O mistério

R.Ferruzzi, Betendes Maedchen - Ferruzzi / Girl Praying / Painting -Entro na igreja vazia, vim só comprar os ingressos para a festa junina. Quando estou indo embora, vejo uma senhora ajoelhada, olhos fechados com força, terço apertado entre os dedos. Não queria me emocionar ao ver aquela senhora, mas me emociono. Volto para a casa lembrando da minha infância.

Sou filha de uma católica fervorosa e um ateu convicto. Já presenciei inúmeras discussões inconclusas, provocações jocosas e os mais puros e inocentes olhares de espanto: “Como será que a pessoa que eu amo é capaz de pensar assim?”

Estudei a vida toda num colégio católico, recebi hóstias com um medo que eu nem sabia do que era, rezei ave-marias e pais-nossos esperando que aquilo acabasse logo. Me sentia confusa e assustada com aquelas rezas todas. Ao fundo, ouvia a alegria da minha mãe e as ironias do meu pai. À minha frente, quando estávamos só eu e os colegas do catecismo, minha vontade era gritar.

Até os dez, onze anos, fui obrigada a acompanhar minha mãe nas missas de domingo. Num domingo qualquer, me rebelei e falei que não iria nunca mais a uma igreja.

Voltei, adulta, por vontade própria. Não só assisti a missas, sozinha, mas meditei em templos budistas, tomei passe em centros espíritas. Em casa, li sobre as religiões. Uma parte de mim tentava me conectar a elas, a alguma delas. Outra parte minha queria apenas se libertar de tudo aquilo.

Desenvolvi uma aversão ao fanatismo, ainda me dói um pouco o ateísmo. Não casei na igreja, não batizei minha filha – pretendo, mais tarde, respeitar o que ela decidir. Do passado, trago quase um asco de discussões sobre Deus e também uma pequenez em relação àquilo que desconheço. Olho as senhoras ao lado, com seus olhos fechados, terços apertados entre os dedos, e me emociono. Quando senti minha filha nos meus braços pela primeira vez, não entendi nada. Na praia, observo o mar e me sinto pequena.

Quando me perguntam se tenho religião, respondo que não, mas eu rezo. À noite, antes de dormir, sozinha na cama, abajur aceso, eu rezo. Abro os olhos, vejo o céu através da cortina fluida: rezei para algo que não entendo como sinto, mas sinto. Algo que parece maior que eu e que me envolve – um mistério que, se já não temo, ainda respeito.

Sigo curvada ao mistério. Cresci e continuo sem compreender o mundo. Busco alento falando com um plano superior, agora com palavras próprias, em vez dos pais-nossos e ave-marias que repetia na escola. Apago a luz do abajur, fecho os olhos e respiro fundo.

 

2 comments to “O mistério”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Thais - 25 de maio de 2014 at 16:42 Reply

    Gostei muito do texto, e acho um assunto pouco tratado por que é um assunto muito delicado. Eu passei por coisas bem semelhantes com que você passou.meus pais eram bem religiosos (são espiritas fanaticos) e quando eu era pequena,eu era obrigada a acompanhar eles,até eu dizer que “não queria,e que eles deveriam respeitar a minha decisão assim como respeito a deles de gostarem dessa religião”. Eu vi que a religião se torna uma bandeira pesada demais para se carregar, ainda mais quando você é novo e está crescendo. Já frequentei tambem catequeses da vida, e na verdade acho que todos só estão procurando algo para se sentir melhor. Mas nunca duvidei de uma força maior, que aliás deve achar bacana a variedade de caminhos que as pessoas encontram para se aproximar dela.

  2. ana paula lou - 25 de maio de 2014 at 20:36 Reply

    me identifiquei muito com o seu texto.
    Um beijo,
    aninha

Deixar comentário

Your email address will not be published.