Tiradentes

120613-IMG_2150Eu tinha vinte e três anos e morava em Belo Horizonte. Morava sozinha não exatamente por vontade, mas por força das circunstâncias. Conhecia pessoas como nunca, saía com meus amigos como nunca, estava sempre mandando e recebendo mensagens pelo celular – mas me sentia sozinha quase o tempo todo. Sem saber muito bem por que, resolvi passar o fim de semana em Tiradentes. Sozinha.

Umas oito da manhã, já estava na rodoviária, comprando um Cheetos e uma Coca para o trajeto de cerca de três horas. Passei o caminho olhando a paisagem, sem ouvir música, sem tocar nos livros da minha mochila – lembro bem: Perdas e Ganhos, da Lya Luft, uma febre na época, e Primeiras Histórias, do Guimarães Rosa, febre que não passa. Com as mãos sujas de Cheetos, eu tentava digerir o fim de um casamento, o fim de um namoro intenso pós-casamento, e, por que não, os fins, todos eles. Tinha vinte e três anos, mas me sentia com sessenta, no mínimo.

Desci em São José Del Rey, que fica a uns dez quilômetros de Tiradentes. Resolvi passar uma noite naquela cidade que, à primeira vista, me pareceu normal, comum: e, naquele momento, tudo o que eu queria era me misturar a um lugar comum, sem nada de mais. Um lugar ao qual eu não fizesse força alguma para pertencer, que me deixasse confortável sendo apenas eu, sem esforço.

Procurei uma pousada barata, achei. Deixei minha mochila lá, peguei minha carteira. Andei andei andei, vi vi vi, resolvi comer. Parei em uma lanchonete bem simples, dessas de interior, esperando a melhor refeição do mundo: lembro de querer pensar que, nos restaurantes mais simples, podemos encontrar os pratos mais sensacionais, melhores do que muito restaurante caro, metido a besta. Mas minha refeição naquele lugar simples estava longe de ser espetacular, era apenas normal – o que estava ótimo.

Voltei para a pousada cedo, com o pôr do sol. Uma parte de mim me censurou por estar agora deitada na rede, em um canto da pousada, em vez de sair, conhecer pessoas, aproveitar, conversar, fotografar, telefonar, contar. Outra parte de mim me lembrava, como quem lembra não de um presente, mas de um peso, uma responsabilidade terrível: você só tem vinte e três anos!

No entanto, continuei ali, na rede, agora alternando a leitura dos dois livros que havia levado, celular esquecido no quarto. Li até tarde, comi uma empada fria que tinha comprado à tarde, dormi.

Na manhã seguinte, peguei a Maria-Fumaça e fui para Tiradentes. Tiradentes era outra coisa: cidade arrumadinha, cheia de restaurantes chiques e caros em cima das pedrinhas singelas, repleta de casais de namorados e máquinas fotográficas: Tiradentes quer e merece ser fotografada. Já eu, que não sabia o que queria, mas que hoje vejo que só queria um parênteses acolhedor, muito despretensioso, muito sem planejamento… Eu me enfiei numa pousada sem charme algum, cuja diária, lembro bem, era de 22 reais (!), e mal consegui fechar os olhos numa noite repleta de pernilongos, e acordei feliz como havia tempos não acordava.

Voltei para Belo Horizonte. No ônibus, de novo, só olhei a paisagem. Na volta, estava decidida a não me envolver mais com o tal ex-namorado pós-casamento, mas as voltas, como todos sabemos, são essas confusões de telefones, e-mails e mensagens, e me envolvi, e terminamos de novo, e sofri de novo. Alguns meses depois, eu estaria cancelando o contrato de aluguel do apartamento e me mudando para São Paulo. Alguns meses depois desses meses, estaria no avião, prestes a conhecer lugares como Atenas, Londres e Amsterdã, onde mesmo o mais simples dos hostels carregava, pelo menos para mim, uma aura de cool.

Mas a viagem para Tiradentes seguiria sendo uma das melhores que fiz. Só eu, numa viagem do jeito que eu queria naquele momento, ou do jeito que eu precisava: sem pratos sensacionais, companhias interessantes ou madrugadas intensas. Uma viagem, na verdade, comum, sem nada de mais, em que não tirei uma única foto, mas me permiti um contato íntimo comigo mesma que todos nós deveríamos permitir de vez em quando.

 

10 comments to “Tiradentes”

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  1. Roseli Pedroso - 2 de fevereiro de 2014 at 13:40 Reply

    Liliane, amei seu post pois vivi algo bem parecido no ano passado em minhas férias. Fui antes ao Rio de Janeiro na companhia de um amigo, onde me diverti horrores, mas foi numa viagem que fiz de cinco dias para Natal que tive um encontro comigo mesma. Cinco dias sem quase ouvir minha voz e não conversar com ninguém. lendo a beira da piscina ou passeando pela orla da praia, cinco dias pensando muito em minha vida e tentando dar um rumo para vários pontos dela que não estava me agradando. Valeu dada minuto dessa experiência. Pretendo fazer mais vezes. Beijo

  2. Natalia - 3 de fevereiro de 2014 at 9:31 Reply

    Sentada aqui, acabei “revivendo” seus posts de 2004 que faziam meus dias melhores. Na época, com 19 anos, ler seus textos era achar conforto nas coisas simples dos meus dias complicados. Hoje, com quase 29 anos, um país diferente e uma filha mais tarde, continuo a me deliciar com sua escrita e a me confortar cada vez mais. Tudo de bom!

  3. Jussara Moreira - 3 de fevereiro de 2014 at 20:08 Reply

    Poxa! Lembrei de uma viagem à Maceió resolvendo coisas da faculdade, tbm sozinha, eu e eu, durante 7 dias. E por falar em lembranças simples mas que ficam guardadas, sempre me lembro de você, quando brincávamos de escolinha, você era a professora, eu a Juju e outras crianças, os alunos, lembra? Pode parecer simples mas me incentivou bastante. São pequenas coisas que levamos para o resto da vida! Parabéns pelos textos! 😉

  4. Jussara Moreira - 4 de fevereiro de 2014 at 21:34 Reply

    Eu tbm gosto de te acompanhar! Tenho noticias sim, sempre estamos em contato, o link dela no face é https://www.facebook.com/juliana.c.carvalho.3?fref=ts ela vai gostar de te reencontrar 😉 Abraços!

  5. Vanessa Correia - 6 de fevereiro de 2014 at 9:17 Reply

    “Conhecia pessoas como nunca, saía com meus amigos como nunca, estava sempre mandando e recebendo mensagens pelo celular – mas me sentia sozinha quase o tempo todo.” Me identifiquei com esse trecho *—*

  6. Carol Martins - 11 de fevereiro de 2014 at 12:05 Reply

    Esse texto me fez refletir sobre algumas coisas e cheguei a uma conclusão: preciso de uma viagem do tipo.

    – Moço, por favor, me vê uma passagem para Tiradentes!

  7. Déborah - 13 de fevereiro de 2014 at 0:31 Reply

    Seu post me inspirou a sair de casa. Estou há meses com um vontade louca de viajar, pra qualquer lugar que seja, mas sempre inventando desculpas e mais desculpas. É isso, já estou olhando roteiros e passagens. Agora vai! Um beijo e obrigada.

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