Somos quem queremos ser?

Marc-CHAGALL-Cheval-RougeFaz algum tempo que um amigo, durante um almoço, começou a me contar sobre os problemas que ele e a mulher estavam tendo com a empregada nova. 

Basicamente, eles estavam insatisfeitos porque ela chegava muito tarde à casa deles (às oito horas) e eles acordavam antes disso, umas sete. Eles queriam acordar com a mesa do café posta e a empregada não chegava a tempo.

Outra reclamação era que ela ia embora muito cedo (às sete horas), porque ela tinha uma filha pequena e, se não fosse embora nesse horário, já chegaria em casa com a filha dormindo. Então, o problema que se colocava era: como ela colocaria a mesa do jantar se ela precisava sair às sete e eles chegavam do trabalho por volta das oito?

Fiz as contas: eles queriam, então, que a funcionária ficasse no trabalho das sete às oito. Considerando que ela certamente morava na periferia, portanto longe da casa deles (ele não soube me dizer onde ela morava), vamos supor que ela levasse uma hora e meia para chegar ao trabalho e uma hora e meia para voltar. Com isso, se ela seguisse o esquema de trabalho que eles queriam, ela teria a seguinte rotina:

Acordar às cinco, sair para o trabalho, chegar em casa às nove e meia. Exausta, certamente.

Minha sugestão foi a seguinte: que eles mesmos cuidassem do café da manhã deles e esquentassem o jantar que ela deixaria pronto, e combinassem uma jornada de seis ou sete horas de trabalho por dia. E que pagassem melhor, porque fiquei pasma quando meu amigo, um executivo bem-sucedido, marido de uma mulher igualmente bem-sucedida, me disse quanto eles pagavam.

Isso tudo foi antes da legislação das domésticas. Nem sei como eles solucionaram a questão, no fim das contas. Mas nem é sobre isso, legislação das domésticas, que eu quero falar. Meu ponto é:

É comum ver as pessoas reclamando dos seus chefes, das suas jornadas de trabalho, das dificuldades do sistema: trabalhar muito, ganhar pouco, ter pouco tempo para a família, amigos, etc. E, quando essas pessoas viram chefes, a tendência delas, pelo que vejo, é fazer tudo exatamente igual: pagar o mínimo possível, exigir muitas horas de trabalho, reclamar para dar folga quando o funcionário precisa etc. Às vezes, são pessoas que viram chefes em grandes empresas e não têm muita margem de manobra para chefiar do jeito que acreditam (embora eu pense que alguma coisa aqui, outra ali, sempre dá para fazer). Mas, às vezes, como no caso do meu amigo e da mulher dele, não há nada amarrando suas ações, a não ser uma, digamos, preguiça mental: eles simplesmente reproduzem o sistema, repetem as coisas do jeito que veem, em vez de aproveitar que são chefes para agir do jeito que gostariam que agissem com eles. Vão agindo de modo acrítico, sem pensar. Como pais que sofreram tanto ao serem espancados quando crianças e, agora que tiveram filhos, espancam seus filhos.

Precisamos nos render sempre à “normalidade”?

É muito difícil lutar contra a maré. Mas não acho que seja impossível, de jeito nenhum. Para mim, a pergunta que se coloca todos os dias, entre nossos freios sociais e nossas possibilidades individuais, é: somos quem queremos ser?

2 comments to “Somos quem queremos ser?”

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  1. Didi - 17 de outubro de 2013 at 6:16 Reply

    muito boa reflexão! Vejo isso também entre alunos e professores. Alunos que reclamam dos professores e depois se tornam professores igualmente repetitivos, sem cuidado com horário e com a criatividade de suas aulas… A oportunidade de mudar surge sem avisar que é uma oportunidade de mudar!

    • Liliane Prata - 17 de outubro de 2013 at 13:40 Reply

      Concordo super, Di! E digo mais, conheço poucas coisas mais gratificantes do que se dar ao trabalho de fazer algo como gostaríamos que tivessem feito com a gente..

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