem nada a ver com feminino ou masculino. Em Análise de uma situação social na Zululândia moderna, o antropólogo Max Gluckman fala da convivência conflituosa entre os zulus e os ingleses na África do Sul dos anos 50. Em determinado momento do artigo, o autor discorre sobre o fato de um povo que vivia sem pensar na cor da própria pele – os zulus – ser cada vez mais oprimido pelo racismo ditado pelos colonizadores. Nesse contexto, ser branco passou a ser sinônimo de ser superior e ser negro, inferior. E então Gluckman escreve:

“(…) Podemos dizer que, quando os membros (especialmente a elite) de um grupo cultural inferior não podem entrar para um grupo cultural superior, tenderão a adotar todos os costumes do grupo superior que puderem, esperando assim conseguir igualdade. Essa é uma das principais forças sociais que induzem zulus à conversão”.

Zulus não podem ser brancos. Brasileiros não podem ser europeus. Mulheres não podem ser homens. Adotamos hábitos e características ligadas ao masculino não porque esses hábitos e características fazem parte da personalidade de cada uma de nós (que já pode, naturalmente, tender mais ou menos ao masculino), e sim quase que por sobrevivência, pelo menos no mercado de trabalho – no trabalho, não podemos chorar, temos que ser competitiva etc etc. Mas fora do mercado de trabalho também?

Fora do mercado de trabalho, é este o cenário que vejo cada vez mais: mulheres se vangloriando de seus discursos masculinos e se envergonhando do seu lado feminino. Veja o caso do futebol.

Futebol, esporte tradicionalmente masculino, geralmente é visto como coisa séria – silêncio na sala, por favor. Jornalistas esportivos são respeitados, muitas mulheres que gostam de futebol se vangloriam disso, é raro alguém classificar um campeonato brasileiro ou uma mesa redonda como uma “bobagem”, pelo contrário – se você não entende nada do assunto, pode ser taxado de desinformado.

Por outro lado, assuntos que, tradicionalmente/talvez estatisticamente, interessam mais às mulheres, como moda ou maquiagem, causam riso ou condescendência. São assuntos menores, como a Bárbara fala nesta entrevista interessante. Não é raro uma mulher que curte futebol rir de suas companheiras de gênero que se interessam por roupa ou maquiagem. Jornalistas que cuidam desses assuntos são frívolas e mais: quem não entende de nada desses assuntos pode ficar tranquilo, porque pega bem não entender dessas bobagens. Assim como o futebol, moda e beleza fazem parte de uma indústria bilionária. Mas têm status diferentes.

Pedindo licença para generalizar bastante e me ater “ao grosso”da população… Filme de ação é legal. Romance açucarado é besteira. Mulher que gosta de filme de menino é cool. Menino que gosta de filme de mulher é “Oi?”. Futebol é coisa séria. Novela, moda, coisinhas relacionadas aos filhos, a delicadeza ou a beleza em geral – isso tudo é futilidade, é coisa de mulherzinha.

Cuidado: o feminino não pega bem. Uma pena.

 

5 comments to “Coisa de mulherzinha?”

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  1. Emanuel Campos - 25 de julho de 2014 at 16:06 Reply

    Esses testes não funcionam… o meu também foi eleito “nem lá, nem cá” e todos sabem o que o meu cérebro é feminino… 😉 Excelente texto e pertinente discussão.

  2. Roberto - 25 de julho de 2014 at 17:56 Reply

    E você não imagina o quanto é complicado para nosso lado. Outro dia mesmo compartilhei uma foto de um quarto que julguei bacana. Me pareceu confortável e sofisticado ao mesmo tempo, sem ser ostensivo ou resvalar para o brega. Alguns amigos me comentaram se agora estava eu gostando de decoração..rsrs Levei na boa, pois conheço a molecagem dos meus parceiros de copo e de cruz. Mas ai, minha cara você já pode ter uma idéia como não é acil para ninguem. Nem masculino e nem feminino..por falra nisso; hoje é noite de vinho??

    • Liliane Prata - 25 de julho de 2014 at 18:58 Reply

      Já desafiei meu irmão a passar a tarde com os amigos sem usar o termo “coisa de gay”. Ele não teve sucesso! Qto ao vinho, hj acho que vou passar, já tomei demais está semana. Bjim

  3. Renan Medeiros (R.M.Owl) - 3 de novembro de 2014 at 2:45 Reply

    Aaaaahhhh eu amei seu texto. Vou compartilhar no zap zap. Porem, o q eu adorei não foi o tema central mas algo dentro dele: a aquisição de cultura por acreditarmos sermos inferiores.

    isso me abriu a mente pra mts coisas.

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