A visita do vazio

article-2109687-1202E971000005DC-126_468x286Às vezes, sou visitada por um vazio que chega sem avisar e tira a graça das coisas.

Devagarzinho, ele se acomoda ao meu lado e fica lá. Não é um  hóspede exclusivo: acho que todo mundo conhece esse vazio de que estou falando. Uns são mais íntimos dele, outros menos. Mas todos nós sabemos quem ele é. Pois ele visita quem está vivo, e cutuca justamente essa vida do vivo, perguntando: “Ei, você que não sabe de onde veio, para onde vai ou para que serve isso tudo, posso ficar aqui do seu lado?”

Alguns tentam fugir dele a qualquer custo. Respondem: “Não, não pode” e saem correndo antes mesmo que ele diga o que tem a nos dizer. Pois ele diz alguma coisa. Mesmo silencioso, sempre diz. Mas quem foge sem lhe dar ouvidos não quer nem saber: melhor comprar uma roupa, ligar para um amigo, ligar o rádio, ligar: para essas pessoas, nunca é hora de desligar um pouco.

Quando o vazio me visita, não costumo fugir dele, não. Sento, ofereço-lhe uma xícara de chá. Meu vazio, assim como minha tristeza sem motivo, gosta de chá. Talvez sejam parentes próximos. De fato, são muito parecidos. Sensações sem forma nem cor, que escapam à nossa compreensão e tiram o sentido das coisas. De qualquer forma, sinto que, se ofereço um chá a essas sensações, elas o tomam de bom grado e então vão embora. Se fujo, elas me perseguem. E mais fortes. Pois, uma hora, a roupa comprada fica velha, o amigo volta para a casa dele, a energia elétrica acaba: e então somos, de novo, visitados pelo vazio, que pode chegar mais murcho e asfixiante do que nunca.

Melhor recebê-lo de braços abertos.

Não fujo do vazio, mas também não me deixo levar por ele. É apenas uma visita que pode durar menos ou mais, mas não passa disso – uma visita. Há quem prefira seguir com ele pela porta afora, e conhecer o mundo pela ótica dele: e a ótica dele não é bonita. É a ótica da ausência, da falta, da dor. Não é menos verdadeira do que a ótica da presença, da alegria, do amor. Mas não é a única: as duas veem o mundo lá fora. Por isso, não me deixo levar. Vejo o vazio, converso com ele, volto para ler um livro ou pegar minha filha na escola.

Talvez o vazio seja o primo mais sádico da tristeza. Porque a tristeza dói: ao menos, ela faz com que a gente sinta a vida. O vazio, ao contrário, murcha a vida que há em nós: e todo mundo sabe que isso pode ser pior do que a dor. Eu disse lá em cima que vazio e dor são sensações, mas ora, é claro que o vazio não é sensação de nada. Ele só vem e fica: a gente não o sente, porque ele não nos deixa sentir nada, mas sabe que ele está lá e que atende pelo nome de tédio, de falta de graça. Mesmo sem sentir nada, a gente sabe muito bem que, um dia, tudo já foi diferente. Um dia, esse vazio não estava conosco. Agora, ele está.

Que eu ofereça companhia a ele e, depois, o veja ir embora para amolar outra pessoa, que eu tenho que colocar uma carta no correio e voltar a trabalhar.

 

3 comments to “A visita do vazio”

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  1. Jussara Moreira - 21 de maio de 2014 at 21:15 Reply

    Verdade, vem e passa. Aliás temos que fazer passar!

  2. Alan - 14 de junho de 2014 at 13:17 Reply

    Esse vazio almejo a algum tempo, eu sentia muito isso no passado, vinha e passava. Era como um toque divino dizendo “você é feliz, prova disso é esse vazio para que você saiba como é feliz”, mas de um ano para cá as coisas têm sido mais próximas da tristeza, mesmo; é como se ela tivesse vindo para ficar. Saudade desse vazio curável com uma xícara de chá.

  3. Juliana Oliveira - 15 de abril de 2015 at 12:24 Reply

    A cada texto que leio, sinto-me surpreendida pela facilidade com que suas palavras me alcançam. É despretensioso e carregado de significado.

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