Uma breve reflexão sobre o amor

rainy-love-painting-by-leonid-afremov-rainy-love-fine-art-prints-1347431017_bTodo mundo costuma ter um pouco de dificuldade para definir o amor. Mesmo assim, criamos hipóteses sobre ele, damos conselhos, inventamos regras em todo lugar: nas músicas, nos filmes, nas caixas de cereal (juro: já vi uma coisa do tipo “dicas para se dar bem numa relação amorosa” numa caixa de cereal). Até aí, beleza: ninguém sabe muito sobre Deus e é superlegal conversar sobre isso. Mas acabam saindo teorias que são, no mínimo, bem questionáveis.

Uma das que acho mais loucas é aquela que fala que “amor, só uma vez na vida”. Uma tia minha, viúva, fala isso. Há dez anos. Acho lindo, mas, na boa, minha tia bem que podia parar de achar que a vida amorosa dela é modelo para todo mundo. Conheço quem teve um amor, como quem teve dez. Claro, tem gente que teve dez e vem com frases do tipo: “ah, mas é que só esse décimo é amor de verdade.” Acho desnecessário. Ora, amor de verdade é aquele que a gente está sentindo…

Aliás, esse negócio de medir/pesar/calcular o amor também é meio estranho. Não sei dizer bem o que o amor é, mas sei que não é algo que se mede/se pesa/se calcula como, digamos, paredes, tomates ou a área de um triângulo. Aliás, tendo a achar fraca qualquer teoria que compare amor à área de um triângulo. Por isso, não sei qual é o ponto de falar coisas como “eu amava mais o B do que o A” ou, pior, “Eu amo o C mais do que você ama o D”. É amor ou índice de vitamina C dos alimentos?

Outra coisa que costumam dizer sobre o amor é que ele é diferente da paixão. Que paixão é uma coisa louca, passageira, insana, e amor é calmo, duradouro e morninho (meio entediante, no fundo?). Nada contra fazer essa distinção, usando uma palavra para uma coisa e outra para outra coisa, da mesma forma que a gente fala “purê” quando a batata está amassada e só “batata” quando ela está inteira (certo, péssimo exemplo). O que acho chato é quando vejo pessoas praticamente brigando para ver quem está certo, sabe? Ou, mais chato ainda, quando vêm com regrinhas: “Não, você não entendeu! Amor é isso, paixão é aquilo”. Cada um usa as palavras do jeito que quiser, ué. Não é prova de semântica. Além disso, sem querer filosofar demais, os conceitos são construções teóricas, né, e não essências platônicas. Tipo: é meio maluco dizer que “na verdade, o amor é isso e isso”. Decida o que está chamando de amor e chame à vontade, sem briga nem arrogância – só uma sugestão.

Da mesma forma, não curto quando alguém vem com esse papo de que amor que é amor é para sempre. Até entendo que a pessoa que fala isso considere que só vai ter amado quando tiver sido para sempre (e seria coerente se ela só dissesse “eu te amo” só lá pelo final da vida, com uns 90 anos, né), mas daí a falar que tooodo o reino do amor tem que obedecer a esse requisito… Acho que até já falei isso aqui: não é porque o chocolate acabou que ele deixa de ser chocolate. Adoro esse exemplo!

“Bom, Liliane, desse jeito, fica difícil conversar sobre o amor”, você pode me dizer (ou melhor, você não está dizendo nada, talvez esteja até detestando este texto, e eu estou aqui viajando). Será? Ninguém sabe direito o que é o amor, mas todo mundo já amou ou vai amar (espero). E é muito gostoso falar sobre nossas experiências. Assim como é uma delícia criar teorias loucas, conceitos nada comprovados, mil regrinhas – como todo mundo, eu também faço isso. Mas só por diversão, vai. Não dá para levar muito a sério. Até porque, quando o amor bate, todos esses cálculos vão para o alto, levando com eles, felizmente, a área do triângulo e de qualquer outra figura geométrica.

* Esse meu texto foi publicado na revista Capricho quando eu era colunista de lá

 

4 comments to “Uma breve reflexão sobre o amor”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Camila Oliveira - 31 de outubro de 2013 at 17:26 Reply

    Ah Desneurando!! Me faz lembrar de uma época em que só precisava me preocupar com geometria, kkkk. O tempo passou, a responsabilidade bateu e ficou, e esse tal de amor ainda não chegou! rsrs… Saudades! Beijos Lili!

  2. Thais Rodrigues - 2 de novembro de 2013 at 20:13 Reply

    Bravo, bravo! Achei fantástico e divertido.

    Beijos,
    Thais.

    http://www.cadernoderisos.blogspot.com.br

  3. Vanessa Ribeiro - 4 de novembro de 2013 at 0:49 Reply

    Eu tinha uma teoria de que só era amor quando fosse recíproco, mas acho que “na verdade” eu tava errada… ou não, vai saber. =P

Deixar comentário

Your email address will not be published.