Caso perdido

6c2cf0b11f51f823d5f338fad8f3c1e0Minha mãe, já devo ter comentado aqui, é professora aposentada (assim como meu pai, aliás, mas a ideia deste texto partiu de um caso contado por ela). A vida toda, ela deu aula em duas escolas públicas de Belo Horizonte.

Há algum tempo, numa conversa pelo telefone, ela comentou comigo uma história que a marcou. E a história acabou me marcando também, pois nesse “há algum tempo” estão embutidos uns bons anos e, até hoje, ainda me lembro bem das palavras dela.

Pois bem, o que ela me contou lá atrás, que ainda ecoa em mim hoje, é o seguinte:

Havia numa das escolas em que ela trabalhava um menino de uns seis, sete anos que não falava com ninguém. Não era mudo, mas era como se fosse. Mesmo quando falavam com ele, permanecia calado.Os professores sabiam que ele vinha de uma família tumultuada, para dizer o mínimo. Ia e voltava para a escola sozinho. Não interagia com os colegas. Não respondia aos professores. Durante as aulas, olhava para frente, mas sempre distante. Mal anotava o que escreviam no quadro. Não fazia o dever de casa, respondia poucas questões nas provas e com poucas palavras.

Esse garoto não era aluno da minha mãe, que, na época, dava aula para o ginásio. Um dia, ela o viu no pátio e, de cara, percebeu seu comportamento diferente. Era intervalo, as crianças brincavam ou conversavam, mas o menino estava isolado em um canto.

– Você conhece aquele menino? Por que ele está assim? – minha mãe perguntou a uma colega dela, outra professora.
– Ele quem? Ah, o Michel. É aluno meu. Não esquenta a cabeça, não. Ele é sempre assim.
– Sempre? Mas por quê? Você conhece a família dele?
– Sério, esquece. Esse aí é um caso perdido.

Minha mãe me contou essa história porque eu, por minha vez, estava contando a ela os casos que me foram contados pela senhora deste post. Essa senhora dividiu comigo algumas situações que vivenciou quando trabalhou na Fundação Casa. Em determinado momento, ela me disse que algumas pessoas são marcadas tão a fundo pela vida que não se recuperam mais. Como um vaso quebrado, partiram-se de modo irreversível. Não há conserto que tampe as rachaduras ou escondam aquela história: examinando-se de perto ou de longe, sabe-se que houve um estrago ali.

Já a minha mãe não concorda com ela. Do seu inventário pessoal, tirou essa lembrança dos tempos em que dava aula. E me disse que, naquela tarde na escola, não soube por quem sentiu mais compaixão: pelo garoto ou por aquela professora. Aquele garoto que ela não chegou a ver novamente. Aquela professora que, ao que parece, não sabia que, enquanto se está vivo, o martelo ainda não foi batido.

 

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