Mundo cão

1lifeUma anedota comum entre os professores de jornalismo é a seguinte: se um cachorro morde uma pessoa, não é notícia. Já se uma pessoa morde um cachorro, aí é notícia. Ou seja, merece ser noticiado não o que ocorre no dia a dia, mas o que foge do ordinário. Jornal nenhum dedicaria a primeira página a uma manchete do tipo “Dono da banca de jornal da alameda Lorena abre a banca hoje sem nenhum problema e passa o dia vendendo seus jornais e revistas normalmente”… A não ser que o dono da tal banca estivesse sem poder abrir a sua banca a, digamos, seis semanas. Por causa da enchente. E do furacão. Enfim.

O problema é que ninguém passa pela banca de jornal pensando “Vamos ver as exceções da vida comum”. Pelo contrário. Se leio ou assisto só tragédia, logo estou amargurada, tendendo a ver o mundo todo como uma tragédia. Pelo menos, é a impressão que eu tenho. Que muita gente anda colocando um filtro de amargura no mundo, por causa do que leu ou viu na TV. Quem mora numa cidade grande pode ficar com a impressão que é só sair de casa para levar um tiro. E a situação anda crítica, mas também não é assim, é?

O mais comum no Brasil, pode acreditar, é que as pessoas saiam de suas casas de manhã e voltem à noite sem terem levado um único tiro – estejamos falando de empresários ou frentistas. Soa até estranho, mas tenho certeza de que há muito mais mães dando Danoninho para os seus filhos ou pedindo que eles assoem o nariz do que apedrejando/queimando/matando seus filhos. Não li nenhuma estatística a respeito, mas posso apostar que tem muito mais pai perguntando como foi o dia na filha na escola do que estuprando a filha. E muito mais lágrimas por brigas de namoro do que por corpos ensanguentados.

Mas, claro, nada disso é notícia. O que não quer dizer que essas coisas não existam ou não importem.

Antes da internet, da TV, do telégrafo, de Gutenberg – antes disso tudo, as pessoas, é claro, viviam muito mais restritas geograficamente. Assim, para alguém que vivia numa aldeia sul-americana, uma mulher muito bonita era a mais bonita da aldeia, talvez a mais bela da aldeia vizinha, e não a que ficou em primeiro lugar na lista dos mais bonitos da revista People. A notícia de um terremoto no Japão não chegava a um veneziano da idade média, que só sabia de tragédias – afinal, tragédias existem desde que o mundo é mundo, assim como a crueldade humana – se essas tragédias tivessem acontecido com alguém próximo.

Lembro do romance A cidade e as serras, de Eça de Queirós, passado no século 19. Zé Fernandes se impressiona com a modernidade da casa do amigo Jacinto, que tem uma das últimas invenções da época, um telégrafo. O visitante observa o aparelho transmitindo a Jacinto a informação de que “a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria”.  Então, ele pergunta ao anfitrião se aquela avaria da Azoff o prejudicava de alguma forma. Jacinto responde, entediado: “Da Azoff?… a avaria? A mim… Não! É uma notícia”.

Depois do telégrafo, as distâncias continuaram a ser eliminadas. Hoje, sabemos das tragédias nossas e a dos outros, conhecidos ou desconhecidos, de cantos da cidade em que sempre pisamos ou de um campo de refugiados na Suazilândia. Inocência virou sinônimo de ignorância: ora, você não lê o jornal? Tudo parece ameaçador. Temos de conviver com a dor e a delícia da quantidade enorme de informações de um mundo narrado minuto a minuto, em todas as suas nuances.

Quer dizer, em todas, não. Só do que é notícia – ao menos, se estamos falando da mídia.

Fico pensando se a mídia brasileira – estou falando, claro, da que veicula notícias, não dos cadernos sobre alimentação ou revistas segmentadas como a VIP ou a Superinteressante – está viciada em enxergar o mundo sob a ótica da falta, da tragédia, da dor. Do que dá errado. Sinceramente, sem contar uma olhada aqui, outra ali, não sei como costuma ser a pauta em outros países em termos de números de matérias sobre o “mundo cão”. Observo, simplesmente, que, na mídia daqui, esse assunto está disseminado, assim como as pessoas que não aguentam mais tanta tragédia. Lembro de uma vizinha argentina que dizia não saber como a gente tinha estômago para ver nossos telejornais.

Se há, mesmo, esse vício na nossa mídia, talvez também haja em nós, leitores e espectadores: acabamos enxergando o mundo sob a ótica da tragédia/miséria humana etc. Nossa sensibilidade acaba soterrando nosso senso crítico e confundimos, amargurados, o noticiário com o mundo. Claro, tem muita coisa terrível por aí. Mas tem muita coisa boa, também. E, principalmente, muita coisa comum – que não tem por que ir para o jornal, mas que existe, é sempre bom lembrar.

É bom lembrar que em São Paulo ou no Rio, às oito da manhã, há mais pessoas tomando café da manhã do que sendo baleadas.

Lembro que, numa época, a Folha abriu espaço na primeira página para uma manchete encabeçada pela retranca “Boa notícia”. Achei superlouvável a iniciativa, mas depois vi que as boas notícias eram sempre do tipo “Arco-íris aparece em São Paulo depois de tarde de chuva”. Arco-Íris são lindos, mas não são notícia. Acho que devia ser difícil arranjar pauta melhor para essa seção, porque o pessoal está mais habituado, parece, a produzir notícias ruins.

Acredito que dá para continuar noticiando apenas o que foge do comum sem recorrer apenas ao negativo, mas isso vai requerer um esforço enorme de gente disposta a repensar os padrões e pensar em pautas originais. Penso que leitores de hard news também querem saber sobre investigações bem feitas, projetos sociais que estão dando certo, políticas públicas que estão encaminhadas e a opinião das pessoas impactadas por elas, obras que foram concluídas, pessoas que salvaram outras pessoas, vidas que mudaram para melhor, sei lá. E não só em cadernos do tipo “Bem estar”, sabe? Mas em assuntos que acabam indo parar na ordem do dia, nos trending topics e tal. Acredito que há, sim, notícias positivas por aí. Como as ruins, elas fogem do ordinário: afinal, são notícias. Por que se focar nas ruins?

Temos que saber do que acontece de trágico, senão, dizem, somos alienados. Mas e se só sabemos do trágico? Isso também não é uma forma de alienação?

 

2 comments to “Mundo cão”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Jessica Carvalho - 8 de novembro de 2013 at 21:25 Reply

    Ah, Lili, há tempos ando percebendo isso, parece que vivemos em uma maré de pessimismo. A impressão que se tem, em telejornais e mídias em geral, é que nada de bom acontece, tempo nenhum. E ficamos surpresos quando chegamos em casa “sãos e salvos”….

    Legal saber desse seu ponto de vista. A propósito, há tempos não leio um texto seu (correrias do dia-a-dia), e como sempre, me surpreendo.

    Um beijo!

Deixar comentário

Your email address will not be published.