Perdida em SP

transito-estressadoOs motoristas não podem se perder em São Paulo.

Faz algum tempo que percebi isso: quem dirige aqui tem que saber muito bem aonde vai, ainda mais em tempos de GPS. Moro aqui há nove anos e amo esta cidade, mas que eu não me perca por estas ruas: isso, ela não permite.

Notei esse fato num dia em que nem era eu ao volante. Era o meu marido que tentava achar uma rua desconhecida por nós dois. Quando ele diminuiu a velocidade, o motorista de trás começou a buzinar. Meu marido ficou extremamente irritado e eu, sem entender: não pode procurar rua?

MAS na semana seguinte, foi a vez de o meu marido ficar extremamente irritado com o motorista da frente. Motivo: a rua, dessa vez bem conhecida por nós dois, parecia nova para o coleguinha da frente. Haja xingamentos (buzinar, ao menos, meu amado não buzina). Aproveitei para perguntar para ele:

– Afinal, qual é o protocolo nesta cidade para quem está procurando um endereço?

O Marcos é desses paulistanos que detestam quando falam mal da cidade dele. Eu, que me mudei para cá porque quis, tenho uma filha paulistana e não pretendo voltar para a minha cidade natal, ou seja, eu que, como tantos, adotei São Paulo, sempre acho que tenho um crédito, mas é só minha imaginação.

– Não pode. Tem que sair de casa sabendo pra onde vai.

Achei meio maluca essa resposta dele. Porque, mesmo que você saiba chegar exatamente a determinada rua que você não conhece, mesmo que você tenha estudado o mapa e ligado o GPS… É inevitável diminuir a marcha ao chegar lá e procurar o número do lugar aonde você vai pela primeira vez ou está voltando depois de muito tempo.

– Biiii! – buzina o motorista do carro de trás, agora que estou dirigindo e parando numa garagem.

Ah, não, aí já é demais, penso eu. Não posso procurar endereço, já entendi, mas não posso parar numa garagem? A casa fica na rua Manduri, uma travessa da Faria Lima, e é uma rua estreita, com uma pista só. Preciso, veja bem, parar nessa casa. Como vou fazer isso sem interromper momentaneamente a passagem do carro de trás? Sob o som da sua buzina, enfio o carro de frente na vaga (de ré, nem em sonho). O motorista sai buzinando.

– Ah, não, puta que o pariu! Vai logo! – grita o meu estimado marido para o motorista da frente.

Estamos indo pegar nossa filha na escola e o motorista da frente, coitado, está fazendo uma baliza. De novo, numa rua em que só passa um carro de  cada vez. Meu marido só esbraveja, mas o motorista atrás da gente começa a bunizar, e o outro, e o outro… Até que o motorista desiste da baliza (e pegamos a vaga dele. E, obviamente, buzinam para nós).

Não se pode procurar endereço. Não se pode estacionar.

Ainda bem que, pelo menos, dá para dar uma corridinha sem buzina nem carro no parque do Ibirapuera.

 

2 comments to “Perdida em SP”

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  1. Au Sonsin - 9 de junho de 2014 at 9:01 Reply

    Hahaha, tudo muito bom!!!
    Nem acredito que achei esse blog. Visitava o site da Lili há muito muito tempo atrás <3
    Crônicas perfeitas <33 Favoritei aqui já!

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