A fenda

the-abyss-of-hell-1480(1).jpg!Blog– Mas você não sente? – ela perguntou, franzindo o rosto inteiro, uma mistura de incredulidade com asco.
– Não sinto ou não vejo? Você tinha perguntado se eu via, agora pergunta se eu sinto – ele respondeu sem franzir nada.
– Você sente, você vê, você ouve – ela respondeu, acendendo um cigarro. – O que eu quero saber é se algum sentido seu está ciente dessa fenda.

Ele apenas a olhou. A fenda. Claro, ela estava falando de novo da fenda, o assunto recorrente dos últimos tempos, o assunto que havia cavado em poucas semanas um buraco de quilômetros no meio dos dois.  Eles estavam bem, não havia dúvida de que estavam bem, até que ela surgiu com essa fenda que ele não compreendia, não queria, não mordia.

– A inconveniência de ter nascido – ela disse, pulando do silêncio que havia se formado na sala. – Cioran. Essas palavras afetam você de alguma maneira? Essas palavras me lembram da fenda.

Nada, essas palavras não lhe diziam nada, esse nome, Cioran, não lhe dizia nada, nem Cioran nem a fenda, mas ele tinha medo de perdê-la, não a fenda, mas ela.

– Pode ser que me lembre também – ele disse, olhar flutuante, voz distante da fala. – Não sei bem.
– Mas você sente esse estranhamento?
– O estranhamento da fenda? – ele arriscou.
– Isso! É disso que estou falando. É isso que eu preciso saber se você sente. Essa fenda, essa fissura, essa rachadura, esse estranhamento, esse desencaixe, esse desconforto das coisas em nós. Esse vale que cada um carrega dentro de si, esse espanto, esse buraco… Esse desgosto.
– A fenda é ruim – ele arriscou de novo.
– Não! A fenda é boa, a fenda me tira do sofá, me arranca do material, do físico, me joga no vivo da vida, me faz provar da coisa mesma da barata. A fenda me arranha, me machuca, me atira no mundo. Quem não vê a fenda é raso, alienado, digno de pena. Quem não vê a fenda não é humano, é uma tentativa de. Você vê essa fenda? Você sente?

Ele se lembrou de quando a conheceu. Daquele tempo liso, suave, sem fendas. Sim, se a fenda fosse tudo isso, ele sabia o que era fenda, sabia bem. Nem todos viam, ela precisava saber que ele via, que ele não era mais um dos rasos alienados dignos de pena que viviam na parte mole e aguada da vida.

Ele fez que queria um cigarro, ela pensou em furar o silêncio, mas só esticou o maço. Ele se perguntou se quem vê a fenda precisa mesmo ser levado por ela. Se quem enxerga a fissura com toda a sua alma precisa entregar sua alma, se quem entra na fenda precisa cavá-la mais e mais. Ou se há como enxergar a fenda e sair dela às vezes, e respirar, e rir, e fugir, que fosse fugir, fugir com toda a velocidade, e depois voltar, e depois voltar a fugir. Ele se perguntou se há como sentir a fenda com todos os seus sentidos mas escolher não visitá-la o tempo todo.

–  Sim, eu sinto – ele disse apenas.

E os dois fumaram em silêncio.

 

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