O delirante ferido

doc4e839334da0ea199971842Delirou tanto que se feriu, feriu-se tanto que num canto surgiu a amargura como cicatriz.

Nunca havia sonhado com o mundo. Pensava estar sonhando com o mundo, não sabia que não há sonhos com o que nunca se conheceu. Alguns o confundiam com o sonhador, mas ele era o delirante: delirava sobre o inexistente e acabou tragado pelo rastro largo do que nunca foi.

Zonzo, perdido no rastro, ele pisou na grama a contragosto e acabou cego. Nunca havia gostado da grama, nunca se sentiu à vontade com as pedras descobertas entre os verdes macios. Agora havia as pedras e a cegueira, cegueira apenas para as coisas como as coisas são.

Ele se contorceu, desesperado por não ver, e enfiou rancores onde havia delírios, desesperança murcha onde era prenhe de riso fácil, moralismo no lugar da leveza. Corcunda com tanto peso, saiu cambaleando, torto, salivando ódio e defecando ódio.

Vejam, vejam, é o delirante ferido, diziam. Todos podiam vê-lo e ele não suportava ninguém.
Ele está machucado, foi devastado e ainda carrega muito peso: respeitemos.
Deve estar com fome, alimenta-se com o sabor insuportável do que nunca chegou a ser.

O delirante ferido se feriu sem sentir o peso do ser.

 

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