A menina do refrigerante

evanesce_MG12Outro dia, esperando a pizza chegar, comecei a ver um programa no Discovery Home and Health sobre uma garota viciada em refrigerante. Ela bebia cerca de 30 latinhas por dia. Em alguns dias, chegava a tomar 50. Por causa disso, ela estava com um quadro de pré-diabetes, colesterol alto, etc, mas mesmo assim seguia tomando as latinhas. Sua mãe e seu irmão, que moravam com ela, não se cansavam de pedir:

– Chega de tomar refrigerante!

Quando acordava, a primeira coisa que ela fazia era abrir uma latinha de Coca. Na sequência, lá vinha a mãe:

– Logo cedo? Chega de refrigerante!

Essa garota tinha vinte ou vinte e um anos e tomava essa quantidade maluca de refrigerante desde a infância. Ou seja, já devia fazer alguns bons anos que era advertida diariamente, várias vezes ao dia, pela mãe e pelo irmão:

– Meu Deus, isso tem que parar! Chega!

Um dia, a mãe e o irmão da garota entram em contato com a equipe do programa, um especialista em compulsões alimentares e uma nutricionista (para elaborar a nova dieta da futura-ex-compulsiva, cheia de chás e sucos naturais). É aí que as gravações do programa começam. Empolgada, a mãe começa a fazer vitamina de frutas para a filha tomar no café da manhã, mas ela não abre mão do refrigerante. Depois de muitas atividades propostas, como pedir para a garota jogar fora refrigerantes ralo abaixo e diminuir a quantidade diária para 28 latinhas, depois 25, etc, a família e os especialistas desistem. Motivo: a garota não via que precisava ser ajudada e não se empenhava na recuperação.

Nos olhos da família, uma decepção enorme, uma tristeza doída, mesmo. Nos olhos da menina, o alívio com o fim da intervenção era visível: ufa, vou seguir em paz tomando meu refrigerante.

Fui dormir pensando na solidão dela.

Percebo que alguns vícios são mais facilmente inscritos nas rotinas das pessoas. Um alcoólatra, um dependente de cocaína – esses, mais cedo ou mais tarde, terão problemas na família, no trabalho, etc. Já a garota do Discovery, com suas 30 ou 40 latas de refrigerante por dia, podia manter sua rotina de trabalho – era enfermeira –, assim como os viciados em compra, os compulsivos por comida, etc.

Especialistas no assunto dizem que vícios são vícios, mas esses que são mais incorporados à rotina são os que mais me sensibilizam. Acho que é porque a pessoa está lá, tentando lidar com uma angústia sem nome, e, do lado de fora, precisa ouvir as vozes mais queridas se limitando à mera encheção de saco:

– Chega de refrigerante! Chega de compras! Vai comer de novo?

Parece, para algumas pessoas, como para a família dessa garota do refrigerante, que os dependentes não são dependentes, não estão passando por nenhuma questão ou dificuldade: são apenas malucos, gente esquisita ou preguiçosa, que só precisa de alguma força de vontade para manter à distância o objeto de sua compulsão. Como se isso fosse resolver tudo. Como se o problema fosse o refrigerante, como se cortar as compras ou o excesso de calorias fosse a solução, como se não existisse nada por trás do vício deles: há um pedaço estragado nessa maçã, vamos arrancá-lo e tudo estará resolvido.

Lembrei de uma visita que fiz a uma clínica de reabilitação no início do ano. Ao me falar dos números das internações, a gerente confessou que, por melhor que seja a clínica, o índice de reincidência costuma ser bem alto. Quando o tratamento acaba, a pessoa sai de lá sem vestígio da substância que causou a dependência. Um, dois meses depois, volta. Era comum achar pacientes que estavam na sexta, na décima internação. Conversei com uma garota que estava na vigésima (!). A substância não estava mais no corpo dela, mas o vazio de sempre, sim. Afinal, não foi à toa que um vício ocupou o lugar que poderia ser de um uso ocasional. Não foi à toa que aquele vício entrou, se esparramou e conseguiu ficar, foi?

Se a menina do programa conseguisse ir até o final do tratamento e parasse de tomar refrigerante, ou mesmo se todos os refrigerantes do mundo sumissem, minha aposta é que, tempos depois, ela se viciaria em outra coisa. De preferência, algo que lhe possibilitasse continuar sendo enfermeira, filha e irmã.

O refrigerante teria sumido, mas, desamparado, o buraco continuaria lá, gritando dentro dela, ardendo, implorando para ser preenchido por alguma outra coisa. Qualquer coisa.

