O encanto dos subversivos

200px-andre_gide01No dia a dia, procuramos pagar nossas contas antes do vencimento, dar boas ideias nas reuniões, desejar feliz aniversário aos nossos amigos e lembrar de telefonar para a nossa mãe.

Em meio à ordem, nós nos confundimos, nos precipitamos, fazemos curvas sem pensar. Perdemos o foco onde costumamos acertar e enfiamos discussões ásperas em tardes ensolaradas; às vezes bebemos demais e nem sempre dormimos oito horas por noite.

Nossos erros, tão errados, voam envergonhados para debaixo dos tapetes do nosso terapeuta, para os ouvidos chorosos de nossos maridos e esposas, as caixas de calmante, os banhos demorados e os olhares para o horizonte.

Maldizemos os erros, tropeçamos nas sombras e sabemos que não passamos de seres humanos, mas queremos passar.

Na ficção, esquecemos. De nós e dos nossos amarrotados.

E então os erros dos outros ganham, orgulhosos, o melhor assento no sofá. Estejamos falando das Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, ou de Desonra, de Coetzee. Podemos falar de Caixa Preta, de Amós Oz, ou de O primo Basílio, de Eça de Queirós:

o que queremos agora é nos deliciar com equívocos subversivos, ver os personagens metendo as mãos pelos pés, assistir a seus erros de camarote. Porque os nossos erros, nós não os suportamos. Mas os erros deles, nós os desejamos – de preferência, acompanhados por uma boa xícara de chá. 

Has one comment to “O encanto dos subversivos”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. carla abreu - 3 de setembro de 2013 at 19:35 Reply

    Legal! Vivo constantemente encantada pelos subversivos!

Deixar comentário

Your email address will not be published.