O que é o luxo, mesmo?

O-Grande-Gatsby-26abr2013-02-600x394Quando penso em luxo, me lembro de um jogador de futebol, alguns anos atrás, dizendo mais ou menos assim: “É mais legal ter uma Ferrari no Brasil do que na Europa, porque na Europa todo mundo tem”. Muitos o criticaram. Mas, para mim, a frase dele sintetiza o que há de mais humano no consumo de artigos de luxo. Porque se tem algo que nem o jogador nem o fabricante da Ferrari inventaram é isto: essa vontade que todo mundo tem, em algum grau, de se destacar. De chamar a atenção não só por aquilo que é, mas por aquilo que possui.

E a variedade do que se pode possuir e exibir vai muito além de automóveis luxuosos: pode ser a concha trazida de Bali, a camisa autografada, a caneta mais diferente – não necessariamente a mais cara. Também pode ser o cabelo mais bonito, a voz mais afinada, o talento para desenhar.

O que é luxuoso para um nem sempre é para outro: uma TV a mais é um luxo para muitas famílias. Isso para não falar de coisas como o tempo – talvez o item mais luxuoso de hoje – ou um prosaico pedaço de torta para quem está de dieta. Para muitos, Ferraris não são luxuosas – são abstratas demais para se colarem a adjetivos, distantes demais para serem qualificadas. Para muitos, viajar de avião ainda é um luxo. Ir ao teatro, admirar um quadro, ler literatura: se a arte é necessária para alguns, para outros não passa de acessório.

Por muito tempo, enxerguei no consumo de itens como carros importados uma afetação sem sentido. Então comecei a prestar atenção nessas pessoas para quem a TV a mais é um luxo. Ou naqueles que, como eu, não se interessam por jóias ou barcos, mas gostam de uma calça nova – quando as três no guarda-roupa dariam conta do recado. No limite, tudo que é supérfluo é luxo. Se não serve para alimentar (e no sentido de nutrir o organismo, e não de se deleitar com um bolo X coberto com o glacê Y), se não serve para cobrir o corpo (no sentido de se proteger das intempéries e da lei contra atentado ao pudor, e não de seguir as últimas tendências), se não serve para, enfim, conservar a existência, então não é essencial, é luxo, no fim das contas.

Mas faz muito tempo que viver não é só estar vivo, como era no tempo das cavernas. Viver já virou algo bem mais sofisticado do que manter o coração batendo: é dar significado às coisas e ir muito além do essencial.

“É muito mais legal ter uma Ferrari no Brasil do que na Europa, porque na Europa todo mundo tem” – todos criticaram na época, eu inclusive, e continuo achando a frase infeliz, mas seu autor só pensou alto aquilo que todos que vivem em sociedade sabem: temos, todos nós, lá no fundo ou bem na superfície, vontade de nos destacar. De nos sentir especiais. De brilhar no meio de uma fila opaca, seja com nosso carro, nosso rosto bonito ou nossas ideias.

Vivemos em tempos de Instagram, mas o exibicionismo não é de hoje. Em Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, o filósofo Rousseau comenta que, na vida em sociedade, depende-se tanto da opinião alheia que o prazer de uma aquisição consiste mais em mostrá-la do que em desfrutá-la. Exatamente como na frase do jogador, dita dois séculos mais tarde.

Talvez seja assim porque, no fundo, consumidores de Ferraris ou apenas de calças novas, mas sempre enfiando uma imensa variedade de artigos supérfluos no meio da nossa existência, nós precisemos nos sentir queridos. Aceitos. E se tem algo que o destaque traz é isso: a sensação, mesmo que ilusória, e mesmo que em um grupo restrito, de que somos aceitos. Somos respeitados, gostam de nós, somos admirados – importamos. É, talvez seja isso. Qualquer um que vive em sociedade quer a aprovação do outro porque quer se sentir aprovado como um todo. Vai ver precisamos desse aval alheio para justificar nossa existência.

Talvez a felicidade, ou, pelo menos, alguma felicidade esteja aí, afinal de contas – se importar com o olhar do outro, sim, até porque não há como não se importar, mas com um pouco menos de carência e um pouco mais de serenidade.

Estejamos falando de Ferraris ou calças a mais no guarda-roupa.

* Esse meu texto foi publicado no especial sobre luxo da edição de maio da revista Encontro 

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