Por favor, seja feliz

happiness_is_a_tailwind__contemporary_whimsical_fi_figurative__figurative__2b78355279fa619f10ed83f2437e9c59A ideia já está mais do que gasta: como é importante que a gente corra atrás do nosso bem-estar, como é fundamental que a gente se sinta bem, como cada um deve ir em busca, enfim, da sua… felicidade. Felicidade: ô palavrinha gasta. As propagandas mandam a gente ser feliz, as caixas de cereais mandam a gente ser feliz. Muitas vezes, de um jeito que faz parecer que a felicidade é uma tolice individualista. Até porque, para muitos, a tal da felicidade acabou virando sinônimo de consumo. Ser feliz é viajar, é comprar roupas bonitas, etc. Nessa visão, felicidade é algo bem elitista. Coitado do endinheirado que está num cruzeiro neste momento, cercado de comida boa, piscinas e atividades, e não está feliz.

Bem. Dito tudo isso, eu queria falar um pouco de como é, para mim, fundamental que a gente se sinta bem nesta vida. Não o tempo todo, claro. Mas que a gente se sinta bem em geral. Chover no molhado? Repetir o discurso das caixas de cereais? Talvez, mas buscando uma perspectiva um pouco diferente. Ou talvez não seja tão diferente assim para você, se você já pensou nesse assunto um bocado, como tenho pensado. Mas, enfim, aí vai a minha perspectiva. Vamos lá.

Como se sabe, não vivemos sozinhos. Mesmo que você seja daqueles que trabalham em casa e só fazem compras pela internet, e por mais que alguns insistam que “no fundo, estamos todos sozinhos”, na prática você precisou de duas pessoas para ser concebido, caminha em ruas pavimentadas por outras pessoas e, a não ser que plante tudo o que come e não use dinheiro, come comida que os outros fizeram, usa eletrônicos que os outros fabricaram etc.

Viver com os outros significa que nossas ações têm impacto na vida das outras pessoas, e que as ações das outras pessoas têm impacto sobre a gente. Esse impacto pode ser grande ou pequeno, positivo ou negativo. Um ar poluído pelos motoristas, mesmo que você não dirija, afeta você; um motorista louco pode afetar você etc. Esse impacto das ações dos outros sobre a gente é chamado pelos economistas de “externalidade”. (Esse termo, na verdade, é desnecessário neste texto, mas, como o aprendi recentemente lendo num livro de economia, quis usar aqui. E vale como curiosidade.)

Não consigo pensar em algo que afete mais a vida dos outros, de modo positivo ou negativo, do que a felicidade alheia. A alegria. O bem estar: chame do que quiser, mas só nos certifiquemos de que estamos falando da mesma coisa – não de consumir, não de sorrir o tempo todo que nem bobo, mas de estar, em geral, de bem com o mundo, satisfeito por estar vivo, com as nossas escolhas que deram certo, com as nossas escolhas que não deram certo, mal-humorado quando se está gripado, puto quando lê o jornal, mas não tenso e sufocado a ponto de desmoronar. Bem, todo mundo sabe como é uma pessoa assim e como não é uma pessoa assim. Todo mundo sabe a diferença entre pessoas leves e pesadas.

Bem.

É difícil, e aqui peço licença para mudar brevemente o tom deste texto – é difícil imaginar alguém de bem com a vida estuprando alguém.

É difícil, é quase impossível, imaginar um alegre torturando uma pessoa. Partindo para a agressão física numa festa. Espancando o próprio filho.

Nunca vi alguém falando que se sentia feliz, de bem consigo mesmo e tudo mais, até o dia em que torturou outra pessoa. Se você conversa com pessoas violentas, vai ver que praticamente todas elas tiveram uma infância violenta, triste ou solitária. Em geral, foram vítimas da infelicidade alheia e se tornaram infelizes.

Vale para situações menos graves também: uma mãe frustrada vai encher mais o saco dos filhos, um irmão frustrado vai ser menos solidário com o outro etc. Você já teve um chefe bem infeliz? Então você sabe como é.

Felicidade não é uma bobagem elitista, não depende de cruzeiros cheios de piscinas e atividades e está longe de ser algo supérfluo. Para mim, felicidade é algo vital, talvez o mais importante de tudo para seres que, como nós, vivem em sociedade. É algo que impacta a vida de todos: pais que se sentem bem são pais melhores, professores que se sentem bem são professores melhores, políticos que se sentem bem são políticos melhores, vizinhos que se sentem bem são vizinhos melhores. É preciso primeiro colocar a nossa máscara de oxigênio para depois ajudar o passageiro ao lado.

Como sempre, nada é simples. É difícil se sentir bem se onde você mora não tem saneamento básico, se você passa o dia todo no trânsito e ganha mal, muito mal. Vou mais longe: como se sentir bem se seu país está em guerra? Se você é vítima de violência doméstica crônica?

Como ser feliz se você é vítima da infelicidade alheia?

Não sei. Talvez, em situações extremas, não seja possível ser feliz. Embora sempre existam histórias de pessoas incríveis que, por exemplo, se casaram de novo e tiveram filhos após presenciar o assassinato de sua família, como o pai da Anne Frank. Mas acho meio cruel cobrar que todas as pessoas sejam incríveis.

O que sei, ou acho que sei, é o seguinte: quem diz que procurar ser feliz é uma bobagem individualista não para pra pensar que ser feliz é um dos maiores favores que podemos fazer pelas pessoas à nossa volta. Portanto, se você não está na Síria, tente lidar bem com suas frustrações, busque coisas que façam bem a você e procure manter um bom relacionamento com a sua existência. Por favor.

 

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