Aniversário de ninguém

5281835ff0f8d2869c136ac54eafcf89Ela é uma professora muito jovem. Concursada, há menos de dois anos dá aula em uma escola municipal que fica no alto de uma favela da zona sul de São Paulo. Fomos apresentadas em um jantar, no fim do ano passado, e ela começou a me contar alguns casos desoladores do seu cotidiano em sala de aula. Fiquei interessada, apesar de o assunto não ser exatamente novo para mim: meus pais, hoje aposentados, foram professores de escola pública a vida toda, em Minas. Novidade, ali, era apenas ver que, depois de tantos anos, os casos desoladores da escola pública continuavam os mesmos. Seus anos letivos parecem seguir um calendário velho, repetido, que qualquer um, aliás, pode acompanhar pelo noticiário.

Mas então ela me contou sobre o aniversário. Ou melhor, o não aniversário.

Foi assim: na sua primeira semana na escola, despedindo-se de três alunas, no fim da aula, ela comentou qualquer coisa sobre estarem no mês de fevereiro. Uma aluna perguntou que mês vinha depois de fevereiro. Não deixava se ser surpreendente, porque aquelas alunas já estavam na faixa dos onze, doze anos, mas numa escola em que nem todo aluno no quinto ano sabia ler, aquele dado soava menos alarmante.

Animada, ainda abraçada por aquele entusiasmo do início das coisas, ela colocou de volta sua bolsa em cima da mesa e pegou o giz.

– Vamos rever os meses do ano?

Sem planos para depois da aula, as alunas concordaram. Ela começou a escrever “janeiro” no quadro, mas então teve uma ideia.

– Vamos começar pelo aniversário de vocês? Afinal, é o mês mais importante do ano, né! Você é a Mariana, não é? Mariana, quando é o seu aniversário?

Silêncio.

– Esqueceu? Ai, ai, ai! – ela disse, em tom de brincadeira. – Jennifer, quando é o seu aniversário?

Silêncio, agora acompanhado de um riso sem graça de Jennifer. A terceira aluna, a essa altura, já olhava para baixo.

Ninguém ali sabia o mês do seu aniversário.

No jantar, ouvindo a professora me falar sobre como aquilo a deixou surpresa, eu me lembrei da festa surpresa que ganhei quando tinha uns sete, oito anos. Lembro de girar a  maçaneta da porta estranhando os risinhos abafados do outro lado, do susto que tomei vendo uma pequena multidão gritar “surpresa!”, de todo mundo começando a cantar parabéns, do tempo que levei para entender finalmente que aquelas pessoas estavam ali reunidas para me saudar, que aqueles docinhos ali na mesa e aquele bolo estavam ali para mim, por causa daquela data: o meu aniversário.

Não ganhei uma festa surpresa todo ano, e tive anos sem festa nenhuma. Mas outubro sempre foi um mês especial na minha infância: no dia vinte, eu sabia que encontraria um presente na minha cama, ao acordar ou na hora de voltar da escola. Eu receberia telefonemas dos meus avós, cumprimentos dos meus colegas, abraços e parabéns alegres e desinteressados em qualquer mérito – eu não precisava fazer nada, bastava que meu dia chegasse para eu ser parabenizada: aquele era o meu dia.

Ali no jantar, conversando com a professora, pensei nas crianças que não sabem quando fazem aniversário. Novas idades ignoradas pelo mesmo calendário velho dos seus anos letivos – é um calendário apático, que não guarda um dia para elas, e essa lacuna segue tão desimportante que jamais vai ser assunto de algum noticiário.

 

5 comments to “Aniversário de ninguém”

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  1. Sandra Campos - 20 de janeiro de 2014 at 16:59 Reply

    Nossa, que triste.. As vezes é muito dificil conhecer outras realidades né, sempre fico chocada e muito triste quando tomo conhecimento de coisas assim.. dá uma vontade de mudar o mundo, de fazer a diferença, e logo voltamos ao nosso casulo confortavel.. queria q fosse diferente.

    • Liliane Prata - 20 de janeiro de 2014 at 17:34 Reply

      Exato! Nessas horas, tb vivo sendo acometida por esse sentimento de impotência. Daí lembro que não posso abraçar o mundo nem me dedicar a todas as causas existentes e faço o que posso fazer, por minúsculo que seja…

  2. ana paula lou - 29 de janeiro de 2014 at 7:09 Reply

    amei o texto, a reflexão ao redor dele e principalmente o final: “Ali no jantar, conversando com a professora, pensei nas crianças que não sabem quando fazem aniversário. Novas idades ignoradas pelo mesmo calendário velho dos seus anos letivos – é um calendário apático, que não guarda um dia para elas, e essa lacuna segue tão desimportante que jamais vai ser assunto de algum noticiário.” Já te falei que amo a forma como vc encerra suas crônicas? Bjs

  3. Camila - 29 de janeiro de 2014 at 19:58 Reply

    É um grande choque para alguém como eu que está cursando pedagogia e trabalhando em uma escola particular, lembrar que existem situações assim e que se eu quiser ser uma boa profissional terei que enfrentá-las e aprender a lidar com elas.

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