O orgulho dos fracos e oprimidos

crying girl cartoonHoje li uma coluna na Folha em que a autora contava que, na escola, era magrela, esquisita e sofria bullying. Lembrei de uma vez em que, assistindo a uma mesa com escritores, vi um dos debatedores discorrendo longamente sobre sua infância e juventude de outsider – ou simplesmente esquisitão. Não foram as únicas vezes em que vi um autor que, escrevendo ou falando, coloca-se numa posição desprivilegiada. Impressão minha ou o pessoal que escreve curte assumir publicamente suas inseguranças, expor suas dificuldades e erros?

Quando eu era colunista da Capricho, um texto meu que fez sucesso entre as leitoras era sobre como fui feia na adolescência e cheguei a vencer um concurso que elegia a mais feia da classe. Às vezes, numa rodinha, comento que meu marido é da periferia de São Paulo, que a mãe dele era ascensorista e o pai, pintor de parede. Como tantos outros, inconsciente ou conscientemente, tento conquistar o outro expondo minhas mazelas particulares – quando nenhuma delas me vem à memória, pego uma emprestada do meu marido.

Saindo do universo das crônicas e colunas, vejo humoristas rindo de si mesmos e, assim, provocando o riso alheio. Atrizes carismáticas ficam mais carismáticas ainda quando contam como seus casamentos são comuns e, por vezes, até entediantes. Como usam chinelo e moletom em casa. Prendem o cabelo em um coque. Postam uma foto no Instagram com olheiras e sem maquiagem. É, não estamos falando apenas de escritores: parece que rir de si mesmo é um recurso eficaz para cativar a plateia.

No Poema em Linha Reta, Fernando Pessoa escreveu que nunca tinha conhecido alguém que tivesse levado porrada. Não sei se foram os tempos que mudaram ou eu que estou vendo coisas, mas esse negócio de expor as próprias dificuldades chegou a um ponto tal que dificilmente vejo alguém que teve uma vida fácil, tranquila, principalmente se estamos falando de pessoas públicas/famosas. Onde estão essas pessoas?

Nas entrevistas, filhos de escritores ou atores contam como, apesar dos pais famosos, o sucesso não veio fácil. A modelo nasceu linda, mas ralou muito até chegar lá. Aliás, ela vai fazer questão de lembrar que era feia e desengonçada na escola e todo mundo ria dela (o que diminui bastante o impacto da minha saga pessoal, afinal, eu não ganho mais concurso de feiura por aí, mas não virei a Gisele Bündchen). Dificilmente alguém comenta que deu sorte de nascer belo ou se diz grato e feliz pelo parente famoso que abriu muitas portas. Pelo contrário, o filho famosinho gosta de dizer que os pais, famosões, não tiveram nada a ver com sua escolha pessoal de carreira.

É, parece que boa parte do pessoal adora uma história com lágrimas e sangue (ok, menos). Acho que meu texto na Capricho não teria conquistado tanta simpatia se, em vez de falar da minha vitória no concurso de feiura, eu discorresse sobre, digamos, o carro que ganhei aos 18 anos.

Moramos em um país que tem um dos maiores índices de desigualdade do mundo e, talvez por isso, aqui a fraqueza e a opressão tenham um cartaz ainda maior que em outros lugares. Ao que parece, somos viciados em usar a dor para justificar a nossa existência. Morremos de vergonha dos privilégios que tivemos. Precisamos deixar claro que nos esforçamos muito para chegar aonde estamos. Hoje estou usando esse relógio, mas já passei fome. Tenho o cabelo lindo, mas uso óculos. Sou forte, mas sou baixinho. Sou rica, mas perdi a avó muito cedo. E é essa dor que importa.

Não são só os entrevistados na TV. Lembro da amiga de uma amiga que não perdia a oportunidade de dizer que cuidava dos filhos sem babá e que vivia exausta. Ela morria de vergonha de ter ganhado um apartamento de herança: quando minha amiga, que alugava um quarto no Butantã, comentou com ela, na minha frente, que “ah, pelo menos você ganhou seu apartamento, não paga aluguel”, a amiga dela ficou vermelha. De vergonha. Talvez também de raiva.

