A babá e a ambição


imgresEu sempre via aquela babá no pátio do prédio. Ela tomava conta de um menino um pouco mais velho que a minha filha e às vezes, quando eu descia com a Valentina, ela estava lá. Ela sempre me pareceu uma pessoa calma e tranquila. Nunca a vi perdendo a paciência com o menino, seu tom de voz era suave. 

Um dia, depois de cumprimentar mais uma vez aquela babá e seu semblante sereno, fiz a seguinte pergunta a ela:

– O que você faria se não fosse babá?

Perguntei sem pensar, quando vi a pergunta já tinha saído. Não sei você, mas só conversar naquele estilo “small talk” me deprime um pouco. Acho que o que eu queria era tentar puxar uma conversa de verdade com aquela estranha ao meu lado – nessa época, nós nos encontrávamos quase todo dia e nosso assunto nunca ia além do “hoje ela ficou de pé”, “ele não dormiu bem por causa do calor” etc.

– Se eu não fosse babá? Não sei – ela respondeu.
– Se você pudesse ser qualquer coisa – eu esclareci minha hipótese imaginária. – O que você seria?

Ela ficou algum tempo pensando. Na minha cabeça arrogante, pensei por ela: professora. Enfermeira. Coordenadora de um curso de babás… Atriz! Cantora! Médica, por que não? Médica. Pediatra.

– Acho que eu seria babá, mesmo.
– Mas você pode escolher qualquer coisa – esclareci, insistente.
– Olha… Não tem nada que me dá mais prazer nesta vida. Ser babá. Que nem a minha mãe. Minha mãe até hoje trabalha como babá, sabia?

Assunto encerrado. Entre nós duas, pelo menos. Já eu, com a minha bebê no colo, subi pensando em duas coisas. Primeira: só eu acho que cuidar de criança pequena o dia inteiro dá o maior trabalhão? Imagina criança dos outros? Segunda (e primeira que tem a ver com este texto): como ficam essas pessoas que, num mundo ambicioso como o nosso, estão satisfeitas fazendo o que fazem?

A todo momento, vemos anúncios, chamadas e comerciais com gente dizendo que quer sempre mais. Aquele da Nextell sintetiza bem isso (aliás, não posso nem ouvir aquele barulhinho). Atores dizem em entrevistas, orgulhosos, que deram o sangue para conseguir determinado papel. A celebridade que surgiu do nada agora conta, feliz, que tem tudo. O discurso dominante parece ser: você pode. Você consegue. Você não pode desistir. Você tem que conseguir.

Nesse contexto, aqueles que não são ambiciosos não são tidos como pessoas tranquilas, e menos ainda como felizes e plenas: são acomodadas.

Você tem que melhorar de vida, de casa, de guarda-roupa, de cargo, de cabelo. E como fica quem está bem? Quem não é ambicioso é sem graça? Sem paixão pela vida? Sem vontade de vencer, sem garra?

Falar que precisamos ser e ter cada vez mais é o mesmo que falar que não podemos nos contentar com o que temos. Afinal, se você quer conquistar sempre mais, você nunca vai poder ficar sossegado com seu presente: tem que viver sempre voltado para o futuro. Você nunca pode se acomodar. Nunca pode ficar satisfeito: sempre haverá um patamar maior. O preço da ambição é a insatisfação permanente.

Lembrei dos Tristes Trópicos, do Lévi-Strauss. Narrando sobre sua convivência entre  os nambiquaras, o autor se diz intrigado com os poucos indígenas que, naquela sociedade “tão pouco animada pelo espírito de ambição”, se interessam por cargos de chefia e posições de destaque. “Os homens não são todos semelhantes”, ele conclui, “e mesmo nas tribos primitivas, que os sociólogos pintam como esmagadas por uma tradição todo-poderosa, essas diferenças individuais são percebidas com tanta finura e exploradas com tanta aplicação quanto na nossa sociedade dita ‘individualista’”.

Entre os nambiquaras, aquele que tem ambição foge à regra. E nesta nossa sociedade dita individualista, é aquele que não tem ambição que foge à regra. Como a babá do prédio onde moro. E como tantas outras pessoas que, se algum dia foram consideradas serenas, agora são classificadas pelos insatisfeitos à sua volta como acomodadas e preguiçosas.

 

2 comments to “A babá e a ambição”

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  1. Erick Vinícius - 1 de abril de 2014 at 18:01 Reply

    Estou realmente cansado de ouvir o quanto eu poderia estar. E, eu assumo que sonhar com um patamar elevado é um subterfúgio maravilhoso quando se tem tanta gente te impulsionando. Eu faço Publicidade e o que têm de pessoas que querem dinheiro, dinheiro e fama na minha sala, ou no campus. Eu almejo bastante coisa e são metas a longo prazo. Mas, eu já não sei mais se é o que quero, ou se é o que eu “aprendi” a querer.
    (Sou Erick, tenho 20 anos. Estou no último período de Publicidade e Propaganda e quero ser famoso pelo meu trabalho, rs)

    • Liliane Prata - 1 de abril de 2014 at 18:27 Reply

      Vivo questionando se quero algo do fundo da minha alma ou se estou só reproduzindo um discurso pronto e artificial que contempla o que eu acho que deveria querer…

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