Menino ou menina

kinopoisk.ruTenho uma filhinha de quase três anos. Como todo mundo que tem filho, educo a minha com base no que acredito. Como ela é uma menina, e eu acredito que meninas e meninos não são tão diferentes assim, quando ela era bebê eu acabava fazendo umas coisas do tipo: vesti-la de azul. Evitar deixá-la toda emperiquitada, como se ela fosse uma bonequinha. Dar bebê de brinquedo, mas carrinho também. Etc. Às vezes, confesso, eu ia mais longe e comentava com ela, como quem não queria nada, que a leoa corre mais rápido que o leão. 

Bom. Um dia, percebi o óbvio: entre mim e a minha filha, tem o mundo lá fora. Aqui em casa, a realidade é do jeito que eu e o pai dela achamos que deve ser. Mas o mundo está repleto de pessoas presenteando as meninas com apetrechos cor-de-rosa. Ensinando que elas precisam ser delicadas. E dando fofíssimos fogãozinhos da Barbie de presente.

Esse contexto tão óbvio como assustador foi se revelando para mim aos poucos. Talvez tenha começado com a pia e a vassoura que minha filha ganhou de presente dos vizinhos – e adorou. Quando não estava lavando pratos de plástico, ela estava varrendo a casa, o hall do prédio, o elevador. Nunca falei nada. Mas, dentro de mim, eu sabia: eu só sossegava quando ela estava acompanhada de meninos na brincadeira, como no dia em que tirei a foto abaixo. Ufa, eu dizia para mim mesma, ela não está brincando de varrer só porque é menina, ela não está brincando de varrer só porque é menina!

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Um dia, no clube, estávamos na piscina, eu e ela. Um menininho da mesma idade que ela pegou a xícara com que ela estava brincando: a xícara do jogo de chá. Rosa. Que ela ganhou de não sei quem. Bom, mal o menino começou a brincar com a xícara, o pai dele interveio e disse que aquele brinquedo era “de menina”. Meu coração doeu, mas era um sábado de sol, eu estava na piscina e não queria polêmicas. Mas doeu. Nessa hora, confesso, desejei ter um menino só para dar um bebê de brinquedo para ele, vesti-lo com estampas florais e chocar a sociedade – ou aquele sócio do clube. Não falei nada. Mas, para o meu orgulho, minha filha falou:

– Esse brinquedo é de menino e menina.

O pai deixou pra lá. O filho dele continuou brincando com minha filha. Senti o gosto de uma pequena vitória. Mas não duraria muito.

Semanas depois, eu me depararia com a seguinte questão: o balé ia fazer parte das atividades regulares da minha filha na escola. Até aí, tudo bem. A questão é que o balé seria uma atividade exclusiva para as meninas. Enquanto elas estavam lá, dançando (com suas roupas cor-de-rosa, como não poderia deixar de ser), os meninos iam participar de outra atividade (futebol? MMA?). Não adiantou uma mãe francesa dizer, numa reunião, que gostaria que o filho dela pudesse fazer a escolha de dançar balé.  Balé, só para as meninas. Claro que chegou o dia em que a minha filha me perguntou POR QUE diabos o balé era só para as meninas. Respondi que é mais comum onde a gente mora que meninas dancem balé, daí ela me perguntou o que era “comum” e acabamos perdendo o foco da questão.

Mas, afinal, qual é a questão?

Meninos usam azul. Meninas usam rosa. E, mesmo que a minha use só azul (não usa – ela já ganhou um monte de roupa rosa, como a calça da foto), o mundo lá fora separa os meninos e meninas nas mais variadas formas, algumas até com algum sentido, na minha opinião, mas a maioria bem desnecessária, apenas por hábito. Só posso tentar preparar minha filha para o mundo, mas não posso preparar o mundo para minha filha. O mundo é como é. Só posso estimulá-la a ter senso crítico, a pensar. E isso é tudo.

Como todo mundo, educo minha filha com base no que acredito. Mas, entre as coisas que acredito, está a aceitação para as situações em que não posso fazer nada. Por isso, faz um bom tempo que parei de esquentar a cabeça com essas questões. E procuro deixar minha filha ser ela mesma: acho que esse é o ponto mais importante para mim. Se ela quiser brincar de princesa, que brinque. Acho que é por isso que não impliquei com a vassoura ou fiquei fazendo discursos na piscina na frente dela: mesmo quando eu me preocupava com essa questão “azul versus rosa”, sempre preferi uma educação mais relax. Acho que qualquer projeto pedagógico muito rígido acaba descambando para o autoritarismo. E o autoritarismo é uma péssima maneira de educar as crianças, na minha opinião. Como disse Joseph Campbell, a pessoa que é criada num ambiente com regras excessivas dificilmente vai chegar ao conhecimento dela mesma. Estimular minha filha a crescer sendo ela mesma, e não uma cópia de mim e das minhas questões: é nisso que eu mais acredito.

