Por que não devemos discutir pelo Google Talk

downloadTenho um longo histórico de discussões com namorados e, bem, maridos por MSN. Na verdade, tudo começou no ICQ, mas vamos parar por aqui, antes que eu comece citando coisas como disquetes, Pentium 486 e outras coisas que me fazem me sentir meio velha.

Eu achava dinâmico discutir pelo computador, não sei por quê. Esclarecer coisas sem ninguém ouvir? Carregar uma briga portátil, que pode acontecer no trabalho ou na sala de informática da faculdade? Discutir questões fundamentais de um relacionamento enquanto como um sanduíche e checo se vai chover no fim de semana? Sei lá. Só sei que, aos poucos, fui percebendo como é estressante discutir por esses chats. Já deve fazer uns cinco anos que não caio nessa tentação, e eu gostaria de ser uma dessas pessoas que nunca têm necessidade de convencer ninguém a coisa alguma, mas vou tentar convencê-lo de que, pelo seu bem-estar mental, o melhor é fazer como eu.

Vamos lá: pré-história. As pessoas não escreviam, só falavam. A fala é muito mais instantânea do que a escrita: você fala, o outro ouve e acabou, as palavras somem no ar. Agora chega de pré-história. O tempo foi passando e o pessoal começou a escrever. Mas tem uma coisa: a escrita não é como a fala. A palavra escrita ganha força: o que está escrito é feito para durar, para ser… lido. E, quando a gente escreve, a gente reflete, apaga, reescreve, pensa, e, aliás, parece bem mais inteligente, porque tudo já foi pensado, repensado, organizado (isso, se você escreve minimamente bem, claro. Se você não se preocupa com ortografia ou concordância verbal, talvez seja melhor falar, mesmo!).

Bom, brincadeiras à parte: já a fala, lembremos, acontece ali, na hora, com você se corrigindo em tempo real.

Até aí, nenhuma novidade. Quando estamos no calor de uma briga, pessoalmente ou por telefone, sabemos que a fala é meio (ou bem) caótica. Tanto que as brigas costumam ser cheias de “opa, não foi isso que eu quis dizer, acho que é aquilo, ah, não sei, deixa eu começar de novo”. Como você não gravou o que a outra parte disse (espero que não, né! Seu psicopata), você não vai se lembrar exatamente do que ele/ela falou. As palavras acabam ali, com o fim da conversa, e sobram apenas (suspiro!) as recordações. No fim, você esquece algumas partes e fica só com o resumo, mesmo. Na hora de contar a briga, vai ter um monte de “Ele falou mais ou menos isso”, “não lembro se isso foi antes ou depois de eu dizer aquilo” etc.

É aí que entra a esquizofrenia das brigas pelo GTalk/chat do Face etc. Por um lado, é texto escrito. Por outro lado, não tem a reflexão da escrita, mas a instantaneidade da fala: a pessoa escreve enquanto vai pensando, como se estivesse falando. Resultado: aquilo que veio rápido, espontâneo, sem reflexão, é lido, relido, armazenado, analisado, mandado por e-mail para as amigas, discutido. O que era para ser momentâneo dura. Cada linha que a outra pessoa faloscreveu (certo, sem neologismos daqui em diante) ganha uma dimensão muito maior, e a briga fica muito mais estressante.

Vai por mim: não discuta o relacionamento nem brigue pelo GTalk/similares. Deixe isso para o telefone ou, melhor ainda, pessoalmente, com direito a olhares, beijos, frases incompletas e gaguejadas. Ou, então, escreva uma carta/um e-mail, mas aproveite as vantagens da escrita: leia e releia antes de mandar, escolha cada palavra. Melhor ainda: depois de reler, vá fazer outra coisa, deixando o texto em banho-maria antes de mandar. Mas não vá perguntar pelo GTalk o que a outra pessoa achou, por favor.

Liliane Prata gosta mesmo é de não discutir o relacionamento

* Esse meu texto foi publicado na revista Capricho quando eu era colunista de lá

 

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  1. Nataly - 1 de setembro de 2013 at 19:59 Reply

    Eu tinha essa mania besta de discutir por e-mail, msn, skype, sms… Mas daí tudo que eu falava era usado contra mim… Comecei ficar cabrera, hoje, se for pra discutir, só pessoalmente, hahahahaha.

    (A ilustração foi a mais fofa ever!!! Amo Calvin!!!)

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