A dor do amor perdido

Iridesce_MG10Havia acabado de anoitecer e eu estava voltando de Mairiporã para São Paulo, de ônibus. Tinha chegado lá cedo, para fazer uma entrevista, e estava exausta. Sentei na poltrona indicada no meu bilhete e tirei um livro da minha bolsa, nem lembro qual. Mal li uma página, uma senhora, bem velhinha, se sentou ao meu lado. Respondi brevemente ao seu cumprimento. Quando ela fez um comentário sobre o ônibus, eu ainda estava com os olhos nas páginas. Quando me fez uma pergunta, suspirei e fechei o livro. Ainda bem.

Essa velhinha, cujo nome nunca vou saber, era magra, tinha os movimentos ágeis e nem de longe exalava carência ou melancolia, mas apenas um interesse alegre e genuíno em conversar. Ela me contou que estava indo visitar a neta e me pedia, animada, sugestões de passeios com crianças em São Paulo. Eu, que já era mãe, indiquei alguns lugares. O assunto foi esmorecendo até que ela, agora tirando um livro da bolsa, comentou algo sobre o colégio interno onde havia estudado, e fiquei curiosa para saber como era esse colégio. Quando comecei a fazer algumas perguntas – agora, sim, uma carente na história –, ela abandonou seu livro, não reparei se com ou sem suspiro, e acabou resumindo, no trajeto Mairiporã-São Paulo, as sete ou oito décadas de sua vida:

Havia estudado num colégio interno porque sua mãe morreu no parto. Ainda bem pequena, foi matriculada pelo pai no internato Sacré Coeur de Marie. Com um olhar vívido, como se estivesse narrando o que havia acontecido ontem, me contou da rotina no colégio e também das visitas do seu pai, feitas de quinze em quinze dias, “sem nunca faltar”. “Ele me levava para ir ao cinema, comprava sorvete. Eu me sentia a filha mais amada do mundo.”

Aos dezoito anos, saiu do internato e levou as malas para a casa do pai. “Era um sonho morar com ele, com o meu paizinho que, mesmo à distância, era tudo para mim. Entrei naquela casa grande de mansinho, muito educada, sem querer atrapalhar nada. Na hora do jantar, conversávamos sobre como tinha sido o nosso dia, o dele no trabalho, o meu em casa, no piano, na costura. Era o melhor momento do dia.”

No entanto, dois meses depois da chegada dela, o pai morreu. “Senti algo se quebrar para sempre dentro de mim”. Parentes que ela nunca havia visto vieram de longe para o velório, e ela se apegou ao seu único irmão, que morava com mulher em outra cidade e que ela só conhecia agora.

Ela entrou na faculdade de pedagogia. Pouco tempo depois, o irmão morreu envenenado pela mulher, farmacêutica. “Foi morar com o amante em seguida. Nunca ninguém conseguiu provar nada. Sei que foi ela porque ela mesma confessou, numa discussão.”

Já formada, ela se envolveu com um sujeito que havia conhecido na vizinhança, num breve e intenso namoro que logo virou casamento. Ficou grávida já nos primeiros meses. Se sua mãe havia morrido no parto, ela agora vivia a tragédia inversa naquela mesma maternidade: era sua primeira filha que morria ao chegar ao mundo. “Voltar da maternidade com as mãos vazias, ver o quartinho da minha filha montado, o bercinho dela arrumadinho… Não desejo a ninguém, meu Deus do céu!”

Pouco tempo depois, engravidou de novo. Com o filho ainda bebê, engravidou mais uma vez. A menina nasceu – e morreu dois meses depois. Enquanto ela guardava os vestidinhos que não tiveram tempo de ser usados, seu marido arranjou outra mulher. O casamento continuou e ela engravidou novamente. Quando a filha nasceu, o marido saiu de casa.

“Caí de cama. Minha vizinha e o marido dela cuidava dos meus filhos”. Um dia, o marido da vizinha lhe deu um ultimato: “Se você não sair dessa cama, sabe o que vai acontecer? Seu marido vai pegar as crianças. E elas vão ser cuidadas pela mulher dele. Será que ela vai tratar bem os seus filhos?”. “Apavorada”, levantou-se da cama. Foi procurar emprego. Foi contratada pela então Febem, atual Fundação Casa. “Era só tristeza naquele lugar. No fim do primeiro dia, chorando, falei com a minha chefe que não voltaria no dia seguinte. Ela me pediu pra esperar um mês. Fiquei quinze anos.”

O ônibus chegava a São Paulo. A velhinha e eu, duas estranhas unidas por aquela narrativa, ficamos em silêncio por alguns instantes. E então, talvez movida pela necessidade de um epílogo, uma última página que fechasse aquela biografia improvisada ao vivo, acabei falando:

– A senhora viveu muitas dores. Quando tinha a minha idade, já tinha perdido partes da sua vida que nunca perdi. Quando você olha para a sua vida em retrospecto… Qual você considera o seu maior sofrimento?

Sabemos que amores e dores não se comparam, mas os comparamos mesmo assim. E ela já havia feito seu inventário emocional, porque me respondeu com prontidão. Pensei que me falaria sobre a primeira filha, a que havia perdido no parto, ou do filho de dois meses. Mas ela respondeu:

– Sem dúvida, minha maior dor foi ter perdido meu marido. Meu pai, meus filhos, minha mãe que não conheci, meu irmão, nenhum deles quis me deixar. O que me tirou a vontade de viver, pelo menos por um período, foi ser cruelmente desconsiderada por alguém que, no meu entendimento, me amava.

Ah, os amores perdidos e suas dores. Difícil ganhar de vocês.

 

14 comments to “A dor do amor perdido”

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  1. Jonas - 10 de abril de 2014 at 11:03 Reply

    Ficar arrepiado, do braço até a espinha, ao final do texto, pode?

  2. Mariana - 12 de abril de 2014 at 21:19 Reply

    Q saudade eu tinha disso!

  3. Helena - 17 de abril de 2014 at 15:44 Reply

    Liliane, como é bom visitar seu blog após tanto tempo! Li o Diário de Débora quando tinha 13 anos e me lembro de ter adorado seu jeito de escrever. Hoje, dez anos depois, estou aqui, mais uma vez encantada com seus textos. Foi um feliz ato do acaso…me lembrei de você e seu blog e de repente já tinha parado meu trabalho para ficar lendo…um deleite do pré-feriado. Parabéns pelo talento!

  4. Anne - 19 de abril de 2014 at 2:45 Reply

    Liliane, como sempre seus textos são ótimos!! Terminei de ler Três Viúvas neste feriado e adorei!! A busca por elas mesmas, o comodismo… muito bom!! Estou ansiosa para ler Sem Rumo!!

  5. Jessica Carvalho - 19 de abril de 2014 at 20:39 Reply

    Lili, a cada vez que venho em eu blog me surpreendo. Te conheci como leitora da capricho, e adorei sua narrativa. Agora estou te (re)conhecendo como uma estudante de Jornalismo, e suas histórias, crônicas me encantam ainda mais. Quando crescer quero ser como você! <3

  6. Larissa Rebouças - 18 de junho de 2014 at 19:06 Reply

    Reli esse texto pela terceira vez. Não tive nenhum efeito colateral no corpo, o que não me impede de achar que essa é a crônica mais linda da vida. Para a minha vida, talvez. <3

  7. walkyria - 24 de junho de 2015 at 21:54 Reply

    A beleza esta na simplicidade cotidiana do conto. A narrativa sublime e a moral da historia devastadora e elementar. Parabéns!!!

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