A criança que fomos

0834451Tenho um irmão mais velho. Quando éramos crianças, brincávamos muito um com o outro, mas às vezes ele me dizia coisas não muito agradáveis sobre vampiros, bruxas e seres malvados de outro planeta. Às vezes, eu ficava com medo e chorava. Então minha mãe ou meu pai me garantiam que aquilo que ele tinha falado era mentira e eu me acalmava.

Um dia, indo com ele até a padaria, eu com meus cinco ou seis anos e ele com nove ou dez, vi um homem catando alguma coisa no lixo. Perguntei o que ele estava fazendo e meu irmão me explicou que ele estava procurando comida. Duvidei: comida no lixo? Ele então me explicou que sim, que aquele homem, assim como outras pessoas, comia o resto dos outros.

Chegando em casa, corri para perguntar para a minha mãe se era mais uma invenção do meu irmão para me assustar. Eu queria saber se aquele homem se inscrevia no mesmo universo mágico dos vampiros, bruxas e seres malvados de outro planeta. Muito envergonhada, como se a culpa fosse dela, minha mãe disse que ele não estava mentindo. Naquela noite, custei a dormir.

Como todo mundo, fui crescendo e me desestranhando do mundo, engolindo com mais facilidade coisas que não passavam pela minha delicada garganta infantil. Mas esta é uma das muitas consequências que o mundo adulto traz: um conforto para os olhos, por mais que a visão lá fora seja de adoentar qualquer retina. Lembro do olhar de quase orgulho do meu irmão quando ele me explicou o que se passava com o homem no lixo – era como se me dissesse: “Veja, eu sei como as coisas funcionam”.  O conhecimento de como a tal da realidade se dá vai soterrando nossa ingenuidade. Crescer é tentar se adequar: nascemos em um mundo já colonizado, e nós que nos viremos com o que há à nossa volta.

Acabei pensando nisso hoje por causa do dia das crianças. Porque acredito que vive melhor o adulto que aprendeu a negociar com o mundo a ponto de continuar vivendo nele – não podemos salvar todos que comem lixo na rua, por melhores que sejam nossas intenções –, mas que não concordou em assassinar a criança que um dia foi em prol de uma dita normalidade.

Que, neste dia das crianças, nós cuidemos não só daqueles que ainda não cresceram, mas também da nossa criança interior.

 

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