Outro dia, vi alguém falando muito bem do seriado juvenil “Pedro e Bianca”, que passa na Cultura. Vi e amei: é muito bom mesmo. Mas foi inevitável pensar se o seriado seria tão premiado e elogiado se, em vez de jovens de periferia, abordasse a vida de jovens que estudam em um colégio de classe média alta. Me arrisco a dizer que ele não só não seria tão elogiado como seria criticado por muitos. Os prêmios são internacionais, alguém pode dizer. É, tem razão – me pergunto se o fato de o mundo ser tão desigual aumentou o cartaz da opressão globalmente. Filmes alegres são criticados por não mostrarem a realidade. Filmes tristes, sim, mostram a vida como ela é. Na ficção, pessoas pobres despertam nossa compaixão; gente endinheirada, nosso desdém. A não ser que o milionário em questão, claro, esteja morrendo de câncer. Aí ele ganha a nossa simpatia.

Pessoalmente, acho que todo mundo, rico ou pobre, feio ou bonito, conhece a dor e a frustração, o riso fácil e a sensação de bem-estar. Nesta vida, alguns comem um pão mais bonitinho, outros mais zoados, mas que o Diabo amassou todos em algum grau, amassou. Em todo caso, se for para falar de si em público, melhor focar nos nossos percalços – ou pode pegar mal para o nosso lado.

 

10 comments to “O orgulho dos fracos e oprimidos”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Alana - 17 de junho de 2014 at 23:19 Reply

    Me peguei adotando esse tipo de comportamento há alguns meses, mas depois percebi o quão prejudicial era. Quando a coisa se agrava, a gente acaba se fazendo de vítima propositalmente, pra lá na frente poder discorrer todas as dificuldades que superou. O que falta é equilíbrio. Porque ninguém suporta aquele fulano que conta vantagem toda hora, mas ainda pior é aquele amigo que faz da vida um grande drama mexicano, como se tudo tivesse sido muito, muito difícil.

  2. Vitória Kanaan - 17 de junho de 2014 at 23:33 Reply

    Sabe quando um texto traduz algo que você nunca tinha parado para pensar, mas concoda plenamente? É exatamente isso que senti quando li esse. Muito bom!!

  3. Bruna Carolina - 18 de junho de 2014 at 8:31 Reply

    Acho que ter pena de si mesmo é uma das piores coisas que podemos fazer, mas fazemos o tempo todo, até involuntariamente. Mas o difícil é ser ao mesmo tempo a pessoa que não tem pena de si, mas também não conta vantagem… Estamos todos em um beco sem saída.

  4. Larissa Rebouças - 18 de junho de 2014 at 18:34 Reply

    Sabe, é realmente verdade que tudo o que traz a tona o miserável, o doente ou o insano faz sucesso com as massas. É meio que ‘modinha’: Não vi até hoje uma cantora que é pop entre os jovens-adultos, não dizer que sofreu bullying. Ah, por favor. Isto é o que é conhecido por apelação para ter notoriedade. E é uma chatice. O problema é que a gente copia esse comportamento e o usa como defesa, mesmo que não haja acusação. Se não temos nada para falar, sempre tem alguém com alguma história triste a ser usada. Vamos ser honestos, também temos orgulho dos fracos e oprimidos. :/

  5. Joana - 18 de junho de 2014 at 22:49 Reply

    Ótimo texto.. Sempre pensei sobre isso e é muito bom saber que não estou só!

  6. Jonas - 25 de junho de 2014 at 15:52 Reply

    Acredito que você tenha alguns vários roteiros. O que eu não sei é se você precisaria disto aqui: http://netlabtv.com.br/

    Mas pelo sim e pelo não, taí. ; )

  7. annie - 25 de julho de 2014 at 23:51 Reply

    A desigualdade social é muito forte. O problema é como tratá-la. Como o governo e a sociedade a veem. É pensar nas coisas que te ocorreram e agradecer e a vida não esta facil para ninguem.

Deixar comentário

Your email address will not be published.