Mãe sem culpa

marge6Era o começo de 2011, eu estava no final da gravidez e fui fazer um ultrassom de rotina.

Tudo certo no exame, o médico escrevendo as informações no computador, quando resolvo tirar uma dúvida que estava me incomodando nos últimos dias. Não era uma dúvida que estava me matando, mas uma dúvida no estilo pulga-atrás-da-orelha, que é melhor tirar logo de uma vez, porque senão acaba virando uma obsessão. Enfim, a dúvida era a seguinte.

Segundo meu obstetra, eu estava engordando um tanto OK – um quilo por mês. Mas segundo minha mãe, minha sogra, minha diarista e minha depiladora, eu estava engordando pouco. E segundo minha mãe, sogra etc, minha bebê nasceria magra POR MINHA CULPA. De fato, aquele ultrassom mostrou que a bebê estava um pouco mais magra do que era esperado para a data, mas nada de mais. Tudo normal, segundo o médico que fez ultrassom. Mas o que custava perguntar?

“Ela está mais magrinha por minha culpa?”, perguntei. O médico franziu as sobrancelhas e disse: “De jeito nenhum. Sua bebê tem o peso dela geneticamente determinado. Sua alimentação afetaria o peso dela em situações extremas, como se você comesse compulsivamente ou se, ao contrário, você estivesse subnutrida. Mas você não está em nenhuma dessas situações extremas, o que significa que sua bebê vai nascer com o peso com que ela está programada para nascer”.

Fiquei aliviada. Mas isso não bastou para mim, sabe. Eu não queria só a informação, queria um tapinha nas costas. Então eu respondi: “Ótimo! Não tenho culpa de nada, né?”

Resposta do médico: “Eu não disse isso. Culpa você tem”.

Meu comentário intrigado: “Hã? Como assim?”

Resposta do médico: “Veja bem. Daqui a poucas semanas, você vai ser MÃE. Isso significa que, se um raio cair a poucos metros da sua filha e ela se assustar, a culpa terá sido sua. Tudo o que acontecer com sua filha será culpa sua.”

Achei muito espirituoso o comentário do médico. Ri. Meu marido riu. O médico riu.

Quando a Tina nasceu, vi que o médico tinha razão. O comentário dele não foi só espirituoso. Não foi uma piada. Foi uma profecia.

O jeito como eu pegava a Valentina, o choro da Valentina que não passava, o espirro da Valentina, a tosse da Valentina, o susto da Valentina, a cólica da Valentina – tudo, tudo era culpa minha. Isso, para os outros. Eu estava até bem condescendente comigo mesma – “Calma, Liliane, você está fazendo um ótimo trabalho.”

Ocorre que os meses foram se passando e, para a minha surpresa, a culpa que os outros me colocavam encontrou eco dentro de mim. E um dia, no sofá, não consegui ler enquanto a Tina brincava no chão, como eu fazia desde o nascimento dela. Tina estava brincando tranquila, feliz, a dois palmos de distância de mim, de vez em quando me mostrando um brinquedo, mas mais num momento ela-com-ela-mesma. Seria a visão da harmonia, se tudo o que eu conseguisse pensar não fosse: “Nossa, Liliane, que horror, sua filha brincando e você lendo, que péssima mãe você é, anda, vai brincar com ela, larga o livro, anda, anda”.

Depois de mais alguns episódios como esse, ficou claro que eu precisava fazer alguma coisa.

Pouco a pouco, fui tirando a culpa de mim. Ela está brincando feliz? Ótimo, vou ler meu livro. Estou cansada para brincar com ela? Beleza, vou colocar um DVD da Galinha Pintadinha.  Ela vai ficar com meu marido enquanto saio para almoçar com minhas amigas no sábado? Tudo bem, tenho certeza de que ela está muito bem com o papai dela.

Culpa, todo mundo sente. Quem não sente culpa nunca tem grandes chances de ser diagnosticado como psicopata. Mas calma. Nem por isso quero sentir culpa de situações banais ou erros humanos.

Pedindo licença para dar um tom dramático ao texto, quem tem de ter culpa e não tem  – porque é psicopata – é mãe que bota o filho recém-nascido na lixeira. Mãe que espanca, que é omissa em casos de violência doméstica, que xinga o filho de “imbecil” – essas são loucas. Eu sou – ufa! – uma mãe normal.

O que significa que eu brinco muito com minha filha, me empenho bastante em educá-la, beijo infinitas vezes a cabeça dela e dou infinitos “cheirinhos” no pescocinho dela, mas também que dou papinha de frutas industrializada quando estamos na rua, nem sempre estou a fim de brincar e às vezes prefiro sair sem ela. Afinal, amo minha filha intensamente, assustadoramente, incondicionalmente – muito mais do que pensei que fosse amar alguém um dia. Mas, espera, nem por isso deixo de ter marido, amigos, trabalho, interesses, preocupações e sonhos além da maternidade.

Vira e mexe alguma amiga sem filhos me pede para ser sincera e me pergunta se é mesmo legal ter filhos. Se vale a pena. Penso que não é todo mundo que tem filho que curte ter filho. Tem quem fique triste e até meio ranzinza quando chegam as crianças. Tem quem se arrependa. Mas quem pode discordar dessas mães e pais? A vida deles realmente ficou chata. Depois de terem tido filhos, estão sempre preocupados, se culpando, se torturando, se martirizando. Daí, é óbvio que ter filho deixa de ser a incrível experiência que pode ser.

Para curtir os filhos, acho que cada um, pai ou mãe, tem que saber seus limites e suas possibilidades. E fazer o melhor que pode. E o melhor que pode é bom. É suficiente. É ótimo, na verdade. Se uma mãe é mentalmente saudável, se busca conhecimento e informação para educar seu filho e se o ama, não tem como o melhor dela ser ruim.

Não tem por que se culpar.

E não tem por que não curtir, e muito, os filhos dela. Se não for assim, qual é o sentido de ter filhos? Preservar a espécie humana é que não é, Mumbai faz isso por todos nós!

* Esse meu texto foi publicado no início do ano no site bebe.com.br

Has one comment to “Mãe sem culpa”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Mariana Cruz - 18 de setembro de 2013 at 11:16 Reply

    ai, você tirou um peso de mim… porque as pessoas falam a mesma coisa pra mim! só pq eu estou entrando no 9º mês e só engordei 5kg, as pessoas acham q eu tenho q comer o triplo pro garoto nascer saudável, e qd fui fazer a ultra e ele tinha 2,400kg, a culpa foi minha pq eu não como direito. aí vem todas as outras culpas que já jogam em vc, do tipo: se vc não conseguir amamentar e seu filho tiver que tomar leite em pó, a culpa é sua! caraca! eu posso mandar meu peito sair leite?? não! se não quiser sair leite eu não tenho culpa, por mais que eu queira amamentar…
    seu post foi um alívio pra mim, vou até mandar o link pro meu marido hehehehe
    bjos

Deixar comentário

Your email address will not be published.