Dando um tempo na teoria

Olazaran_paintingOutro dia, saí com uma amiga que tinha me dado uma missão: não deixá-la telefonar para o ex. Eles tinham acabado de terminar, os dois sabiam que essa era a melhor coisa a fazer, mas, enfim, a gente sabe bem como opera essa lógica (ou falta de lógica) de fim de namoro. Bom, passamos o dia juntas e fui muito bem-sucedida no meu plano. Acontece que, no outro dia, minha amiga confessou que, um pouco antes de dormir, tinha ligado pra ele.

É claro que eu disse “O quê?, Como você pôde?” e o que todas as amigas costumam dizer nessas horas. Mas, para a minha surpresa, em vez de morrer de vergonha, ela disse que sabia que ligar era incoerente com o que ela queria (terminar), mas que, mesmo assim, quis ligar. Isso já tem umas semanas e, até onde eu sei, foi a última vez que eles se falaram. Fiquei pensando: às vezes, a gente sabe exatamente o que fazer. E escolhe fazer o contrário.

Tem hora que, apesar de saber tudo na teoria, não temos força para agir de acordo com ela – e lá vêm aqueles cinco segundos sem pensar que traem a gente e, quando vimos, já foi. Mas nem é disso que estou falando: tem hora que fazemos isso conscientemente, como minha amiga. A gente sabe que o melhor a fazer para passar naquela prova é estudar X horas por dia, mas, hoje, está tão bom ficar no sofá comendo pipoca e lendo revista. A gente sabe que gastou uma grana fazendo escova no salão para a festa de hoje à noite, mas, nesse calorão, acaba entrando na piscina. A gente sabe que fulana é meio falsa, mas está tão bom jogar conversa fora com ela no Facebook. A gente sabe que esse garoto é tudo o que não queremos, mas, puxa, que bom é ficar com ele. A gente sabe que gritar e bater a porta no meio da discussão com os pais não é a melhor maneira de ser ouvida, mas a gente vai lá e… grita. E bate a porta. No meio da discussão.

A gente sabe uma porção de coisas e vive abrindo mão delas, nem que seja por alguns momentos. Mas, quer saber? Ainda bem.

Afinal de contas, que mal tem em se permitir alguma travessura de vez em quando? A gente quer estudar, quer agir de forma madura numa briga. Mas, às vezes, mesmo sendo capazes de colocar tudo isso em prática, damos uma folga para essa sabedoria toda. Descansamos um pouco. Não somos robozinhos. Não temos que saber tudo o tempo todo. Pode reparar: a gente esquece e aprende a mesma coisa várias vezes. E, em certos casos, nem se pode falar que a gente esqueceu: a gente se lembrou perfeitamente. E resolveu desobedecer.

Medir a pior consequência que sua desobediência pode ter, nesse tipo de situação, me parece um bom parâmetro para decidir enfiar o pé na jaca, feliz e contente. Sem medo de ir com tudo! E recomeçar no dia seguinte.

Como minha amiga, que ligou para o ex para saber o que ele estava fazendo, para ouvir a voz dele, para matar a saudade, para recapitular mais uma vez os motivos que os levaram a terminar – essas coisas que a gente sabe bem.

* Esse meu texto foi publicado na revista Capricho quando eu era colunista de lá   

5 comments to “Dando um tempo na teoria”

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  1. Anne - 14 de outubro de 2013 at 23:34 Reply

    Oi Lili! É tão bom ler os teus textos da época da Capricho, dá uma saudade da minha adolescência, acho que tenho alguns guardados em casa ainda! Bem, estou lendo Três viúvas e estou adorando! É a primeira vez que comento, mas sempre que tenho tempo eu passo por aqui!! Beijos.

  2. Aline - 15 de outubro de 2013 at 12:50 Reply

    Nossa, casou bem com o momento em que estou passando hoje. Ótima crônica, Liliane!

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