Amores modernos

couple-dancing-ballet-naxartTem sempre alguém para dizer que as relações amorosas ficaram superficiais. 

Para essas pessoas, os casais de hoje em dia banalizaram o amor: o pessoal casa agora e se divorcia daqui a um ano, diz que ama fulano para sempre e depois aparece com outra pessoa, tem um filho com cada cônjuge, trinta e poucos anos e três casamentos no currículo (ops, me identifiquei com esse último item).

Dizem que o amor morreu, que as pessoas têm mais pressa do que paciência, e talvez tenham mesmo.

Mas aí me lembro da minha tia Rosa.

A minha tia está há 50 anos casada com a mesma pessoa, num desses relacionamentos sólidos de antigamente: na saúde, na doença e também no tédio, aliás, que tédio? A vida é assim mesmo e lá segue o casal, firme.

Um dia, num almoço de família, fiquei observando Tia Rosa e seu marido e pensando que segredos se revelavam quando o resto do pavê ia para a geladeira, as pessoas se levantavam e as portas se fechavam. Será que são felizes? Não sei. Será que ainda têm longas conversas, leem os olhos do outro, têm acesso privilegiado à alma do outro?

Pode ser que sim. Pode ser que não. Tenho minhas suspeitas, mas nunca verei muito além do que a atitude social deles me permite enxergar.

O que sei é: como sempre, tem de tudo. E, se tem uma coisa que tem, são casais que estão juntos há décadas e têm uma relação muito rasa. Conversas que são sempre sobre compras de supermercado, consultas médicas e horários de novelas e jogos de futebol: pessoas que convivem com outras debaixo do mesmo teto, mas de maneira protocolar, nunca avançando os limites das tarefas e da rotina.

Não são só os casais. Há pais e filhos que moram juntos e mal se conhecem, irmãos que não sabem quais os medos, as preocupações, as alegrias um do outro – que não conhecem o mundo do outro.

Em relações longas ou curtas, intimidade é algo que pode ir e vir, ser encontrado, perder-se, achar-se de novo. Irmãos que sabiam tudo sobre o outro podem se distanciar enquanto continuam fazendo suas refeições juntos, parentes que mal se falavam podem passar a se conhecer de verdade. Casais que têm décadas de relacionamento podem ter se perdido há anos. Podem nunca ter se encontrado. Encontros de verdade, encontros de almas, acredito que sempre foram raros: agora ou na Grécia Antiga.

Penso que casais que ficaram juntos por pouco tempo podem ter uma relação muito mais profunda do que um determinado casal que está junto há anos. Relacionamentos longos podem ser superficiais. Relações que acabaram rápido podem ter sido intensas, viscerais, transformadoras, verdadeiras: um encontro real de duas pessoas que, enquanto estiveram juntas, permitiram se enxergar de verdade, em suas clarezas e suas sombras, com conversas muito além do que o que comer na hora do almoço, com sorrisos e lágrimas que inundariam algumas insossas bodas de prata.

Hoje em dia, se há pressa e impaciência, também há pessoas que não se contentam com o parceiro que fala sempre de trabalho e nunca de si, com aquele que não ouve, não acrescenta, não combina, não se interessa, quer fazer tudo do mesmo jeito todo dia. Se não há mais a obrigação legal ou social de permanecer junto, que não se permaneça.

Apressados, sim. Impacientes, também. Superficiais, nem sempre: o amor não morreu, só não quer mais ser desperdiçado em encontros que já não valem a pena.

 

4 comments to “Amores modernos”

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  1. Vanessa Correia - 6 de outubro de 2013 at 23:50 Reply

    A verdade é que tem muita gente que pensa que tempo serve pra calcular a intensidade do amor. Na minha opinião é melhor se arriscar em vários relacionamentos e viver todos intensamente do que permanecer com a mesma pessoa só pra poder dizer que o amor durou ‘pra sempre’.

  2. Thaís Ancelmé - 7 de outubro de 2013 at 10:30 Reply

    Meu Deus! (…) Liliane, fantástico! Sempre ao fim de seus textos eu procuro um comentário que faça jus, e não consigo expressar nada além de tudo o que cabe em “Fantástico”.
    É exatamente isso que eu procurava ler rs. Até tentei escrever, porque o meu momento fala sobre isso, mas minha agitação não permitiu. Muito bom! Chorei litros.

    Beijos

    • Liliane Prata - 7 de outubro de 2013 at 13:05 Reply

      Que ótimo vc ter curtido tanto, Thaís… Vivo me encontrando em textos por aí, é bem gratificante ver qdo se encontram num texto meu 🙂

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