Uma viagem boa

Der Blaue ZirkusAs agências de turismo e companhias aéreas bem que tentam, mas todos nós sabemos que não é possível comprar diversão. Experiências sensacionais não estão à venda: o que o dinheiro pode adquirir são inanimadas passagens, assentos, suítes, transportes, pratos, ingressos. O frio na barriga, o brilho nos olhos, as pequenas revoluções internas que podem invadir o viajante afortunado: isso tudo pode acontecer, ou não. Emoções são imprevisíveis e o prazer é sempre uma surpresa. Às vezes, não nos visita no melhor dos restaurantes. Outras vezes, nos surpreende na mais simples das refeições.

Para mim, uma viagem boa é aquela que, de alguma maneira, me transforma. Vejo coisas que não tinha visto, sinto o que não havia sentido ainda ou o que havia sentido há tanto tempo que nem me lembrava mais. Recolho e encaixo mais algumas peças que me dão a sensação de compreender melhor o todo. Abro a porta da minha casa sentindo que cresci, aprendi, entendi, me aproximei, conheço um pouco melhor o mistério da existência e os meus próprios mistérios interiores: estive de verdade em um lugar de verdade.

Nesse feriado de Páscoa, vivi essas sensações e sinto que voltei diferente. O destino, de diferente, não tinha nada: era apenas a cidade onde nasci, a cidade de 70 mil habitantes onde mora a família do meu pai. Não me sentei na poltrona de nenhum teatro luxuoso, não mergulhei em águas transparentes. Não que poltronas sofisticadas ou águas límpidas não possam me oferecer nenhuma reconciliação com a vida: pelo contrário, a arte ou a natureza podem ter efeitos enormes sobre mim – assim como podem não ter, ao contrário do que nos levam a crer as agências de turismo e companhias aéreas. Mas em Formiga, Minas Gerais, tudo o que precisei foi pisar na terra, comer frango caipira, ver minha filha brincando na horta onde tantas vezes brinquei, ler algumas páginas preguiçosas sob o sol e, acima de tudo, me abrir ao reencontro de parentes que não via há dez anos.

Sentir-me tomada pelo outro, pelas imagens, estilo de vida, pelas vozes do outro – me sentir presente, me sentir ali. Abrir-me às memórias, ao passado, à fusão das águas límpidas e turvas do meu interior à imensidão do mar lá fora: foi assim que me senti nesses dias especiais. Cada banho, cada refeição, cada som, cada olhar: de volta à minha cidade natal, meus sentidos ficaram infantilmente despertos, como se o mundo fosse um lugar novo, um lugar interessante e bom. Meu dentro estava calmo, apaziguado por um alento a que eu nem conseguia dar nome. Eu simplesmente estava feliz. Foram dias simples e felizes.

Voltei em paz.

 

 

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