Mas, cá entre nós, devo confessar uma coisa: sempre preferi que ela brincasse de ser mãe ou de arrumar a casa em vez de usar armas de brinquedo. Acho que brincar de atirar é uma coisa extremamente esquisita. Outro dia, ela entrou aqui em casa atirando – aprendeu com os primos. Tive um calafrio, juro. Não estimulei, mas também não interrompi, deixei que ela atirasse até se cansar e brincar de outra coisa. Depois desse dia, nunca dei a ela a ideia de brincar de atirar de novo, e acho que ela acabou esquecendo. Quando ela for mais velha e estivermos conversando, vou dar minha opinião: no fundo, pensando bem, acho que as brincadeiras de menina são mais legais que muita brincadeira de menino por aí.

 

9 comments to “Menino ou menina”

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  1. Samuel A Faria Queiroz - 28 de fevereiro de 2014 at 12:31 Reply

    Gostei do texto. Tenho uma filha de 3 anos e certas coisas São complicadas demais pra mim, não pra ela. Deus nos ajude.

  2. Jess - 28 de fevereiro de 2014 at 12:42 Reply

    “Só posso tentar preparar minha filha para o mundo, mas não posso preparar o mundo para minha filha.”

  3. Didi - 28 de fevereiro de 2014 at 15:13 Reply

    Ei, Lili! Mais um ótimo texto! Sobre as brincadeiras de atirar, acho que devem ser muito bem supervisionadas, e meio que desestimuladas também. Não sou mãe para saber muito sobre o assunto, conheço algumas histórias. Exemplo: quando meu pai era pequeno, a irmã dele encontrou a arma do pai (outros tempos) no armário e chegou na sala de jantar falando pra todo mundo “mãos ao alto”. A família gelou e conseguiram convencer a menina a largar a arma. E se não tivessem convencido? E se ela estivesse habituada a atirar com arma de brinquedo e pensasse que era mais uma. Essa história, infelizmente, é comum e de fato assusta. Aqui na França não é diferente e uma vez um menino ficou simulando continuamente um ataque contra mim, que na fantasia dele, era uma invasora. Chamei os pais e falei que eu ia fazer esse menino parar se eles não fizessem nada. Sinceramente, acho que brincadeira de violência já perdeu a graça! E eu amo varrer a casa, enquanto conheço homens que amam lavar a louça. Mas varrer sempre foi um prazer!!! Tomara que sua filha descubra isso sem imposição, mas por descoberta mesmo! beijo

  4. Giulia - 28 de fevereiro de 2014 at 17:27 Reply

    Um “oi” de uma leitora inveterada.
    Acho que quanto mais relax você for, melhor será. Meu irmão costumava se vestir com minhas roupas quando tinha 3 anos (hoje tem 13), mas nunca gostou de brincar de boneca. Ele tinha carrinhos, dinossauros, ursinhos de pelúcia (vermelhos de bolinha, marrons, azuis) e as brincadeiras foram divididas naturalmente por ele e minha prima da mesma idade, que preferia carregar uma boneca à tiracolo e “ser mamãe”.
    As crianças são bem menos vulneráveis do que aparentam, ao meu ver, e o que ela vai levar pra vida e para os hábitos é o que vê em casa 🙂
    Ah, meu brinquedo preferido era um ursinho vestido de black-tie azul.

    Beijo

    • Liliane Prata - 28 de fevereiro de 2014 at 19:49 Reply

      Cada vez mais tenho achado isso, viu… (Qto mais relax, melhor). Qdo eu era pequena, me recusava a usar calcinha, só usava cueca do meu irmão. Qdo cresci, minha mãe me confessou que qse chorava por conta disso e de outras “molecagens” minhas (o sonho dela era que eu fosse uma bonequinha, esse era, inclusive, meu apelido), mas isso não chegava até mim, pq ela me deixava usar cueca qdo eu pedia. O interessante é que, hoje, me preocupo com o cabelo, uso maquiagem… Coisas que eu abominava na infância! Afinal, nada é rígido, a gente muda – ainda mais se formos criados com certa liberdade, acredito.
      Concordo com vc, sem dúvida o que eles levam pra vida é o que vêem em casa: o exemplo é mais marcante do que qq discurso – nem que seja para eles fazerem o contrário qdo mais velhos.

  5. Rosi - 28 de fevereiro de 2014 at 17:43 Reply

    Lili, otimo texto. Como educar filhos sem esses grandes preconceitos da sociedade. Mas parece que voce esta conseguindo

  6. Jussara Moreira - 28 de fevereiro de 2014 at 20:14 Reply

    Ótimo texto para refletirmos, sempre penso em questões similares quando o assunto é menino e menina. Parabéns!

  7. Jennifer - 1 de março de 2014 at 16:25 Reply

    Que ‘otimo texto! Obrigada por compartilhar!

  8. ana paula lou - 3 de março de 2014 at 10:01 Reply

    Menos 10 anos de terapia: Acho que qualquer projeto pedagógico muito rígido acaba descambando para o autoritarismo. E o autoritarismo é uma péssima maneira de educar as crianças, na minha opinião. Como disse Joseph Campbell, a pessoa que é criada num ambiente com regras excessivas dificilmente vai chegar ao conhecimento dela mesma. Estimular minha filha a crescer sendo ela mesma, e não uma cópia de mim e das minhas questões: é nisso que eu mais acredito.” Amei, e sim, ela é livre e muito feliz!!!

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