 

4 comments to “A menina do refrigerante”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Didi - 25 de novembro de 2013 at 7:56 Reply

    Também penso assim. Vícios são limitadores da vida, e alguns mais limitadores que outros. E acho que quase todo mundo guarda algum vício: trabalho, pornografia, televisão, internet, comida, compras, salão de beleza, jogos, limpeza, cerveja, coleções, futebol etc. Alguns vícios carregam um status social. Outros não. Até entendo que a droga não leve a nada e que não deva ser estimulada. Mas, aqui na França por exemplo, o cigarro não é mal-visto, mas comer chocolate é. E aí todo mundo vai horrorizar quando você diz que está com desejo de chocolate. E todo mundo te empresta o isqueiro quando diz que quer fumar. Não entendo essa lógica. Acho que o vício socialmente aceito pode ser tão limitador como o outro, mas ele nunca vai começar a ser combatido, porque não há o entendimento de que é um vício. E, assim, talvez, nem haverá o questionamento de que ele existe por uma razão maior. Talvez, por falta de originalidade no início do processo.

    • Liliane Prata - 25 de novembro de 2013 at 10:38 Reply

      Lembro de vc falando dessa questão do chocolate/cigarro, muito bizarro mesmo! Penso sempre nas pessoas que não conseguem largar o videogame e são consideradas viciadas pelos mais próximos, enquanto as que não conseguem largar um livro são estimuladas. Sem contar os vícios “saudáveis”, em corrida, dieta… Qualquer coisa pode viciar, e tb acho que qq pessoa guarda algum vício, em algum grau, pelo menos em alguma fase da vida. Alguns são mais danosos ao organismo, outros, mais tranquilos e conciliáveis com o resto da vida, alguns são “cool”, outros “feios”… Sempre com uma razão maior por trás, que precede o vício.

  2. Kaila - 9 de dezembro de 2013 at 13:06 Reply

    Um homem sem um vício…não é homem.

  3. Deborah - 6 de junho de 2015 at 12:54 Reply

    Bem, eu li um livro chamado O Poder do Hábito que explica essa questão dos vícios sob uma outra perspectiva. Basicamente ele defende que nós temos “deixas” (um sentimento, um momento do dia, um acontecimento recorrente) e em resposta a essas deixas nós executamos uma tarefa, comemos algo, fazemos alguma coisa qualquer e ao fazer isso nós temos alguma “recompensa” (sensação de alívio, tranquilidade, dever cumprido, endorfinas). Então cria-se um ciclo deixa-atitude-recompensa. Ao repetir esse ciclo por várias vezes, a nossa resposta a uma determinada deixa passa a ser automática, criando-se então o hábito.
    Isso explica porque escovamos os dentes ao acordar, sem nem pensar sobre isso, porque tomamos um cafezinho depois do almoço ou porque em determinado horário comemos uma coisinha qualquer mesmo sem estar com fome.
    E com o fortalecimento desse hábito, cria-se a figura do anseio. Você passa a desejar aquela recompensa e se sentir desconfortável se não executa a sua rotina de deixa-atitude-recompensa e não sossega enquanto não faz “o que tem que fazer”.
    Depois o autor demonstra que um velho hábito é impossível de ser aniquilado por completo do nosso cérebro, mas pode ser modificado. Isso se dá porque as deixas continuarão a existir e nós teremos que modificar a nossa atitude em relação e encontrar uma forma de obter uma recompensa resultante dessa nova atitude.
    Aí o autor ilustra essa teoria (que tem excelentes referências científicas) com vários casos. Uma das análises interessantes que me levaram a fazer esse comentário foi relacionada com casos bem sucedidos de pessoas que procuraram os alcoólicos anônimos e seguiam os passos. Um fenômeno observado foi a forma como que certos alcoólatras lidavam com certas deixas (ansiedade, tristeza, angústia) que antes desencadeariam o hábito de beber. Os que se recuperavam, ao identificar a deixa, ligavam para o “padrinho”, ou saiam de casa para se distrair ou mesmo comiam algum doce (substituição um pouco nociva, mas menos grave).
    Mas quando não há uma intervenção consciente ou inconsciente nesses hábitos, nesse loop, com um redirecionamento adequado, ao ter contato com as antigas deixas (inexistentes dentro do período de internação) os viciados tendem a retomar antigos hábitos (beber, comer compulsivamente, fumar) e hábitos, quanto mais praticados, mais fortes de tornam.

Deixar comentário

Your email address will not be published.