O porta-retrato

g_400xN.13595Na infância, ele apanhou do pai muitas e muitas vezes.

Se você perguntar para ele sobre isso, provavelmente ele vai virar os olhos, dizer uma generalidade qualquer, como “águas passadas” – ele usa muito essa expressão, “águas passadas” –, e então mudar de assunto. Mas, no fundo, ele sente. No fundo e no raso: quase todos os dias, ele se afoga nisso. Às vezes, ele se lembra das surras de vara, mas sempre do emaranhado todo da dor. Ele sabe que foi uma criança triste. Um menino que vivia certo de que era odiado. Na sala, quando ele vê o porta-retrato com a foto do pai, é só isto que ele enxerga: dor.

No entanto, agora que ele cresceu, agora que ele teve seu filho, ele bate no seu filho. Ele não se pergunta nem se responde, só aspira a dor nauseante do porta-retrato e vomita surras – às vezes, com vara.

Na infância, as palavras dele foram sufocadas muitas e muitas vezes.

Se você perguntar para ele sobre isso, ele vai dizer que é bobagem, que ele era só uma criança e criança não tem nada a dizer. Mas, dentro dele, ele sabe bem como perdia o ar por não poder falar. Quando ele abria a boca, era sempre por causa de um susto: nunca para libertar o que tinha dentro de si. Pois o que tinha dentro de si, ele achava, não tinha importância nenhuma: os adultos lá de fora só sabiam calá-lo, para então xingá-lo, ameaçá-lo, amedrontá-lo. Ele sabe que foi uma criança amedrontada. Que não podia falar e se feria ao escutar.

No entanto, agora que ele cresceu, agora que ele teve seu filho, ele não ouve seu filho. Ele mal reconhece seu filho como uma pessoa, e, quando se dirige a ele, ou é para mandar, ou para humilhar.

Às vezes, muito raramente, ele se pega olhando sério para o porta-retrato da sala.

Nessas ocasiões, uma voz dentro dele, uma voz bem baixa, terrivelmente rouca, tenta lhe fazer a pergunta: “Você consegue tirar essa foto daqui e colocar a sua no lugar?”.

Ele não ouve a voz, e não tira a foto. “Você é capaz?”, insiste, desesperado, o fio de voz.

 

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